Quatro semanas de guerra que atiraram o mundo para um estreito de tensões

De 28 de fevereiro a 28 de março, o conflito no Golfo matou milhares, abalou mercados e pôs líderes a procurar medidas para proteger cidadãos dos estilhaços económicos. E ainda não tem fim à vista.

No último dia do mês mais curto, arrancou uma guerra que parece não querer ser breve. Desde o anúncio do ministro da Defesa, Israel Katz, que as forças israelitas tinham lançado um “ataque preventivo” contra o Irão “para eliminar ameaças” até ao atual impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irão, que convive com o continuar dos bombardeamentos, o foco do mundo virou (novamente) para o Estreito do Ormuz, mas com as consequências a sentirem-se a nível global.

Donald Trump vai dando extensões à moratória que concedeu aos iranianos para aceitarem um acordo de paz de 15 pontos, mas embora os ataques a infraestruturas de energia estejam alegadamente suspensos, os restantes continuam, provocando milhares de mortes no Irão e no Líbano e obrigando milhões na região a abandonar as casas.

O fecho do estreito de Ormuz – outrora terreno de combate de portuguesesestrangulou o mercado de petróleo e, juntamente com os danos a infraestruturas de gás, libertou volatilidade e perdas nos ativos financeiros globais. Esses movimentos refletem os receios que o conflito trouxe para as previsões económicas, obrigando os líderes as tentar mitigar os impactos, com bancos centrais a prepararem aumentos nas taxas de juro e governantes a procurarem nas gavetas medidas para atenuar as subidas dos combustíveis e dos bens alimentares.

A imprevisibilidade do presidente americano, a pressão israelita e a opacidade da liderança iraniana tornam difícil prever o desfecho da guerra, que deverá continuar pelo menos até 6 de abril, prazo estipulado por Trump para o fim das negociações. Antes disso, contudo, nos próximos dias chegarão mais indicadores económicos que vão mostrar o impacto real que o conflito já está a ter nas nossas economias.

Veja aqui alguns dos principais impactos das primeiras quatro semanas de guerra:

O custo humano

Lusa

Primeiro, claro, o custo humano, pois qualquer balanço de guerra tem de começar com a contabilização da destruição de vidas. A que começou no dia 28 de fevereiro com os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irão não pode fugir à regra, embora os números sejam difíceis de verificar num conflito de bombardeamentos e sem grande presença de organizações humanitárias ou órgãos de media internacionais no terreno. Segundo dados compilados pela Reuters com base em informações governamentais, até 26 de março morreram 3.300 pessoas no Irão (incluindo 1.464 civis e pelo menos 217 crianças), enquanto no Líbano, os ataques israelitas vitimaram 1.116 pessoas, incluindo mais de 121 menores. Do outro lado da guerra, morreram 18 pessoas em Israel, quatro soldados israelitas no Líbano e 13 membros das forças americanas. No resto do Médio Oriente, as vítimas mortais não chegam a mais de 10 em cada país.

“Esta é uma crise enorme, e as pessoas precisam de ajuda”, disse na quarta-feira Barham Salih, o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), sobre a tragédia humanitária. Só no Irão, cerca de 3,2 milhões de pessoas foram deslocadas, enquanto mais de um milhão de pessoas foram forçadas a deixar as suas casas no Líbano — aproximadamente 17% da população — nas últimas semanas, à medida que a crise humanitária se agrava. “O número de deslocados em todo o mundo não tem precedentes na História, num momento em que os recursos diminuíram drasticamente”, afirmou, informado que de um apelo de 69 milhões de dólares em doações, a ACNUR recebeu até agora apenas 10%.

Os mercados em convulsão

“A guerra com o Irão está a ofuscar tudo o mais nos mercados“, referiram os analistas do banco privado suíço Julius Baer numa nota aos clientes publicada na quarta-feira. As bolsas começaram a precificar um cenário de guerra “duradouro e caótico”, danos permanentes à infraestrutura energética e, por extensão, uma oferta mais restrita e um impacto negativo na economia mundial no segundo e terceiro trimestres de 2026. “Há outras notícias sobre os mercados também, é claro, mas agora elas parecem notas de rodapé de um conflito que está a remodelar o cenário macroeconómico pelo canal mais direto possível: a energia”, sublinharam.

O fecho do Estreito de Ormuz, por onde passava perto de um quinto do comércio de petróleo do mundo, fez disparar os preços do crude, com o barril de Brent a ‘explodir’ 55,31% para 112,57 dólares, tendo atingido os 119,50 dólares a 9 de março, enquanto o de WTI escalou 48,67% para 99,64 dólares, segundo dados da LSEG. Nem as tentativas coordenadas pela Agência Internacional de Energia (AIE) para a libertação de um recorde de 426 milhões de barris de petróleo por 32 países teve o impacto desejado de acalmar o mercado.

