Pedro Leitão deixa o banco depois de uma profunda reestruturação que permitiu regressar aos lucros e dividendos. Mas resultados deixaram a desejar e perda de quota de mercado fez soar alarmes.
Pedro Leitão pode gabar-se de ter colocado o Banco Montepio na rota de lucros históricos e a pagar dividendos pela primeira vez em dez anos, mas o seu desempenho não foi suficiente para convencer o acionista a mantê-lo na liderança por mais um mandato – ao fim de cinco anos, está em fim de linha e deverá ser substituído por José Azevedo Pereira, ex-CEO do Eurobic, uma notícia avançada esta quarta-feira pelo ECO e que apanhou de surpresa muitos trabalhadores do banco.
Para a recuperação do banco muito terá contribuído o duro processo de reestruturação que levou a cabo nos seus dois mandatos. Neste período, o Banco Montepio perdeu um quarto dos trabalhadores e encerrou mais de um terço dos balcões. O malparado caiu a pique. Ainda assim, em tempos de bonança para o setor, à boleia da subida das taxas de juro, os resultados apresentados por Pedro Leitão deixaram a desejar junto da Associação Mutualista Montepio Geral (AMMG), que controla praticamente 100% do banco.
Os últimos cinco anos foram marcados por um profundo ajustamento do Banco Montepio (ex-Caixa Económica Montepio Geral) com o objetivo de sanear problemas herdados do passado, regressar a resultados positivos e, sobretudo, justificar o investimento de 2,4 mil milhões de euros por parte dos seus mais de 600 mil acionistas (os associados da AMMG).
A reestruturação veio com atraso em relação aos concorrentes, como o BCP, Caixa e Novobanco tinham feito na década passada. Esse atraso também se deveu à falta de disponibilidade financeira da mutualista (a passar também por problemas) em custear todo o processo. Mas o ajustamento foi feito e com muitos custos.
Perto de mil trabalhadores saíram do banco entre janeiro de 2020 e junho de 2025 – hoje são menos de 3.000 trabalhadores. E foram eliminados mais 100 balcões, o que significou uma redução da rede comercial na ordem dos 36% em relação ao que havia há cinco anos.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
O Banco Montepio está muito mais pequeno cá dentro, mas também fora de portas. A operação em Moçambique já tinha sido vendida em 2018, ainda no tempo de Carlos Tavares. Em 2023, foi a vez de se desfazer o negócio em Angola, que provocou um forte rombo nas contas desse ano. Mais de 100 milhões de euros foi o impacto da venda do Finibanco Angola (que Tomás Correia tinha comprado em 2010) aos nigerianos do Access Bank.
Assim, em vez de lucros de 144,5 milhões de euros, Pedro Leitão teve de reportar um resultado de apenas 28 milhões. O que não impediu, ainda assim, de regressar aos dividendos, dez anos depois, com a distribuição de seis milhões aos acionistas.
No ano seguinte pagou mais à AMMG: 30,6 milhões de euros de um lucro de 110 milhões. Para Virgílio Lima, o banco tinha capacidade para entregar mais.

Ativos tóxicos caem a pique
A redução do malparado é outra grande marca deixada por Pedro Leitão. Há cinco anos era o Calcanhar de Aquiles do banco – com o Banco de Portugal a fazer alta pressão para que fosse encontrada uma solução estrutural para este problema.
No final de 2019, o rácio de NPL (non performing loans) rondava os 12%, o dobro da média nacional – por cada 100 euros de crédito, 12 euros eram dados como perdidos. Chegou-se a pensar numa operação de carve-out para transferir uma espécie de ‘banco mau’ para a Associação Mutualista, que resolveria o problema do banco de uma assentada (e dava resposta ao Banco de Portugal), mas o projeto acabou por ficar na gaveta.
Em vez disso, o Banco Montepio seguiu pela via que os outros bancos tinham seguido nos anos anteriores, desfazendo-se dos créditos problemáticos através sobretudo de vendas de carteiras no mercado. A limpeza do balanço foi mais lenta, atrasou o processo de recuperação, mas deu frutos: no final de junho, o rácio de NPL já tinha baixado para 1,9%, que deixa o Banco Montepio bem na fotografia com os restantes bancos (2,3% de média no setor).
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A “sombra” da consolidação
Em fevereiro de 2023, Pedro Leitão deixou um aviso sério aos trabalhadores: o banco não podia continuar a perder quota de mercado sob pena de deixar a instituição à mercê de um mercado em que as autoridades querem ver processos consolidação, como o ECO noticiou na altura. “Num mercado maduro, onde a escala é muito importante, quotas de mercado abaixo dos 6% são sirenes e linhas vermelhas que não nos podem deixar indiferente”, sublinhou numa mensagem interna referindo-se à consolidação como um “tema de sombras”.
Os estatutos protegem o Banco Montepio de abordagens da concorrência, mas o aviso de Pedro Leitão, que então considerava ser resultado de uma “distração”, tinha razão de ser: o banco estava a perder quota de mercado progressivamente. Tanto no crédito como nos depósitos, onde o Montepio conta agora com cerca de 5% do mercado – quando há cinco anos lutava por quotas de 6%.
Esta terça-feira, instado a fazer um balanço do trabalho de Pedro Leitão, Virgílio Lima reconheceu que houve “uma evolução em diferentes domínios na atividade do banco, que se reconhece e cumprimenta com muito apreço”, mas não deixou de apontar que “há áreas onde se pode melhorar e desenvolver”.
Na frente comercial há muito por “melhorar e desenvolver”, mas esse trabalho caberá agora a José Azevedo Pereira, ex-diretor do Fisco e que ocupou o cargo de CEO do Eurobic até recentemente, depois de ter liderado o banco no período mais conturbado do Luanda Leaks.
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Reestruturação, Angola e regresso aos lucros: cinco anos de Pedro Leitão à frente do Montepio
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