Portugal supera Espanha no fabrico de sapatos. Preço médio na exportação sobe 2,5%

Indústria portuguesa destaca-se como 2ª mais relevante neste setor a nível europeu e segue também apenas atrás de Itália no preço por par de sapatos exportado, mas agora com perseguição mexicana.

A indústria portuguesa subiu dois lugares na lista dos maiores produtores de calçado a nível mundial, ocupando agora a 18º posição no ranking. Com uma quota de 0,5% em valor e de 0,3% em volume no ano passado, Portugal ultrapassa a Espanha, que inclusive saiu do top 20, afirmando-se como o segundo fabricante mais relevante neste setor a nível europeu, apenas atrás da Itália.

De acordo com o World Footwear Yearbook 2026, a que o ECO teve acesso, a Ásia vale 88,7% da produção mundial, com a China a manter a liderança com mais de metade do total (55,6%), a Índia a consolidar o segundo posto (12,2%) e o Vietname a aumentar a quota para 6,7%. Entre os dez maiores fabricantes mundiais, mostra esta publicação anual que analisa as tendências mais relevantes da indústria do calçado, só o Brasil (3,4%) e o México (0,9%) se intrometem no contingente asiático.

Valorizando o distanciamento face à concorrência espanhola, o diretor executivo da associação do setor (APICCAPS) comenta que “mais do que a posição absoluta num ranking dominado por grandes produtores de calçado de baixo preço, importa sublinhar que Portugal combina uma dimensão produtiva relativamente reduzida com uma das mais elevadas orientações exportadoras entre os principais produtores mundiais”.

É que quase 93% dos sapatos que saíram das fábricas portuguesas em 2025 tiveram como destino clientes no estrangeiro, espalhados por 174 países nos cinco continentes, com o país a figurar neste estudo como o 13º maior exportador em valor com 1.949 milhões de dólares (cerca de 1.718 milhões de euros às taxas de câmbio no período de referência) — recuando para o 17º lugar em quantidades, com 69 milhões de pares a serem comercializados para o mercado internacional.

Aliás, Portugal só não aparece mais acima neste ranking de exportadores, dominado igualmente pela China e com o Vietname e a Indonésia a fecharam o pódio, porque entre as principais origens encontram-se não apenas países com uma base produtiva relevante, mas também alguns que são sobretudo centros logísticos e plataformas de reexportação, como é o caso da Bélgica ou dos Países Baixos. Isto é, registam volumes elevados de importação e também de exportação sem que isso corresponda necessariamente a produção nacional.

A mais recente edição do World Footwear Yearbook mostra que Alemanha (peso de 24%), França (20%), Países Baixos (11%), Espanha (11%) e Reino Unido (6%) figuram na lista dos mercados mais valiosos para as empresas portuguesas em 2025. Alargando a análise aos últimos cinco anos, as geografias que mais cresceram nas compras de calçado português foram Alemanha, Espanha e EUA. Apesar da quebra de 12% no ano passado provocada pelas tarifas de Trump, o mercado americano cresceu 29% neste período, acrescentando 22 milhões de dólares à faturação do setor.

A publicação de referência para todo o setor e que a APICCAPS começou a publicar em 2011, mostra que os portugueses compram mais de seis pares de calçado por ano e identifica ainda os principais operadores de calçado em cada mercado. No caso português, em termos de volume de negócios, a liderança continua a ser ocupada pela Gabor (91,1 milhões de dólares), que tem uma fábrica em Barcelos e reporta 1.151 trabalhadores no país.

Seguem-se a dona das sapatarias Seaside (Sopropé, com 87,6 milhões de dólares e 662 empregos) e a unidade industrial da dinamarquesa Ecco em Santa Maria da Feira, com 773 funcionários e vendas de 74,3 milhões. O top 5 de maiores operadores do calçado no país fica completo com duas exportadoras de Felgueiras, a Rodiro e a Carité, que em conjunto faturam 100 milhões de dólares e dão emprego a quase 500 pessoas.

Após dois anos de quebra no valor das vendas ao exterior, a indústria portuguesa do calçado conseguiu em 2025 contrariar a contração registada pelos concorrentes italianos e espanhóis, ao fechar com um ligeiro crescimento de 0,8%. Já nos primeiros cinco meses deste ano, que se está a “revelar muito difícil para a indústria a nível mundial”, reconhece Paulo Gonçalves em declarações ao ECO, as exportações nacionais estão a recuar 2,7% em termos homólogos.

Ainda assim, com base nos dados oficiais mais recentes publicados pelos diferentes países, esta quebra nacional é inferior à da generalidade dos concorrentes, à exceção da Itália (-1,6%). As fábricas espanholas venderam menos 3,8% neste período, outros players igualmente relevantes como a Turquia e o Brasil estão a encolher 27,9% e 29,6%, respetivamente, ao passo que gigantes como a China (-17,6%) e o Vietname (-9,3%) estão também em contração.

