Quem ganha com a crise energética? Há vencedores inesperados no conflito do Golfo?

Países produtores de petróleo fora do Golfo e petrolíferas pouco expostas ao Médio Oriente beneficiam de preços mais altos de energia e do redirecionamento da procura.

A guerra no Irão está a provocar uma onda de choques cujo impacto vai depender da duração do conflito. No entanto, apesar da ameaça para a economia, e como em qualquer crise energética, há quem saia vencedor, como os países produtores de petróleo fora do Golfo ou empresas energéticas.

O Estreito de Ormuz, situado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, é uma das principais rotas energéticas mundiais, por onde transita cerca de 20% da produção global de petróleo e do gás natural liquefeito (GNL). A guerra no Irão levou a que Teerão tornasse a passagem praticamente intransitável como forma de retaliação aos ataques israelitas e norte-americanos, numa tentativa de pressionar Washington através do impacto nos mercados energéticos globais.

A decisão levou ao aumento acentuado do preço do petróleo e do gás natural, assim como a uma subida dos custos de transporte marítimo. A título de exemplo, desde o início da guerra, o Brent já disparou mais de 40% e o gás 55%. De uma forma global, dependendo da duração do conflito, o grau do impacto para os consumidores e empresas e consequentemente para a economia tenderá a subir.

A Agência Internacional de Energia (IEA na sigla em inglês), que considerou esta a maior interrupção de fornecimento de petróleo da história, sublinha que, mesmo com oleodutos alternativos operacionais, cerca de 16 milhões de barris por dia continuam expostos ao risco de encerramento do Estreito.

Desde o início da guerra, o Brent já disparou mais de 40% e o gás 55%. De uma forma global, dependendo da duração do conflito, o grau do impacto para os consumidores e empresas e consequentemente para a economia tenderá a subir.

Os 32 países membros da Agência Internacional de Energia decidiram na semana passada a libertação de 400 milhões de barris de petróleo para conter a subida a pique dos preços provocada pelo conflito. E esta semana já sinalizaram estarem dispostos a libertar mais.

Ainda assim, há quem esteja ligeiramente otimista. “A história sugere que os picos nos preços do petróleo decorrentes de choques geopolíticos e interrupções temporárias no fornecimento podem ser de curta duração”, assinalavam analistas do Goldman Sachs no início de março.

Contudo, numa nota de research os analistas do BNP Paribas estimam que num cenário de incerteza prolongada deverão registar-se subidas moderadas mas sustentadas do preço do petróleo (na ordem dos 70 dólares/barril). Porém, uma escalada da guerra com um bloqueio total e prolongado do Estreito de Ormuz poderá atirar o barril de Brent para picos de 130 dólares no segundo trimestre, levando a um choque estagflacionista.

De acordo com fontes ouvidas pela Reuters, os Emirados Árabes Unidos, o terceiro maior produtor da OPEP, produziram pouco menos de 3,4 milhões de barris por dia em janeiro, por exemplo. E a consultora Oxford Economics projeta que um corte de quatro milhões de barris/dia durante dois meses poderia empurrar o Brent para 140  dólares por barril, refletindo um prémio geopolítico considerável.

Ademais, quase 90% do GNL de países como o Qatar e os Emirados Árabes Unidos passa por ali, com destino maioritariamente à Ásia. Pelo que a escalada dos preços estende-se também a esta commodity. Analistas do Goldman Sachs estimam que, no caso de interrupção limitada, os preços europeus do gás podem subir para cerca de 74 euros/MWh num mês e ultrapassar 100 euros/MWh se o risco se prolongar. Rondam atualmente os 51 euros por MWh.

Há países com maior margem de manobra do que outros. À cabeça, os produtores de petróleo fora do Golfo, entre os quais os Estados Unidos, o maior produtor mundial de petróleo.

Ainda assim, perante este quadro, há países com maior margem de manobra do que outros. À cabeça os produtores de petróleo fora do Golfo. Num cenário em que as exportações do Irão, Arábia Saudita, Kuwait ou Iraque são fortemente afetadas, existe potencialmente maior margem e quota para os países fora da região, entre os quais os Estados Unidos, o maior produtor mundial de petróleo.

