Regresso dos IPO dá passo em falso após flop da Birkenstock

O mercado de IPO na Europa permanece praticamente fechado depois da desilusão com as estreias da Arm, Birkenstock e outras empresas. Várias companhias já adiaram os planos de dispersão de capital.

Praticamente “congelado” desde o início de 2022, o mercado global de ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla em inglês) reanimou em setembro com a entrada em bolsa de empresas de dimensão relevante em Wall Street, mas o ânimo evaporou rapidamente depois do desempenho negativo de várias ações e flop com o IPO da icónica marca alemã de calçado Birkenstock.

Para que o mercado de IPO fosse descongelado era necessário que as estas operações fossem coroadas com sucesso, incentivando outras companhias a seguir o caminho da dispersão de capital em bolsa. Mas os resultados foram tudo menos positivos, levando investidores e analistas a manterem o ceticismo sobre a compra de ações de novas cotadas.

Foi a fabricante de chips Arm que abriu verdadeiramente este mercado quando em setembro encaixou 5,23 mil milhões de dólares com a venda de 95,5 milhões de ações a 51 dólares cada. A mercearia online Instacart e a Klaviyo (marketing online) também abriram capital no mês passado.

Apesar de britânica, a Arm optou por cotar em Nova Iorque e a estreia até foi positiva. As ações disparam 25% no primeiro dia, mas foram perdendo valor e já estiveram a negociar abaixo do preço do IPO, gerando prejuízos pronunciados para quem comprou os títulos no primeiro dia em bolsa. A Instacart também disparou no primeiro dia, mas já está a transacionar 17% baixo do preço do IPO. A Klaviyo teve uma estreia mais promissora, mas os ganhos desde a estreia já são muito modestos.

Estas três companhias encaixaram mais de 6 mil milhões de dólares, um valor que representa cerca de 20% do montante angariado através de IPO este ano nos Estados Unidos e Europa. Só em setembro foram 25 as empresas que dispersaram capital nestes dois mercados, reforçando as expectativas de que o caminho estava aberto para um verdadeiro regresso dos IPO.

A dispersão de capital da Birkenstock a 11 de outubro, também em Wall Street, foi encarada como mais um passo no reforço desta convicção, mas a empresa alemã com 250 anos de história deu um passo atrás. A fabricante de sandálias captou 1,48 mil milhões de dólares, tendo sofrido uma queda superior a 12% no primeiro dia em bolsa. Trata-se do pior desempenho em dois anos. Contabilizando mais de 300 IPO nos últimos 100 anos em Wall Street, só 13 registaram uma performance mais negativa do que a Birkenstock.

O flop da Birkenstock agravou-se após o dia de estreia, com as ações a perderem já mais de 25% face ao preço do IPO. O que aliado ao desempenho negativo das ações da Arm, veio colocar uma nuvem mais sombria sobre o mercado de IPO, sendo que existem várias justificações para esta perspetiva pessimista.

Desde logo o motivo que explica o reduzido número de novas empresas em bolsa desde o início de 2022. A subida das taxas de juro e a perspetiva de que os bancos centrais vão manter uma política monetária restritiva por mais tempo continua a motivar um reduzido apetite dos investidores pelos ativos de risco como as ações.

O histórico dos IPO mais recentes também não joga a favor da compra de ações nas estreias de empresas em bolsa, com muitos investidores “queimados” com os prejuízos das operações realizadas em 2020 e 2021. Vários analistas também justificam o mau desempenho com o facto de as empresas estarem a optar por vender as ações no topo máximo do intervalo, o que limita o potencial de valorização na estreia.

A forte valorização das ações no primeiro semestre “atraiu algum capital para os IPO mais recentes, permitindo às empresas subir os preços”, comentou à Bloomberg Matthew Kennedy Renaissance Capital, assinalando que os investidores que habitualmente “compram ações no primeiro dia foram prejudicados várias vezes nos últimos IPO, não sendo por isso surpreendente que estejam finalmente a atirar a toalha ao chão, recusando participar desta vez”.

Marasmo na Europa e crescimento nos emergentes

Estando colocada de parte uma reta final de ano forte no mercado de IPO, perspetiva-se que 2023 será ainda mais fraco do que 2022, que já tinha sido bastante débil. Dados da EY mostram que foram registados apenas 968 IPO a nível global nos primeiros nove meses deste ano, com um valor total de 101,2 mil milhões de dólares, o que representa quedas de 5% e 32% face ao período homólogo.