No gás, os ataques às infraestruturas na região provocaram também subidas aceleradas nos preços, com o neerlandês Title Transfer Facility, principal referência para a Europa continental, a marcar esta sexta-feira os 54,177 euros por Megawatthora (Mwh), quase o dobro do registado a 27 de fevereiro, 31,96 euros por MWh.

“O mercado bolsista já entrou numa fase de aversão ao risco mais evidente“, referiram os analistas do banco de investimento neerlandêns ING, numa nota de research publicada na sexta-feira, dia em que os três principais índices acionistas de Wall Street fecharam a quinta semana seguida de quedas e em que o industrial Dow Jones e o tecnológico Nasdaq entraram em correção, ou seja, 10% abaixo do último pico. Na Europa, os principais índices perderam no mês entre 8% e 12%, enquanto, por cá, o PSI até sofreu menos, com um recuo de ‘apenas’ 4,25%.

Nos outros ativos, o ouro perdeu 13,79% desde o início da guerra, fruto de ser visto como fonte de liquidez para colmatar perdas noutros investimentos, mas também do dólar forte, dos receios sobre a inflação e resultante perda valor das obrigações soberanas americanas.

As economias ensombradas

O BCE, presidido por Christine Lagarde, reviu a projeção do crescimento da economia em 2026 para 0,9%, face à anterior projeção de 1,2%, em dezembro. EPA/CHRISTOPHER NEUNDORF EPA/CHRISTOPHER NEUNDORF

Os alertas sobre o impacto económico da guerra são tantos que até é difícil escolher um para salientar, mas a da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) resume bem o contexto de forma equilibrada: “O conflito no Médio Oriente está a testar a resiliência da economia global”. Segundo a organização internacional baseada em Paris, e que tem 38 países membros, a perspetiva está rodeada por uma elevada incerteza e reflete a interação de duas forças opostas. Por um lado, o crescimento é impulsionado pelo forte dinamismo dos investimentos e da produção relacionados com a tecnologia, pelas tarifas aduaneiras mais baixas do que as anteriormente previstas e pelos resultados robustos de 2025.

“Mas por outro lado, a paralisação do transporte através do Estreito de Ormuz e o encerramento e danos em parte da infraestrutura energética geraram um aumento dos preços da energia e interromperam o fornecimento global de energia e de outras mercadorias importantes, como os fertilizantes”, sublinharam. “Isto está a aumentar os custos, a afetar a procura e a aumentar as pressões inflacionistas”.

As diferentes organizações e regiões vão dando os seus avisos. Na Zona Euro, o Banco Central Europeu (BCE) já avisou que agora projeta a economia a crescer 0,9% em 2026, face à anterior projeção de 1,2% em dezembro, e 1,3% em 2027. No que toca à inflação, se no final de 2025, Frankfurt apontava para uma taxa de 1,9% neste ano, agora reviu em alta para 2,6%. Num cenário severo, no qual existe um choque de preços de energia mais forte e persistente, o banco central liderado por Christine Lagarde vê a inflação a situar-se em 4,4% este ano e 4,8% em 2027.

Na quinta-feira, no entanto, Lagarde abandonou a cautela habitual e deixou um aviso direto: os riscos para a economia mundial resultantes da guerra no Irão estão a ser subestimados, as expectativas de um regresso rápido ao normal são “excessivamente otimistas” e o “choque real” em curso é “provavelmente além do que conseguimos imaginar neste momento”.

Em Bruxelas, o tom começa a ser de maior pessimismo ao fim de um mês de conflito no Golfo. “Por enquanto, as perspetivas estão envoltas em profunda incerteza. Mas é evidente que corremos o risco de um choque estagflacionista”, disse esta sexta-feira o comissário europeu da Economia, Valdis Dombrovskis.

A economia portuguesa não vai, claro, ficar imune, e Álvaro Santos Pereira já teve oportunidade de emitir alertas. O Banco de Portugal (BdP) reviu em forte baixa as suas projeções de crescimento para este ano, apontando agora para uma expansão do PIB de 1,8% em 2026, menos 0,5 pontos percentuais face aos 2,3% estimados em dezembro.

A inflação é o preço imediato que os portugueses vão sentir na carteira, espelhado nas novas projeções do Banco de Portugal, que reviu em alta a estimativa de subida de preços para 2,8% em 2026, quando em dezembro previa apenas 2,1%.

A procura por medidas

O primeiro-ministro Luís Montenegro na conferência de imprensa após reunião do Conselho de Ministros, Palácio de São Bento, Lisboa, 27 de março de 2026. MIGUEL A. LOPES/LUSA MIGUEL A. LOPES/LUSA

Com a inflação e os juros nos mercados secundários a acelerarem, os bancos centrais vão abrindo as portas a subidas nas taxas diretoras nos próximos meses, ou pelo menos no atrasar de descidas. Segundo as apostas dos investidores, há uma probabilidade de 64% de o BCE aumentar o custo do euro na reunião de abril, mas do outro lado do Atlântico, a postura poderá ser diferente.