Isso mesmo já foi admitido pelo presidente norte-americano, Donald Trump. “Os Estados Unidos são, de longe, o maior produtor de petróleo do mundo, então, quando os preços do petróleo sobem, ganhamos muito dinheiro”, escreveu o líder americano numa publicação publicada na semana passada na rede social Truth.

Ainda assim, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, avisou esta semana que os norte-americanos podem esperar uma subida dos preços dos combustíveis nas próximas semanas, que deverão descer depois até ao verão. Em entrevista à CNBC, Wright comentou que há “uma boa hipótese” de os preços da gasolina caírem assim que “o maior risco para o fornecimento global de energia” desaparecer, esperando que a guerra possa terminar em breve.

Nessa altura, “haverá um mundo com energia mais abundante, energia mais acessível e menos riscos para os soldados norte-americanos e para o comércio no Médio Oriente”, acredita o secretário da Energia.

Neste contexto, há petrolíferas norte-americanas que poderão receber lucros extraorindários. De acordo com cálculos do banco de investimento Jefferies, citados pelo Financial Times, as petrolíferas americanas deverão gerar um fluxo de caixa adicional de cinco mil milhões de dólares este ano. No global do ano, os lucros inesperados podem chegar a mais de 60 mil milhões de dólares, caso os preços do petróleo bruto se mantenham nos níveis atingidos desde o início da guerra, segundo uma análise da Rystad Energy, citada pelo jornal britânico.

Os lucros inesperados podem chegar a mais de 60 mil milhões de dólares, caso os preços do petróleo bruto se mantenham nos níveis atingidos desde o início da guerra.

Uma outra análise da Rystad Energy considera que o “crepúsculo do shale norte-americano” não deve ser sobrestimado. Segundo os analistas, a indústria de shale dos EUA não tem, neste momento, qualquer impulso significativo de crescimento na produção de petróleo, ao mesmo tempo que perante um preço futuro do crude WTI (o negociado em Nova Iorque) de 60 dólares as empresas provavelmente vão continuar a seguir uma estratégia de manutenção da produção entre 2027 e 2029, evitando grandes investimentos face ao previsto.

E mesmo com preços entre 70 e 80 dólares, a tendência será sobretudo devolver dinheiro aos acionistas, através de dividendos, em vez de aumentar significativamente a atividade de perfuração.

O cenário muda, contudo, se o preço do WTI subir de forma sustentada para cerca de 100 dólares por barril. Segundo os analistas, nesse caso, o fluxo de caixa operacional médio das empresas produtoras de shale — isto é, o dinheiro gerado diretamente pelas suas operações — poderia aumentar cerca de 2,5 vezes. Deste modo, a atividade de perfuração e o investimento total não aumentariam proporcionalmente, mas haveria margem para aumentar a atividade entre 30% e 40% no ano seguinte, mantendo ainda os atuais níveis de dividendos.

Analistas estimam que se o preço do WTI subir de forma sustentada para cerca de 100 dólares por barril, haverá margem para as produtoras americanas aumentarem a atividade entre 30% e 40% no ano seguinte, mantendo ainda os atuais níveis de dividendos.

Neste quadro, o número de sondas horizontais em operação poderia começar a subir já na primavera, atingindo um pico de cerca de 650 sondas no final de 2027.

Mesmo considerando alguma deterioração na produtividade média dos novos poços, este nível de atividade poderia gerar um aumento da produção de cerca de 2,5 milhões de barris por dia à produção norte-americana ao longo dos próximos três anos e meio.

De acordo com a análise, entre 40% e 50% desse crescimento potencial viria da Bacia do Permiano, atualmente o principal motor da produção petrolífera dos Estados Unidos, enquanto o restante seria distribuído por outras regiões produtoras do país.

Ainda assim, o impacto difere entre as produtoras americanas pouco expostas ao Médio Oriente e as gigantes energéticas. É certo que empresas como a ExxonMobil, a Chevron, a BP ou a Shell registaram lucros extraordinários durante a crise energética de 2022, mas neste caso detêm ativos no Golfo, sendo especialmente afetadas pelo acesso à matéria-prima.

Paralelamente, com os preços de referência do petróleo do Médio Oriente usados para precificar milhões de barris com destino à Ásia a dispararam para máximos históricos, tornando-se os mais caros do mundo, os custos para as refinarias asiáticas aumentam.

