De um lado dois republicanos do MAGA e um par de 'hardliners' israelitas. Do outro, um aiatola que sucedeu ao pai e um cirurgião que tenta presidir com pinças a diplomacia da guerra.
- Donald Trump lançou um ataque ao Irão em 28 de fevereiro, gerando incertezas sobre o objetivo e a duração do conflito, enquanto enfrenta críticas internas.
- O secretário de Defesa, Pete Hegseth, defende uma abordagem agressiva, solicitando um financiamento suplementar de 200 mil milhões de dólares para intensificar a luta contra o regime iraniano.
- A situação atual expõe Trump a riscos políticos, dificultando uma saída clara do conflito e minando sua retórica de vitória, enquanto o Irão mantém uma postura desafiadora.
Donald Trump deixa dúvidas sobre o ‘endgame‘ dos Estados Unidos no ataque ao Irão que lançou com Israel a 28 de fevereiro, mantendo no ar questões sobre o propósito e a duração do conflito. O seu secretário de Defesa, Pete Hegseth fala num dizimar das forças iranianas, apontando para a necessidade e derrubar o regime dos aiatolas.
Em Israel, Benjamin ‘Bibi’ Netanyahu tira proveitos políticos ao desviar as atenções do ataque do Hamas de outubro de 2023 e a subsequente invetiva em Gaza, enquanto o ministro da Defesa Israel Katz desenha a arquitetura do conflito e anuncia as mortes de líderes iranianos.
Do outro lado, em Teerão, Mojtaba Khamenei passa os primeiros tempos como Lider Supremo, após ter sucedido ao pai Ali, a desafiar os inimigos e a ameaçar os vizinhos do Golfo. Mais diplomático, o presidente Masoud Pezeshkian tem a delicada tarefa de gerir as relações com os países do Golfo, alguns do quais o Irão já atacou, e evitar que se alinhem totalmente com os EUA.
Veja aqui quem são os protagonistas da guerra e o que têm dito:
EUA
Donald Trump, Presidente
O presidente que se vangloria de acabar guerras iniciou uma a 28 de fevereiro e não é claro como vai terminar o conflito com o Irão. O segundo mandato de Trump na Casa Branca, interrompido pelo de Joe Biden, está a ser mais polémico que o primeiro. Entre uma perseguição brutal aos imigrantes ilegais nos EUA, o lançar de tarifas comerciais e ataques à independência da Reserva Federal e à liderança da Venezuela, o republicano tem registado avanços e alguns reveses.
Agora, a meros meses de eleições intercalares, Trump enfrenta um dos seus maiores testes, como conseguir os seus objetivos face ao Irão, nomeadamente eliminar a “ameaça iminente” nuclear de Teerão e instar os iranianos a derrubarem o regime islâmico, isto tudo sem criar caos tanto no Golfo como nos mercados de energia.
Trump afirmou que a guerra está “militarmente ganha”. e que as forças dos EUA “aniquilaram” ou “destruíram” a marinha, a força aérea e as defesas antiaéreas do Irão. Mas sobre o plano final para a guerra tem variado as posições, por vezes ameaçando um longo conflito, por outras dizendo que os EUA já estão a começar o ‘winding down‘, mas sem especificar os termos de um eventual acordo.
Se para Netanyahu a guerra está a trazer ganhos, para Trump prendeu-o num conflito sem saída clara, expôs os seus aliados árabes do Golfo a riscos crescentes e minou o discurso económico que impulsionou o seu regresso ao cargo. “Há um vencedor claro e um perdedor claro”, afirmou Aaron David Miller, antigo negociador dos EUA para o Médio Oriente. Para Trump, disse Miller, não há saída que lhe permita declarar vitória e afastar-se.
Pete Hegseth, secretário de Defesa

“Isto nunca foi planeado para ser uma luta justa, e não é uma luta justa, estamos a batê-los enquanto eles estão no chão, que é exatamente como deve ser”, a frase ilustra na perfeição o tipo de retórica de guerra usada frequentemente pelo secretário da Defesa dos Estados Unidos. As conferências de imprensa e discursos de Pete Hegseth já se tornaram dos eventos mais vistos no conflito que coloca os EUA e Israel frente ao Irão. “É preciso dinheiro para acabar com os bandidos, não há como contornar isso”afirmou ao solicitar ao Congresso um financiamento suplementar de 200 mil milhões de dólares.