“Parece-nos provável que os bancos centrais apresentem respostas diferentes ao aumento dos preços da energia”, disse Sean Shepley, economista sénior da gestora de ativos alemã Allianz Global Investor (GI). “Em particular, os bancos centrais europeus fizeram questão de salientar a sua intenção de evitar um novo período de divergência prolongada da inflação em relação à meta, uma postura que os dados mais recentes dificilmente alteraram”.

Por outro lado, notou, “a Reserva Federal parece inclinada a adotar uma abordagem mais cautelosa, baseada numa menor ultrapassagem da meta da inflação e na sua preocupação com o fraco crescimento do emprego”.

Os banqueiros centrais estão constantemente a pedir medidas orçamentais aos governantes e uma crise como esta intensifica esse apelo. Mas entre a necessidade de ajudar a diminuir o impacto da crise nos cidadãos – particularmente da subida dos preços dos combustíveis e dos bens alimentares – e a vontade evitar derrapagens nas contas públicas tem de haver cuidados e são interpretados de forma diferente até entre vizinhos.

Em Espanha, por exemplo, o Governo de Pedro Sanchéz anunciou uma descida no IVA nos combustíveis, eletricidade e gás natural de 21% para 10%, ao abrigo de um pacote de “redução drástica da fiscalidade energética” de 80 medidas e que está avaliado em cinco mil milhões de euros. Deste lado da fronteira, o Executivo tem anunciado medidas mais cirúrgicas e focadas. Começou pelo corte extraordinário no apoio ao Imposto sobre os Produtos Petrolíferos aplicáveis, no continente, ao gasóleo e à gasolina sem chumbo, uma medida que já teve precedente durante a crise energética espoletada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

Esta sexta-feira, o Governo de Luís Montenegro anunciou um pacote de adicional de medidas que inclui apoios ao transporte de mercadorias, à atividade agrícola, aos bombeiros e até ao setor do táxi. “Ao todo, as medidas que estamos a tomar, significam cerca de 150 milhões de euros por mês de apoio na área dos combustíveis“, indicou o primeiro-ministro. “Os impactos e duração desta perturbação económica ainda não são possíveis de determinar. O foco é atenuar os impactos na vida dos portuguesas, manter capacidade financeira do Estado para poder intervir e ajustar eventuais medidas consoante evolução da situação”, concluiu.

O primeiro-ministro reafirmou, no entanto, a recusa do regresso do ‘IVA zero’ sobre bens alimentares essenciais, para evitar “falsas expectativas”, explicando que “várias possibilidades que poderão ser lançadas nas próximas semanas, nos próximos meses, se a situação evoluir negativamente do ponto de vista de instabilidade nos mercados internacionais, no caso concreto dos combustíveis e noutros que possam, de alguma maneira, afetar em termos de preço os bens essenciais”.

As próximas pistas

“Com o curso e a duração do conflito no Médio Oriente sujeitos a grande incerteza e a velocidade com que o fornecimento de energia poderá normalizar-se posteriormente igualmente difícil de avaliar, os primeiros dados que captam o início do conflito tornam-se particularmente importantes“, sublinhou Sean Shepley, da Allianz GI.

Nos Estados Unidos, o relatório de emprego de março oferecerá uma visão crucial da saúde da economia, à medida que os investidores avaliam as consequências da subida dos preços da energia. A expectativa é que o relatório de 3 de abril mostre um aumento de 48 mil postos, segundo uma sondagem da Reuters.

No bloco da moeda única, os dados preliminares da inflação euro para março serão divulgados na terça-feira. Depois de oscilar em torno dos 2% durante um longo período, prevê-se que o aumento dos preços da energia impulsione a inflação geral, como ocorreu em 2022. A questão é: qual será a magnitude e a duração deste aumento?

Os dados preliminares não são animadores, o crescimento do setor privado na zona euro abrandou acentuadamente em março, com os custos de produção a atingirem o seu nível mais elevado em mais de três anos e as cadeias de abastecimento a serem significativamente afetadas.

Em Portugal, o Instituto Nacional de Estatística divulga na segunda-feira o sentimento dos consumidores e o clima económico de março e, em simultâneo às 09h30, a inflação desse mês.

Para Shepley, da Allianz GI, os inquéritos sobre a confiança dos consumidores e das empresas já enfraqueceram consideravelmente, mas o sentimento revelou-se exagerado em grande parte do período subsequente à pandemia; por isso, os indicadores que acompanham mais de perto a produção económica são um melhor guia.

É o caso dos Índices de Gestores de Compras (PMIs), que têm a vantagem adicional de serem frequentes e oportunos“, referiu, notando que “abrangem uma série de questões relacionadas, por exemplo, com os níveis de atividade, novos negócios e preços pagos”.

“Para cada questão, os rácios mostram a proporção de empresas que reportam um aumento em relação à proporção que reportam uma queda”, explicou.

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