Em 2022, o número de IPO baixou 42% para 1.415 e o valor angariado desceu 60% para 184 mil milhões de dólares, registos que dificilmente serão alcançados no final deste ano. A tendência descendente não é mais forte porque nos mercados emergentes têm-se assistido a um número crescente de empresas a escolher as bolsas para obter capital.

Cerca de dois terços dos IPO a nível global este ano foram realizados nos mercados emergentes. Apesar da fraca atividade na China, países como a Índia e Indonésia na Ásia e Turquia e Roménia na Europa registam um forte crescimento de novas empresas nos seus mercados de capitais.

Nos Estados Unidos e na Europa a tendência é bem contrária. As empresas que dispersaram capital em Wall Street angariaram 85 mil milhões de dólares em 2020, 150 mil milhões de dólares em 2021 e apenas 8,6 mil milhões em 2022, ano marcado por uma desvalorização muito acentuada nas bolsas globais.

Enquanto os Estados Unidos já estão a recuperar este ano à boleia de um setembro forte, na Europa persiste o marasmo, sobretudo de operações de grande dimensão. Em 2023 as companhias europeias captaram 21,9 mil milhões de dólares através de IPO, uma redução de 44% face ao ano passado, apesar de o número de operações até ter aumentado 2%. A maior operação na Europa em 2023 foi protagonizada pela elétrica romena Hidroelectrica, com um encaixe de 2 mil milhões de dólares.

“Cautela extrema”

Além de Londres e Frankfurt terem perdido os IPO da Arm e da Birkenstock para Nova Iorque, as praças europeias não veem perspetivas de melhorias, com várias companhias a cancelarem as operações de dispersão de capital em Bolsa, que já estão no nível mais baixo desde a crise financeira de 2008.

O adiamento mais notável foi protagonizado pela Renk, uma empresa alemã que fabrica caixas de velocidade e outros dispositivos para veículos, que citou o “ambiente de mercado sombrio”. A companhia chegou a definir o preço de venda das ações, que a avaliava num máximo de 1,8 mil milhões de euros.

Na semana passada, foi a vez da Planisware cancelar os planos para avançar com o IPO, naquela que seria a maior operação em dois anos na Bolsa de Paris, com um encaixe previsto acima de mil milhões de euros. O CEO da firma de software francesa citou a “cautela extrema” dos investidores e a “deterioração recente do ambiente de mercado”. A CVC Capital Partners mantém em cima da mesa o IPO previsto para o próximo mês, numa operação que também está a ser aguardada com bastante expectativa.

“Para este ano acabou”, comentou ao Financial Times um responsável de um banco de investimento europeu. Nos Estados Unidos o pensamento não é muito diferente, levando as empresas de capital de risco a aconselharem as start-ups a não pensarem em dispersar capital em bolsa depois das estreias dececionantes da Arm e Instacart.

“Nesta altura as águas estão turbulentas, pelo que qualquer operação que não esteja realmente bem ancorada por investidores de longo prazo terá dificuldades” em ter sucesso, disse à Reuters Andreas Bernstorff, do BNP Paribas.

Luz Saúde e Novo Banco à espreita

Se o mercado europeu tem sido um marasmo de estreias em bolsa, o português é mais comparável a um deserto. Nos últimos dez anos ocorreram apenas seis IPO na bolsa portuguesa, sendo que a Greenvolt protagonizou a última entrada, em 2021.

A Luz Saúde já contratou bancos de investimento para preparar o regresso à Euronext, numa operação prevista para o último trimestre deste ano, início de 2024. O objetivo passa por angariar mais de 300 milhões de euros, com potencial para ser o maior IPO da bolsa portuguesa em dez anos.

Também o Novobanco já iniciou contactos com bancos de investimento para preparar uma potencial oferta pública inicial que pode ocorrer entre final de 2024 e início de 2025 e render mais de mil milhões de euros.

O mau desempenho dos últimos IPO a nível global e sobretudo na Europa representa um revés para as duas empresas portuguesas, que certamente aguardavam por desenvolvimentos positivos neste mercado para darem passos mais firmes no processo de estreias em bolsa. Embora a janela para realizar um IPO este ano pareça fechada, desenvolvimentos favoráveis nos mercados em 2024 podem reabrir o segmento dos IPO no próximo ano.

No último relatório com a análise ao mercado de IPO no terceiro trimestre, a EY salienta que os “investidores estão a virar atenções para empresas com fortes fundamentais e um caminho claro para os lucros”, pelo que as empresas que querem dispersar capital em bolsa “têm de demonstrar a sua saúde financeira e potencial de criação de valor”.

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