As polémicas parecem perseguir Hegseth. Aos 45 anos é um veterano da Guarda Nacional do Exército que serviu no Afeganistão, no Iraque e na Baía de Guantánamo, em Cuba, e foi condecorado com duas Estrelas de Bronze, mas quando foi nomeado por Trump em janeiro de 2025, o processo de confirmação no Senado não foi nada fácil e levantou vários fantasmas do passado, incluindo alegações de consumo excessivo de álcool e acusações, constantes de um relatório policial, de que teria agredido sexualmente uma mulher em 2017, durante uma conferência na Califórnia.
Não foram apresentadas acusações e chegou a um acordo privado com a alegada vítima, mas as declarações passadas de Hegseth também preocuparam alguns legisladores. Manifestou desdém pelas chamadas políticas woke dos líderes do Pentágono, opôs-se à participação de mulheres em funções de combate e questionou se o general americano de topo ocupava o seu cargo devido à sua cor de pele.
Passados 14 meses e já no conflito com o Irão, o secretário de Defesa mantém o discurso vitorioso. “Destruímos completamente as suas defesas aéreas, mais de sete mil alvos, está a correr exatamente conforme o planeado”, disse. Para Hegseth, a liderança do regime iraniano é um “tumor” que requer remoção “cirúrgica” e “total” para garantir a segurança do Ocidente.
Israel
Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro

Experiente, duro e focado na segurança de Israel, dizem os apoiantes. Corrupto, autoritário e perigoso, avisam os opositores. Tal como o seu grande aliado Donald Trump, o primeiro-ministro israelita polariza as opiniões. Benjamin Netanyahu nega o extremismo. Na sua autobiografia publicada em 2022, ‘Bibi’, descreve-se como “conservador, mas decididamente não extremo”. O resumo dessa obra explica como “desde a mais tenra infância, Bibi e os seus irmãos muito unidos, Yoni e Iddo, foram educados com um sentido de propósito”. Nascidos na sequência do Holocausto, no alvorecer da independência de Israel, e criados numa família com uma história sionista de destaque, “compreenderam que o Estado judeu era um presente conquistado com dificuldade e ainda precário”. Os três estudaram em escolas secundárias americanas — onde aprenderam a apreciar os Estados Unidos — antes de regressarem à sua querida pátria.
O excerto era para ajudar a vender o livro, claro, mas é útil para perceber as vertentes que cruzam a carreira política de Netanyahu. Ex-membro de uma unidade de forças especiais de elite que levou a cabo algumas das mais ousadas operações de resgate de reféns de Israel na década de 1970, Netanyahu domina a política israelita há décadas, tornando-se o primeiro-ministro com mais tempo de mandato do país ao conquistar um sexto mandato sem precedentes em 2022. Esse mandato está a ser marcado pela guerra, mas começara com um atentado. A 7 de outubro de 2023, o Hamas conduziu uma série de incursões armadas coordenadas a partir da Faixa de Gaza, que se encontrava bloqueada, para a zona de fronteira no sul de Israel, durante a festa judaica de Simchat Torá. Estima-se que morreram 1.195 pessoas, incluindo pelo menos 828 civis[ e 367 membros das forças de segurança. O ataque apanhou Israel de surpresa e choveram críticas a Netanyahu, de estar ocupado demais a tentar controlar os tribunais em vez de olhar para a segurança.
A resposta forte de Israel em Gaza também provocou duras críticas, mas aos 76 anos, Bibi tem no conflito com o Irão uma oportunidade para reduzir essas ‘manchas’ no longo currículo. Para o primeiro-ministro, o conflito é uma missão para eliminar uma “ameaça existencial” que dura há 47 anos. Por um lado, diz que a guerra pode ser mais curta que se pode pensar porque o Irão está “dizimado”, mas por outro explica que o alcance de Israel não tem limites e que poderá ser necessário uma invasão terrestre para consolidar os ganhos obtido via bombardeamentos.
