Preços do retalho alimentar sentem efeitos da guerra “a partir de abril”

Hipermercados têm estado a "absorver" aumento dos combustíveis sem refletir 'preço' do conflito no Médio Oriente na fatura dos consumidores. APED diz que "é natural" ver diferença já no próximo mês.

Semana após semana, desde o início do conflito no Médio Oriente, o valor do cabaz alimentar tem renovado máximos e o preço dos combustíveis disparado. Sem alarido, as cadeias de hipermercados têm vindo a alertar amiúde para os efeitos da guerra na sua atividade, mas é a partir do próximo mês que se vão começar a sentir verdadeiramente as consequências nas prateleiras (e nas carteiras). Quem assim prevê é o diretor-geral da APED – Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, Gonçalo Lobo Xavier, que critica as comparações de preços que têm sido feitas nas últimas semanas.

A associação que representa as empresas de distribuição esclarece que qualquer recorde no cabaz alimentar ou de outros produtos vendidos em janeiro pelas retalhistas deve-se à atualização dos preçários e tabelas salariais dos fornecedores no início do ano e não tem que ver com o ataque ao Irão, até porque foram contratualizados no quarto trimestre de 2025. “A cadeia de valor vai ser toda contaminada por este aumento dos custos da energia, desde o agricultor até à agroindústria, logística e transportes. Quando chegarem a nós já vêm com esses itens todos ajustados. É natural que, a partir de abril, já se comece a sentir alguma diferença”, disse Gonçalo Lobo Xavier.

Segundo o diretor-geral da APED, tanto o retalho alimentar como o especializado têm tido “enorme capacidade” de “absorção dos aumentos dos combustíveis nas suas operações” sem os refletir nos talões de compra. Por enquanto, repercussões como a subida do gasóleo, superior a 10 cêntimos por litro, sentiu-se apenas “nas operações de transporte e logística”, mas “assim que os diferentes elos da cadeia começarem a repercutir estes aumentos de custos nos preços de serviços e bens, será difícil manter a capacidade de atenuar estes impactos”.

É inescapável que a economia nacional se deparará com um choque inflacionista pelo lado da oferta, cujos principais efeitos serão potencialmente repercutidos no sector, nomeadamente a diminuição do poder de compra das famílias e o abrandamento do consumo.

Gonçalo Lobo Xavier

Diretor-geral da APED

Para já, as grandes retalhistas garantem que estão a absorver o impacto da subida dos custos do petróleo, mas se o conflito se prolongar o mais provável é que esses aumentos acabem por passar para os consumidores.

Os clientes ainda não estão a sentir, na globalidade dos produtos, uma aceleração da inflação”, afiançou o Chief Financial Officer (CFO) da Sonae, que detém os supermercados Continente, na conferência de apresentação de resultados anuais. João Dolores notou que “a inflação no retalho alimentar é uma inflação controlada” e “na globalidade” os preços mantêm-se.

Quanto ao futuro, é “natural que se esta situação persistir no tempo essa pressão inflacionista comece a surgir também na cadeia de abastecimento e nos fornecedores do grupo“, havendo já “alguns ecos de que isso esteja a acontecer”, explicou. O CFO da Sonae garantiu, porém, que à imagem do que aconteceu na última vaga inflacionista, em 2022, a empresa amorteceu o impacto para as famílias. “Fizemos o nosso papel, baixámos as nossas margens, acomodamos e amortecemos o impacto nos consumidores nessa altura, e é isso que podemos garantir também agora“, reforçou.

Os clientes ainda não estão a sentir, na globalidade dos produtos, uma aceleração da inflação (…) É natural que se esta situação persistir no tempo essa pressão inflacionista comece a surgir também na cadeia de abastecimento e nos fornecedores do grupo.

João Dolores

CFO da dona do Continente

Na semana passada, também o presidente executivo da Jerónimo Martins, Pedro Soares dos Santos, afastou receios de perturbações no abastecimento alimentar por consequência da guerra no Médio Oriente, até porque o aumento dos preços dos combustíveis “é o único impacto que até agora já tem efeito prático” na empresa por ser “imediato”. Pedro Soares dos Santos reconheceu que o contexto geopolítico torna a situação “muito delicada”, sobretudo em países como Venezuela e Ucrânia, mas é necessário “aguardar a evolução”.

Já o Lidl, o terceiro maior player no retalho alimentar nacional, apresenta-se como um “parceiro fiável, mesmo perante o atual cenário de conflito”. “Atualmente, não prevemos ser afetados por constrangimentos significativos na cadeia de abastecimento, o que nos permite continuar a garantir os nossos preços baixos”, garante Bruno Pereira, administrador de compras da Lidl Portugal.

Atualmente, não prevemos ser afetados por constrangimentos significativos na cadeia de abastecimento, o que nos permite continuar a garantir os nossos preços baixos.

Bruno Pereira

Administrador de compras da Lidl Portugal.