As exportações da região desta matéria-prima para o continente asiático caíram para 11,665 milhões de barris por dia em março, o que compara com quase 19 milhões em fevereiro e cerca de 32% em relação aos níveis de março de 2025, de acordo com a Reuters.

Deste modo, os prémios para o petróleo das Américas e de África subiram devido à corrida das refinarias asiáticas por abastecimento. Dois operadores indicaram à Reuters que os prémios para o petróleo bruto brasileiro atingiram recordes de 12 a 15 dólares por barril em relação ao Brent, enquanto o prémio para o crude da África Ocidental com embarque em abril, na modalidade Free on Board, aumentou um dólar por barril em relação ao mês anterior, com a maioria já vendido.

Os prémios para o petróleo bruto brasileiro atingiram recordes de 12 a 15 dólares por barril em relação ao Brent. O Brasil, o oitavo maior produtor mundial de crude, pode vir assim a ser um inesperado ‘vencedor’, ao aumentar ainda mais as suas exportações para a China.

O Brasil, o oitavo maior produtor mundial de crude, pode vir assim a ser um inesperado ‘vencedor’, ao aumentar ainda mais as suas exportações para a China com o redirecionamento da procura. O gigante asiático já é o principal destino das vendas de petróleo ao exterior do Brasil, representando cerca de 45% do total.

“A China, sozinha, consome metade de todo o petróleo produzido no Médio Oriente e uma parte significativa disso é escoada pelo Estreito de Ormuz. Se a situação se prolongar, a China, por mais que stock que tenha, vai ter de procurar alternativas de abastecimento. E o Brasil está bem posicionado para responder a essa nova procura e pode tornar-se uma opção viável“, disse o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP), Roberto Ardenghy, em declarações à BBC Brasil.

Com ganhos potenciais apresenta-se também a Noruega, o segundo maior exportador de gás natural da Europa, apenas atrás da Rússia antes da guerra na Ucrânia, principalmente via gasodutos e GNL, sendo igualmente um exportador de petróleo, com produção concentrada no Mar do Norte.

A crise deverá significar um aumento das receitas de exportação, ao mesmo tempo que ajuda as contas públicas, uma vez que a receita do petróleo alimenta o Fundo de Pensões do Governo Norueguês, um dos maiores do mundo.

Contudo, em ambos os países, a capacidade de produção afigura-se como um desafio acrescido, uma vez que por si só não serão suficientes para responder à procura correspondente ao Golfo.

Uma vitória para Putin?

Com o bloqueio de Ormuz, há um outro ator que pode sair beneficiado do conflito no Golfo: Vladimir Putin. Na semana passada, os Estados Unidos já anunciaram a suspensão de algumas sanções e uma autorização temporária (um mês) para a venda de petróleo russo e derivados armazenados em navios, como forma de baixar o preço.

A Rússia depressa veio defender que este é o exemplo de que o mercado precisa do petróleo russo para manter a estabilidade. “Os Estados Unidos estão, na verdade, a reconhecer o óbvio: sem petróleo russo, o mercado global de energia não pode manter-se estável“, escreveu Kirill Dmitriev, na plataforma de mensagens Telegram.

No entanto, o Conselho Europeu e a Comissão Europeia manifestaram-se contra a decisão norte-americana, qualificando-a como preocupante. “A decisão unilateral dos Estados Unidos de levantar sanções às exportações de petróleo russo é muito preocupante, tendo em conta que afeta a segurança europeia“, escreveu o presidente do Conselho Europeu, António Costa, nas redes sociais.

Paralelamente, a presidente do executivo comunitário, Ursula von der Leyen, recusou-se a deixar cair sanções para contornar o impacto nos preços da energia na Europa.

Na atual crise, alguns defendem que devemos abandonar a nossa estratégia de longo prazo e inclusive regressar aos combustíveis fósseis russos. Isso seria um erro estratégico, tornar-nos-ia mais dependentes, mais vulneráveis e mais fracos”, disse, numa alusão ao primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que escreveu esta semana uma carta ao Executivo comunitário a pedir o levantamento das sanções da União Europeia (UE) às importações de petróleo russo.

Entre os críticos, as vozes mais sonoras apontam às receitas que a decisão dos Estados Unidos vai gerar para a Rússia alimentar a guerra com a Ucrânia, numa altura em que Kiev espera o desbloqueio do empréstimo de 90 mil milhões de euros pela União Europeia.

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