A relação com Donald Trump reaproximou os dois países, mas Netanyahu garante que não “arrastou ” os americanos para a guerra. De vez em quando leva um ‘raspanete’ de Trump, por exemplo sobre o ataque ao campo de gás iraniano South Pars, feito à revelia da Casa Branca. Mas como ‘brothers in arms‘ rapidamente os aliados realinharam-se e prosseguem uma guerra na qual Bibi tem muito a ganhar, desviando as atenções de Gaza e a beneficiar do consenso no país sobre o perigo que o Irão representa para Israel.
Israel Katz, ministro da Defesa

Agricultura, transportes, intelligence, negócios estrangeiros, finanças, negócios estrangeiros (outra vez) e agora defesa. A longa carreira ministerial de Israel Katz que começou em 2003 levou-o há dois anos à liderança da pasta militar do país com o qual partilha o nome. O experiente ex-paraquedista de 70 anos é considerado uma figura de linha dura de direita e um aliado de longa data de Netanyahu, com quem milita há décadas no partido Likud.
Chegou ao cargo em 2024, já com o país em conflito com o Hamas em Gaza e após a Netanyahu ter demitido Yoav Gallant. Mas Katz não é um mero ‘apparatchik’, é um dos principais arquitetos da atual estratégia de guerra em várias frentes de Israel, caracterizada por ataques preventivos e de alta intensidade (no Irão), expansão do âmbito do campo de batalha (no Líbano) e política territorial e coerciva (em Gaza).
Mesmo antes de herdar a pasta da política militar, Katz mostrava a sua atitude combativa na chefia da diplomacia israelita. Em outubro de 2024, um mês antes de mudar de ministérios, declarou António Guterres persona non grata, alegando que o secretário-geral da ONU não tinha condenado “inequivocamente” o ataque com mísseis do Irão contra Israel e devido ao que descreveu como conduta antissemita e anti-Israel. Nesse mesmo mês, Katz ordenou ao seu ministério que instaurasse um processo judicial contra o presidente francês Emmanuel Macron, depois de Paris ter proibido empresas israelitas de participar numa feira naval militar.
Agora, com os ataques iniciados a 28 de fevereiro, tem sido uma das vozes da retórica da escalada, expressando que é um conflito “sem limite de tempo” e na qual Israel quer “aumentar a intensidade”, marcando como objetivo final o derrubar do regime iraniano. Para Katz, ninguém está imune na guerra e tem sido ele a anunciar os ataques que mataram figuras iranianas como o ministro da intelligence, Esmail Khatib, e o chefe de segurança Ali Larijani.
Irão
Mojtaba Khamenei, Líder Supremo

Num curto período de três semanas, Mojtaba Khamenei viu o seu país a ser atacado pelos dois principais inimigos, o pai morto num bombardeamento, foi escolhido para o substituir como Líder Supremo, denegrido por líderes mundiais e elogiado por outros, e ainda sobreviveu a um ataque que o deixou alegadamente ferido e desfigurado.
O desagrado com a sua nomeação pela Assembleia dos Peritos (a 8 de março) para ser aiatola, cargo ocupado pelo pai Ali Khamanei por 37 anos, foi de imediato expresso por Trump. “Peso leve” e “inaceitável” como líder do Irão, opinou o presidente americano, sugerindo que alertou que qualquer líder iraniano escolhido sem o “aval” dos EUA “não durará muito” e que não vê Mojtaba a “viver em paz” dada a atual situação de guerra. Na mesma linha, Nethanyahu disse que “não venderia seguro de vida” a Mojtaba e outros líderes iranianos. Do outro lado da barricada, o presidente russo Vladimir Putin afirmou estar confiante de que Khamenei vai continuar a obra do seu pai “com honra” e unir o povo iraniano “perante provações difíceis”.