“Reavaliamos continuamente a situação para podermos reagir de forma rápida e flexível a qualquer momento, se necessário, de modo a continuar a dar resposta ao dia a dia dos nossos clientes, sem exigir alterações forçadas nos seus padrões de consumo Lidl”, acrescenta o mesmo responsável. Com as suas marcas próprias a representarem “75% do sortido” vendido, a retalhista, que conta hoje com mais de 290 lojas no País, refere que “num contexto de inflação, aliamos a valorização da marca própria a medidas de alívio financeiro imediato”.

“Através de reduções diretas de preços em centenas de artigos essenciais (uma estratégia que abrangeu cerca de 600 produtos em 2025), asseguramos que a escolha económica não compromete a qualidade exigida pelos consumidores, apoiando de forma real e prática o orçamento das famílias portuguesas”, nota Bruno Pereira.

Estamos atentos à situação existente, mantendo a nossa política de preço para os nossos clientes.

Filipa Rebelo Pinto

Diretora de produto da Auchan Retail Portugal

Estamos atentos à situação existente, mantendo a nossa política de preço para os nossos clientes”, adiantou Filipa Rebelo Pinto, diretora de produto da Auchan Retail Portugal, que no ano passado concluiu a aquisição do Minipreço. Sem adiantar se prevê mexidas nos preços, a responsável diz que quebras no consumo ou alterações nos padrões de compra dependerão “muito dos impactos a nível nacional, sendo que os clientes costumam ser rápidos na alteração de consumo em função da dimensão e da rapidez do impacto”.

Num contexto em que tem vindo a crescer o apetite pela chamada marca branca, Filipa Rebelo Pinto realça que, no caso da Auchan, “a marca própria continua a fazer o seu caminho, respondendo a um número crescente de necessidades do cliente, com um preço muito competitivo”.

Mesmo assim, há influências externas na confiança dos consumidores, que não só alteram o poder de compra como podem mudar as decisões (e restringir escolhas) nos corredores dos supermercados. “O INE [reportava que], em momento anterior à situação no Médio Oriente, já havia uma quebra na confiança dos consumidores, depois de dois meses de subida. Será, pois, difícil que a confiança dos consumidores, tendo em conta a correlação com o consumo, não seja ela própria prejudicada“, diz o responsável da APED.

Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED)

Questionado sobre a inflação num encontro com a imprensa, o CEO da dona do Pingo Doce sinalizou que “vai ser extremamente desafiante” manter o mesmo lucro operacional e margem registados no quatro trimestre de 2025. “Porque não é só na alimentação. Se tudo o que estiver ao redor da vida de uma pessoa, as taxas de juro, os combustíveis, toda a sua vida social disparar, as pessoas vão ter de fazer escolhas. E nós sabemos que, no nosso negócio, manter os volumes é fundamental para os negócios e fornecedores”, afirmou Pedro Soares dos Santos, a propósito do EBITDA e da respetiva margem, de outubro a dezembro, que foi de 668 milhões de euros e 7,1%, respetivamente.

O Intermarché segue a mesma linha de acompanhamento da evolução do conflito – que esta terça-feira ganhou esperanças de cessar-fogo – e tem estado a “garantir a continuidade do abastecimento” aos clientes. No entanto, a cadeia de hipermercados irmã da Bricomarché defende “medidas progressivas” para mitigar os riscos. “Em Portugal, esta conjuntura traduz-se sobretudo numa pressão acrescida sobre os preços e na necessidade de uma gestão mais rigorosa da cadeia de abastecimento”, alerta.

Até ao momento, temos conseguido acomodar parte do impacto da subida dos combustíveis através da implementação de medidas internas de eficiência. Contudo, trata-se de um esforço significativo, que não será sustentável de forma indefinida, caso os preços se mantenham em níveis elevados.

Mário Costa

Diretor-geral do Intermarché Portugal

 

IVA zero é “precipitado” ou “encantaria”?

Perante este contexto de crise, os governos da Península Ibérica estão a reagir de forma distinta. Enquanto do Palácio da Moncloa surgiu um plano mais abrangente para tentar controlar o impacto dos custos energéticos no bolso dos espanhóis, São Bento optou por reduzir temporariamente a fiscalidade sobre os combustíveis. O secretário-geral da CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal, Luís Mira, defendeu, na rádio Observador, que o Governo de Luís Montenegro deveria acompanhar as medidas anunciadas na vizinha Espanha, que avançou até com apoios à compra de fertilizantes para a agricultura.

É um dos calcanhares de Aquiles para a operação da dona do Pingo Doce, que opera nesta área através da Jerónimo Martins Agro-Alimentar. António Serrano, CEO da subsidiária, que recentemente adquiriu o grupo hortofrutícola Luís Vicente, disse que os preços da eletricidade estão “mais ou menos” controlados por estarem “negociados por alguns anos”, mas os fertilizantes registam agravamentos de preços “acima dos 60%” desde o ataque ao Irão. É o caso da ureia, exemplificou na conferência de imprensa de apresentação dos resultados anuais.