“Apesar da evolução negativa, os dados preliminares apontam para que Portugal se encontre entre os principais países produtores de calçado que registaram melhor desempenho num contexto de abrandamento generalizado do comércio internacional do setor. A capacidade da indústria portuguesa para preservar o seu posicionamento em segmentos de maior valor acrescentado sugere que a estratégia definida pelo setor é a mais adequada”, defende o porta-voz da APICCAPS.

Encolhe ‘gap’ italiano e sobe pressão mexicana

Mesmo não significando uma evolução uniforme dos preços de todo o calçado português, um dos indicadores mais relevantes na comparação internacional — e que sustentaram até parte da estratégia comunicacional da indústria na última década e meio — é o do preço médio na exportação. No último ano, este valor unitário voltou a subir cerca de 2,5%, para os 28,25 dólares, o que permite a Portugal manter o estatuto de segundo mais caro a nível mundial.

Notando que este progresso pode resultar de fatores como o aumento dos custos de produção, alterações no tipo de calçado exportado, mudanças no peso relativo dos diferentes mercados de destino e efeitos cambiais, Paulo Gonçalves destaca que “num ano em que o volume exportado permaneceu sob pressão, o aumento do preço médio mostra que a indústria portuguesa conseguiu preservar o valor das suas exportações e o seu posicionamento nos segmentos de maior valor acrescentado”.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Na prática, o estudo deste ano mostra uma aproximação de Portugal a Itália, que, embora continue e ostentar um preço médio muito superior ao de todos os restantes produtores, registou uma redução acentuada de 68,14 dólares em 2024 para 63,67 dólares em 2025. E, ao mesmo tempo, uma quase colagem do preço médio das exportações do México (aumentou de 26,80 para 28,23 dólares por par). “Em termos estritamente estatísticos, a proximidade entre os dois valores significa que a ordem do ranking pode vir a alterar-se. Sem dramas”, desvalorizam os industriais.

“Uma análise unicamente focada no preço médio não mede totalmente a qualidade do produto, a notoriedade internacional, a capacidade exportadora ou o posicionamento global de uma indústria. Os perfis dos dois países são bastante diferentes. O México produziu cerca de 215 milhões de pares em 2025, mas exportou apenas 13,9% da sua produção. Portugal, apesar de produzir pouco mais de um terço da produção mexicana, exportou 69 milhões de pares no valor de 1.949 milhões de dólares, mais do dobro das exportações mexicanas, tanto em quantidade como em valor”, enquadra o dirigente associativo.

Num ano em que o volume exportado permaneceu sob pressão, o aumento do preço médio mostra que a indústria portuguesa conseguiu preservar o valor das suas exportações e o seu posicionamento nos segmentos de maior valor acrescentado.

Paulo Gonçalves

Diretor executivo da APICCAPS

Isto é, a aproximação do México é relevante do ponto de vista estatístico, mas não representa, por si só, uma alteração equivalente no posicionamento internacional das duas indústrias, argumenta, sustentando que “Portugal apresenta uma integração muito mais profunda nos mercados internacionais, uma presença geográfica mais diversificada e uma orientação exportadora próxima da totalidade da produção”.

Por outro lado, Paulo Gonçalves salienta que à medida que o calçado português vai reforçando a aposta em novos materiais e produtos, que foi aliás um dos objetivos do projeto BioShoes4All realizado no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) – mobilizou 60 milhões de euros, 69 parceiros e gerou mais de 200 resultados científicos, tecnológicos e industriaisentão “é normal que o preço médio sofra um reajuste em baixa”.

Paulo Gonçalves, diretor executivo da associação empresarial do calçado (APICCAPS)

A ficha nacional no World Footwear Yearbook 2026 evidencia parte dessa transformação em curso: o calçado em pele vale agora ‘apenas’ 58% do total comercializado (vs. 69% há três anos), ao passo que os produtos em borracha e plástico passaram de um peso relativo de 13% para 21% em três anos, e os que utilizam materiais têxteis de 8% para 12% Outro exemplo é o do calçado impermeável, que corresponde já a vendas de 55 milhões de dólares no exterior e em que Portugal figura como o quinto maior exportador com uma quota de 3,4% a nível mundial.

“Embora esta tipologia continue a representar uma parcela minoritária das exportações portuguesas de calçado, o resultado é positivo por demonstrar a capacidade da indústria para desenvolver competências e ganhar quota em diferentes especialidades. O crescimento neste segmento contribui para diversificar a oferta portuguesa, reduzir a dependência das categorias mais tradicionais e demonstrar a capacidade técnica e produtiva das empresas nacionais”, remata o diretor executivo da APICCAPS.

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