Aos 56 anos, a sua nomeação após o ataque (que também matou a sua mulher e outros membros da família), foi vista precisamente como ato de desafio contra Trump. Um membro da Assembleia, aiatola Mohsen Heidari Alekasir, afirmou que candidato tinha sido selecionado com base nas orientações de Khamenei, segundo as quais o líder supremo do Irão deveria ser “odiado pelo inimigo”.
Mojtaba acumulou poder ao lado do pai, como figura de destaque próxima das forças de segurança e do vasto império empresarial por elas controlado. Tem-se oposto aos reformistas que procuram estabelecer relações com o Ocidente, num momento em que este tenta travar o programa nuclear do Irão.
As suas ligações estreitas com a elite da Guarda Revolucionária Islâmica conferem-lhe uma influência adicional em todo o aparelho político e de segurança do Irão, e acumulou influência nos bastidores como ‘guardião’ do pai, afirmaram fontes familiarizadas com o assunto, citadas pela Reuters. Mojtaba estudou com conservadores religiosos nos seminários de Qom, o centro de estudos teológicos xiitas do Irão, e detém o título clerical de Hojjatoleslam.
Nunca ocupara qualquer cargo oficial no governo da República Islâmica, mas participou em comícios de apoiantes do regime, sems se pronunciar em público. Desde a sucessão tem comunicado via mensagens lidas na televisão estatal ou comunicados publicados na sua conta na rede Telegram. O conteúdo vai de ameaças de medidas (por exemplo o prolongar do crucial Estreito do Ormuz), condenar os ataques dos inimigos (sobre a morte do chefe de segurança Ali Larijani disse que “os criminosos vão em breve pagar pelo seu sangue”) ou para gerir as relações com aliados e ainda outros países do Golfo.
Masoud Pezeshkian, Presidente

É um cirurgião cardíaco que está no coração da gestão diplomática do Irão. Quando Masoud Pezeshkian foi eleito para a presidência em julho de 2024 trouxe esperança de algum amenizar do brutal regime que nasceu na revolução islâmica de 1979. Moderado, Pezeshkian é um azeri que defende os direitos de outras minorias étnicas, tem criticado a repressão da dissidência política e social por parte do establishment clerical. Em 2022, Pezeshkian exigiu esclarecimentos às autoridades sobre a morte de Mahsa Amini, uma mulher que faleceu sob custódia após ter sido detida por alegadamente violar uma lei que restringe o vestuário feminino.
Foi ministro da Saúde entre 2001 e 2005, no segundo mandato presidencial do reformista Mohammad Khatami. Foi precisamente Khatami que o apoiou para quebrar após anos de isolamento e candidatar-se à presidência após a morte do presidente Ebrahim Raisi num acidente de helicóptero. Nessa corrida, derrotou Saeed Jalili, visto como um hardliner, tal como Raisa, que reforçara as já duríssimas leis iranianas. Numa república islâmica onde o clero tem quase todo o poder executivo – incluindo sobre o programa de armamento nuclear – um presidente moderado como Pezeshkian (embora seja fiel ao regime teocrático) tem pouco espaço de manobra.
Um espaço é o da diplomacia e quando Pezeshkian chegou à presidência comprometeu-se a promover uma política externa pragmática e a aliviar as tensões em torno das negociações com as principais potências para reativar o acordo nuclear de 2015. Gorada essa missão com os ataques dos Estados Unidos e Israel a partir de 28 de fevereiro, o presidente tem usado o cargo para manter os canais diplomáticos a países aliados como Índia, Rússia e China. É Pezeshkian que tem a delicada tarefa de gerir as relações dos países do Golfo, alguns do quais o Irão já atacou, e evitar que se alinhem totalmente com os EUA. Quer tentar também reduzir um escalar para a guerra regional total e manter intacta a legitimidade do regime.
Pezeshkian tem pedido a “cessação imediata” da agressão dos EUA e de Israel e sublinhado que as condições para a paz têm de incluir “direitos legítimos” do Irão, reparações e garantias. “Parem de nos atacar, e isto pode acabar”, disse. A atitude do presidente contrasta com as dos líderes do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, que emitem constantes ameaças do escalar do conflito.
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