A propósito deste tema, o presidente da Mercadona lembrou que “o futuro é incerto” e que “os empresários têm de se adaptar” ao contexto geopolítico. A partir da sede em Valência, Juan Roig referiu apenas que “os preços sobem e descem por causa [da flutuação] das matérias-primas”, portanto “não depende de nenhum distribuidor” do ramo alimentar.

Reacendeu-se, então, o debate sobre a possibilidade do regresso do IVA zero num cabaz de produtos alimentares. Questionado sobre esta medida adotada na sequência da guerra na Ucrânia, em ambos os lados da fronteira ibérica, o CEO da Mercadona, Juan Roig, declarou que ficaria “encantado se os governos de Portugal e Espanha o decretassem amanhã”. “Mas isso não depende de nós”, completou Juan Roig. Depende dos legisladores – e é um tema para o qual há pressão da oposição.

CEO da Sonae, Cláudia Azevedo, ladeada pelo administrador executivo, Eduardo Piedade, e pelo CFO João Dolores, defendeu a o IVA zero RICARDO CASTELO/LUSA

A falar na conferência de apresentação de resultados, na semana passada, a líder da Sonae, que fechou o ano passado com vendas recorde acima de 11 mil milhões de euros, defendeu a adoção de medidas similares às que foram adotadas em 2022, aquando do início da guerra na Ucrânia, para amortecer o impacto da subida dos preços para os consumidores. Cláudia Azevedo confessou que “gosta muito” do IVA zero e reforçou que todos têm de fazer a sua parte para reduzir o impacto para as famílias.

“Na última vez [que houve uma pressão inflacionista], as medidas à cadeia de valor demoraram algum tempo, mas no fim acho que foi uma coisa equilibrada, entre as ajudas do Estado, os vários players“, detalhou a líder da Sonae, em respostas aos jornalistas, na conferência de apresentação de resultados anuais. Sobre medidas concretas, Cláudia Azevedo disse que “mais vale trabalhar numa solução conjunta” e a solução anterior “poderia ser replicada, nas suas várias componentes”.

Questionada sobre a reposição do IVA zero, a empresária mostrou-se muito favorável a esta medida, reforçando que “todos os players da cadeia de valor têm de ter o seu papel”. “E o Estado é um deles e da última vez fez de uma forma responsável. Acho que desta vez vamos encontrar uma solução, todos em conjunto, e atenuar o choque” para as famílias, apontou.

Para o diretor-geral da APED, essa medida ainda está fora de questão. “O regresso do IVA zero num cabaz de produtos alimentares essenciais parece-nos, para já, precipitado. Passam 25 dias desde que o conflito no Médio Oriente eclodiu. No caso do aumento acentuado dos preços de energia e das matérias-primas e da vaga inflacionista provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, essa medida acabou por ser implementada 13 meses depois”, recorda Gonçalo Lobo Xavier.

Na sua opinião, implementar o IVA zero num período temporal “tão curto”, sem se conhecerem em concreto os impactos no consumo e nos custos – ou como “serão distribuídos ao longo da cadeia de valor” da distribuição e do retalho – “teria um efeito insuficiente no apoio às famílias mais desfavorecidas”. “Evidentemente que, se esta for a decisão do governo, o retalho alimentar estará, mais uma vez, disponível para cumprir escrupulosamente o que for decretado”, ressalvou o ‘número um’ da APED.

Mário Costa, diretor-geral do Intermarché Portugal

O grupo Os Mosqueteiros tem uma visão ligeiramente distinta. O diretor-geral do Intermarché Portugal, Mário Costa, diz ao ECO que a reintrodução do IVA zero aplicado a um cabaz de produtos, como aconteceu em 2023, poderá “constituir um instrumento relevante para mitigar o impacto do aumento dos preços dos combustíveis, num contexto marcado por tensões no Médio Oriente”. Porém, a empresa sugere “alguns ajustes técnicos”.

A principal proposta do Intermarché era alterar o cabaz de produtos. Ou seja, atualizá-lo de forma “a refletir a realidade atual do consumo nacional e as novas pressões inflacionistas” e até um plano faseado. “Adicionalmente, a revisão dos mecanismos de monitorização seria essencial para garantir que as reduções fiscais são efetivamente repercutidas no consumidor final. Por fim, entendemos que a medida beneficiaria de uma definição mais clara da sua duração, idealmente com um calendário escalonado, evitando ambiguidades quanto ao término do regime”, propõe Mário Costa.

A tabela de preços que estará na segunda-feira nas bombas de gasolina e o desenrolar de eventuais negociações EUA-Irão ditarão que sabor terá a Páscoa dos portugueses.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Preços do retalho alimentar sentem efeitos da guerra “a partir de abril”

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião