Seguros de crédito à exportação passam para o Banco de Fomento em julho

Banco de Fomento assume liderança da Agência de Crédito à Exportação a 1 de julho. Veja a resposta da Allianz Trade, Crédit y Caución, Coface e CESCE à crise atual.

O Banco Português de Fomento (BPF) está a finalizar a preparação para assumir o mandato de Agência de Crédito à Exportação (ECA) a partir do próximo dia 1 de julho, revelou ao ECOseguros fonte oficial da instituição. Assim termina um período iniciado em 1969 em que a COSEC, hoje com a marca Allianz Trade, assegurou esse trabalho em nome do Estado.

“O BPF assegura que as empresas exportadoras continuarão a encontrar soluções de cobertura equivalentes às que existem atualmente no mercado e esperamos ver crescimento no mercado de seguros de crédito à exportação e o reforço do impacto dos seguros de crédito nas exportações nacionais, contribuindo para o apoio às exportações das empresas portuguesas para novos mercados ou para o reforço nos mercados onde já se encontram presentes”, acrescentou a mesma fonte.

Quatro dirigentes à procura de reduzir gap de proteção nacional em seguros de crédito: Cláudia Vasconcelos (COFACE), Paulo Morais (Atradius Crédit y Caución), Nadine Accaoui (Allianz Trade) e Rita Lacerda (CESCE).

Este passo foi anunciado em junho de 2022 e era por isso esperado no segmento de seguros de crédito do mercado segurador que tradicionalmente só reúne quatro seguradoras no país: Coface, Atradius Crédit y Caución, CESCE e a Allianz Trade, o atual nome comercial da COSEC, que tinha os poderes de Agência de Crédito à Exportação (ECA) desde 1969, fornecendo garantias de Estado a algumas exportações portuguesas.

O atual modelo suscitava dúvidas quanto à ação dinamizadora do mercado por parte da seguradora que funcionava como ECA em Portugal. A inevitabilidade de uma mudança foi confirmada pelo ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, na audição parlamentar do Orçamento do Estado 2026 em outubro último: “Vamos alterar o regime de seguro de crédito, que hoje é assegurado pela Cosec, uma empresa privada. O seguro de crédito vai passar a ficar sediado no BPF e, de certeza, deixaremos de ter os valores modestíssimos que hoje temos no crédito à exportação”, explicou o ministro. Segundo Manuel Castro Almeida, o stock de seguros de crédito à exportação era naquela altura de cerca de 230 milhões de euros, “bastante menos de 0,5% do valor das exportações”, o que considerou ser “quase nada”.

Pela mesma altura, Gonçalo Regalado, presidente do Banco de Fomento, em declarações ao ECO, revelava enorme interesse em ter o BPF a assumir papel de ECA: “Somos o único país da Europa que só tem uma empresa, uma agência de crédito à exportação, que tem uma dupla particularidade, uma dupla fragilidade. Só temos uma, é privada e é de estrangeiros. E isto não é suportável”, disse. Gonçalo Regalado criticou ainda as opções do passado, em particular a privatização da Cosec e da Agência de Crédito à Exportação, que considerou “um contrassenso”. “As exportações portuguesas valem 95 mil milhões de euros e apenas 230 milhões têm seguro de crédito. É 0,2%. É incompreensível que Portugal tenha entregado a sua agência de crédito à exportação a uma seguradora estrangeira”, concluiu.

Dados mais rigorosos extraídos de um relatório da COSEC/Allianz Trade indicam que, no último dia de 2024, a carteira de seguros com garantia do Estado sob gestão da COSEC ascendia a 723,9 milhões de euros. As responsabilidades totais assumidas nesse ano ascenderam a 194,7 milhões de euros e a atividade do ano foram gerados essencialmente pela emissão de apólices de seguro de créditos, sobretudo em operações de curto prazo e de seguro caução.

Nesse ano foram contratados seguros com garantia do Estado por cerca de 240 empresas exportadoras, envolvendo 72 mercados de exportação. Durante 2024 foram emitidas 921 apólices e no último dia desse ano encontravam-se em vigor 879. Produtos alimentares e medicamentos representavam quase metade dos seguros com garantia do Estado.

De facto, as garantias de Estado estão subutilizadas. Em 2025, as exportações, apenas de bens, atingiram cerca de 80 mil milhões de euros, e a Informa db indica que mais de 40 mil empresas portuguesas – com exportações superiores a 5% ao seu volume de negócios, ou superiores a um milhão de euros -, venderam ao exterior em 2023.

O que é o seguro de crédito, quanto custa, e para que serve a ECA

O seguro de crédito é uma ferramenta de gestão de risco empresarial concebida para proteger o segurado, que é a empresa vendedora, contra as consequências económicas da falta, ou atraso, de pagamento por parte de um ou mais clientes compradores. A seguradora indemniza a empresa credora quando o cliente desta não consegue cumprir as suas obrigações de pagamento devido a falha interna como insolvência provada, falência ou eventos comerciais ou políticos externos. Em troca do pagamento de um prémio que tem como referência o valor das faturas, o credor transfere todo ou parte do risco de não pagamento pelo cliente ou comprador para a seguradora. A seguradora, por sua vez, compromete-se a cobrir este risco, reembolsando um montante predefinido de dívidas não pagas.

Em Portugal, é mais utilizada para negócios entre empresas portuguesas estando as exportações em crescendo. Para estimular a atividade exportadora o Estado conta com uma ECA – Export Credit Agency (Agência de Crédito à Exportação), uma entidade que em Portugal passa a ser gerida pelo Banco Português de Fomento e que emite garantias públicas. Ou seja, se o comprador não pagar a fatura nem ao vendedor nem à seguradora de crédito, o Estado assume essa responsabilidade e compensa a seguradora pelo valor em falta.

No entanto, em caso de incumprimento ou insolvência do seu cliente estrangeiro, a ECA não cobre 100% do valor da fatura para evitar a negligência comercial. Por norma, a margem de cobertura situa-se entre 85% e 95% do valor líquido da fatura pendente, sendo o restante uma franquia que é o risco que a própria empresa vendedora assume.

Quanto ao custo, ou prémio de seguro, o valor depende de alguns fatores de risco quer do país de destino, do setor de atividade, da conjuntura geopolítica, para além da especificidade do próprio cliente comprador. É apontado um valor 0,1% e 1,5% do valor total faturado em que uma taxa mínima – de 0,1% a 0,3% – é aplicada, por exemplo, a exportações para países da OCDE com risco muito baixo, como Alemanha ou França, e por prazos curtos, de até 90 dias. No extremo oposto, a taxa máxima pode ir de 1% a 1,5% ou mesmo superior, e é aplicada a mercados extracomunitários de risco agravado classificados nos grupos de risco mais elevados da OCDE, ou por prazos de crédito alargados, de até dois anos.

Em termos práticos, um dos principais corretores do mercado de seguros de crédito, contactado por ECOseguros, situa os custos atuais num mínimo em 0,09% e num máximo em 1,5%.

Enorme gap nacional num mercado mundial de quase 13 mil milhões

O mercado global de seguros de crédito continua altamente concentrado, com três maiores players — Allianz Trade, Atradius e Coface — a representarem cerca de 65% dos prémios mundiais em 2024. Esta posição dominante explica-se pelas fortes barreiras à entrada no setor, que exige das seguradoras que operam neste mercado uma capacidade financeira robusta, experiência em análise de risco e uma rede internacional alargada.

A Allianz Trade tem sede em Paris e lidera o mercado mundial, com uma quota de 31% em 2024. Integrada no Grupo Allianz e presente em mais de 70 países, a seguradora apoia empresas na proteção de créditos comerciais e em projetos de grande dimensão nas áreas de infraestruturas e energia.

A Atradius, com sede em Amesterdão e operação em mais de 50 países, ocupa a segunda posição mundial, destacando-se pela especialização em comércio internacional e pela oferta integrada de seguros de crédito, caução, cobrança e resseguro. A Atradius opera como marca e unidade internacional de seguro de crédito do GCO, grupo segurador Catalana Occidente e, em Portugal e Espanha, usa a marca Atradius Crédito y Caución (CyC).

Já a francesa Coface, também sedeada em Paris, mantém-se como o terceiro maior operador global, com forte presença em mercados emergentes e apoio histórico aos exportadores. Em 2024, registou receitas de 1,85 mil milhões de dólares e lucros de 272 milhões, operando em cerca de 100 países e servindo mais de 100 mil clientes. A seguradora francesa destaca-se especialmente nas relações comerciais entre Europa e África.

A CESCE, com sede em Madrid é uma das maiores seguradoras de crédito a nível mundial e a agência oficial espanhola de crédito à exportação (ECA – Export Credit Agency). É controlada pelo Estado espanhol e está presente diretamente em Portugal, Espanha e França e em países sul-americanos entre eles México. Brasil, Colômbia e Peru.

Em 2024, o setor gerou a nível global, cerca de 12,8 mil milhões de dólares em prémios, mantendo uma performance relativamente sólida. O rácio combinado de 76%, abaixo da média histórica de 80%, indica uma boa rentabilidade técnica, suportada por disciplina na subscrição e uma seleção mais rigorosa dos riscos. Em termos simples, o setor conseguiu crescer de forma controlada, evitando assumir riscos excessivos.

Um dos aspetos mais relevantes dos últimos anos foi a resposta ao choque da pandemia. Durante a Covid-19, em 2020, o mercado disparou para 14,8 mil milhões de dólares em prémios, refletindo uma forte procura de proteção contra risco de incumprimento. No entanto, este crescimento foi temporário: com os apoios estatais e baixos níveis de sinistralidade, o mercado regressou rapidamente em 2021 a níveis pré-crise, entre oito e nove mil milhões de dólares.

Aposta das seguradoras com crise económica e novo rumo para a ECA

As mudanças nos seguros de crédito começaram a acelerar com nos últimos meses do ano passado, como contou ao ECO, em outubro passado, Gonçalo Regalado. “O nosso trabalho será começar nas quatro empresas que têm seguros de crédito empresariais, desafiar outras seguradoras que não têm normalmente este tipo de seguros e poder trazê-los para termos entre meia dúzia a uma dezena de empresas seguradoras que façam distribuição de seguros de crédito a partir de 2026”, explicou o presidente executivo do Banco de Fomento.

O volume de prémios em Portugal cresceu apenas 23,8% entre 2019 e 2025 quando atingiu 82,7 milhões de euros. Ao longo deste tempo notou-se uma redução de vendas em 2021, quando a resposta de apoios estatais na resposta à pandemia começaram a ser visíveis e se verificou uma quebra geral dos negócios das empresas portuguesas.

A este negócio em prémios correspondem um total de cerca de 38 mil milhões de vendas internas e externas cobertas por seguros de crédito no último dia de 2025, valor bastante acima dos garantidos pelo Estado, mesmo considerando que são utilizados apenas para exportações.

As quatro companhias que operam em seguros de crédito têm mantido posições de mercado com COSEC/Allianz Trade a manter desde cerca de 50% de quota, CyC cerca de 23%, COFACE quase 15% e CESCE em torno de 12%.

Em 2025, o volume de prémios da Allianz Trade atingiu 42,5 milhões de euros, a CyC conseguiu 18 milhões, a COFACE obteve 12 milhões e a CESCE quase dez milhões de euros.

A sinistralidade teve oscilações mais notórias durante o tempo da Covid-19. Por norma. A taxa comparativa foi de 56% de custo de sinistros pelo total de prémios em 2019, subiu 29% em 2020, desceu 73% em 2021, voltou a subir para 71% em 2022, tendo essa taxa de sinistralidade estabilizado nos 44% nos últimos dois anos.

Assim, só mesmo a Covid-19 provocou um movimento anómalo – positivo para as companhias — de redução da taxa de sinistralidade.

Para as seguradoras estabilizadas no mercado e como representantes das maiores operadoras a nível mundial, o negócio continua a andar sozinho. Para CESCE, CyC e COFACE, as garantias de Estado nunca contaram, para a COSEC/Allianz Trade, também não foram decisivas para a sua existência.

A crise económica que se está a instalar é a grande oportunidade para as seguradoras em Portugal revelarem a sua importância quer no apoio às exportações quer cobrindo operações no mercado interno, numa altura em que o incumprimento de pagamentos em vendas a crédito mais se poderá fazer sentir.

Daí ECOseguros ter questionado as quatro seguradoras sobre o futuro do negócio. Se a incerteza conjuntural devido a guerras está a mudar a política de subscrição da seguradora, a causa de os prémios de seguro estarem a baixar de preço, qual a política de distribuição seguida, o que se está a passar com a sinistralidade, o BPF como ECA e, mais importante que tudo, quais as perspetivas de desenvolvimento do negócio em 2026.

Allianz Trade
Estabilidade e previsibilidade na proteção às empresas

A política de subscrição da Allianz Trade assenta numa lógica de proximidade ao risco, permitindo que as diferentes unidades de negócio realizem avaliações detalhadas e contínuas das empresas, tendo em conta fatores macroeconómicos, setoriais e geográficos. Estas análises, efetuadas trimestralmente, permitem ajustar a política de subscrição de forma gradual e estratégica, evitando alterações abruptas e garantindo uma gestão prudente e equilibrada do risco. Esta capacidade de adaptação tem sido determinante para manter estabilidade e previsibilidade na proteção concedida às empresas clientes.

O agravamento das tensões geopolíticas, nomeadamente no Médio Oriente, está a gerar impactos económicos relevantes, com reflexos diretos na região e efeitos indiretos à escala global. O Grupo Allianz Trade mantém uma política de subscrição rigorosa, mas equilibrada, ajustando-a às especificidades locais e setoriais, sem que, para já, existam alterações significativas nas políticas de cobertura de risco.

Em Portugal, a Allianz Trade apresenta um portefólio fortemente internacionalizado, com mais de 45% das garantias associadas a operações de exportação. Este peso acompanha a relevância crescente das exportações na economia portuguesa, cujo contributo para o PIB tem oscilado entre 40% e 50%, segundo dados do INE. Este equilíbrio demonstra o compromisso da seguradora em apoiar simultaneamente a resiliência das empresas no mercado interno e a sua expansão internacional, disponibilizando soluções que permitem proteger as exportações e promover um crescimento sustentado num contexto internacional mais desafiante.

No plano comercial, o mercado português de seguro de crédito atravessa atualmente uma fase de soft market, marcada por forte concorrência entre seguradoras e pressão descendente sobre os prémios médios, que em 2025 se situam nos 0,215%. Esta tendência tem sido sustentada por níveis historicamente baixos de sinistralidade, após o pico excecional de 72% registado em 2020 devido ao impacto da pandemia. Nos anos seguintes, os apoios públicos extraordinários e o reforço da liquidez das empresas contribuíram para uma redução temporária do risco de incumprimento. Ainda assim, o setor acompanha de perto o ciclo económico e reconhece que um eventual agravamento macroeconómico poderá traduzir-se num aumento gradual da sinistralidade.

A Allianz Trade continua também a reforçar a sua estratégia de distribuição multicanal, integrando mediadores, corretores, canal bancário, agentes exclusivos e não exclusivos, bem como a rede direta. Esta abordagem é suportada por equipas comerciais especializadas por canal e por um modelo de serviço diferenciado, desenhado para responder às necessidades específicas de cada parceiro e contribuir para o seu crescimento sustentado. Paralelamente, a seguradora destaca que o seguro de crédito é um produto altamente intensivo em capital regulatório, exigindo níveis de solvência superiores aos de outros ramos não-vida, o que implica uma avaliação da rentabilidade baseada não apenas na sinistralidade, mas também na eficiência da gestão de capital e no retorno sobre o capital alocado. O canal de distribuição bancário, que inclui parcerias estratégicas com a CGD, BCP, Bankinter e BPI, foi – em 2024 – responsável por 61% do novo negócio da Allianz Trade.

Para 2026, as perspetivas apontam para um ambiente de risco ainda elevado. A Allianz Trade antecipa um aumento global das insolvências em cerca de 5%, mantendo-se os níveis acima das médias pré-pandemia, pressionados por condições financeiras restritivas, crescimento económico moderado e persistente incerteza geopolítica. Neste contexto, muitas empresas portuguesas estão a acelerar estratégias de internacionalização e diversificação de mercados, procurando compensar a desaceleração em segmentos tradicionais e explorar geografias com maior potencial de margem.

Quanto ao papel do Banco de Fomento, a Allianz Trade assegura que continuará a disponibilizar ao mercado as suas soluções de seguro de crédito enquanto seguradora, manifestando confiança de que eventuais alterações regulatórias venham a reforçar a competitividade, o financiamento e a sustentabilidade do tecido empresarial português.

Atradius Crédito y Caución
Manter compromissos de apoio em cenário mais volátil

A Atradius Crédito y Caución considera que o seguro de crédito opera, por natureza, em ambientes de incerteza, razão pela qual o atual contexto geopolítico tem reforçado a necessidade de monitorização permanente do risco. A seguradora explica que o foco tem estado na análise contínua dos setores de atividade, na avaliação do risco país e na monitorização do comportamento dos compradores, permitindo ajustar decisões de subscrição de forma seletiva e prudente. Embora alguns mercados ou setores mais expostos possam exigir maior cautela, a empresa sublinha que não existe uma retirada generalizada de capacidade, mantendo-se o compromisso de apoio às empresas num contexto internacional mais volátil.

Segundo a seguradora, a atual conjuntura obriga a revisões constantes dos portefólios de clientes e compradores, recorrendo a informação proveniente de clientes, parceiros, fornecedores de dados e equipas locais e internacionais. Esta abordagem permite tomar decisões de subscrição caso a caso, garantindo uma avaliação dinâmica da evolução do risco e da exposição das empresas. Para a Atradius Crédito y Caución, a capacidade de adaptação rápida às mudanças económicas e geopolíticas tornou-se um elemento central na gestão do seguro de crédito.

A nível dos preços, a empresa considera que a redução do prémio médio resulta de vários fatores estruturais. A crescente concorrência entre seguradoras, brokers e corretores tem intensificado a pressão competitiva, levando a uma maior otimização das coberturas e negociação de preços. Paralelamente, os avanços nos modelos de análise de risco e gestão de carteiras permitem hoje uma precificação mais precisa e ajustada ao perfil efetivo de cada cliente, promovendo uma utilização mais eficiente do capital e contribuindo para a moderação dos prémios médios praticados no mercado.

Na distribuição, a Atradius Crédito y Caución destaca a importância da sua rede exclusiva de agentes, composta por profissionais especializados em seguro de crédito e com profundo conhecimento do tecido empresarial português. A seguradora considera que a proximidade, a capilaridade e o serviço personalizado são fatores diferenciadores da sua operação, refletindo-se em elevados níveis de fidelização dos clientes. Este modelo é complementado pela colaboração com corretores e brokers especializados, sobretudo em clientes de maior dimensão ou com presença internacional, onde o seguro de crédito assume um papel integrado nas estratégias globais de gestão de risco e financiamento. A empresa mantém ainda alianças com instituições financeiras e outros parceiros estratégicos, reforçando uma lógica de distribuição multicanal.

Quanto à sinistralidade, a seguradora entende que a evolução recente está alinhada com a natureza cíclica do seguro de crédito. O pico registado em 2020 foi considerado claramente excecional devido ao impacto da pandemia, seguindo-se um regresso a níveis historicamente mais baixos. Ainda assim, a empresa admite que o atual contexto de desaceleração económica, aumento das tensões financeiras e redução gradual de algumas medidas extraordinárias de apoio poderá conduzir a um crescimento gradual dos sinistros. Para a Atradius Crédito y Caución, esta evolução será consistente com o comportamento natural do ciclo económico e do próprio setor segurador.

Para 2026, as perspetivas são consideradas moderadamente positivas, embora fortemente condicionadas pela elevada incerteza global. A seguradora acredita que fatores como os conflitos geopolíticos, a fragmentação do comércio internacional, a volatilidade financeira e as tensões nas cadeias de abastecimento irão reforçar a procura de mecanismos de proteção contra o risco de incumprimento. Neste contexto, o seguro de crédito deverá ganhar maior relevância tanto no mercado interno como nos processos de internacionalização, sobretudo em mercados fora da União Europeia, onde o risco país assume maior importância.

Relativamente ao Banco de Fomento, a Atradius Crédito y Caución considera que os mecanismos públicos de garantia deverão assumir um papel complementar ao mercado privado, funcionando de forma contra cíclica e assegurando capacidade adicional em situações de maior perturbação económica, sem substituir a lógica técnica e sustentável do seguro de crédito privado.

Coface
Instabilidade vai aumentar procura por seguros de crédito

A Coface defende que o atual contexto internacional reforça a importância do seguro de crédito como instrumento de apoio às empresas em períodos de instabilidade. Situações como a pandemia, a guerra na Ucrânia ou o conflito no Médio Oriente obrigam a um reforço do rigor e da seletividade na análise de risco, num setor particularmente sensível aos ciclos económicos e aos choques geopolíticos. Neste enquadramento, a seguradora mantém uma abordagem baseada numa avaliação dinâmica e contínua das empresas, sustentada em dados atualizados, tanto ao nível setorial como ao longo da cadeia de valor e da exposição efetiva aos diferentes riscos internacionais.

 

Segundo a Coface, esta estratégia traduz-se numa combinação de prudência, agilidade e gestão ativa do risco, procurando garantir que as empresas continuam a transacionar bens e serviços mesmo em ambientes de elevada incerteza. A seguradora considera que o atual cenário global está a acelerar a necessidade de soluções mais sofisticadas de proteção de crédito, sobretudo para empresas exportadoras e negócios mais expostos a disrupções económicas ou políticas. Neste contexto, destaca também a importância crescente da informação empresarial e da monitorização permanente do risco como fatores críticos de competitividade.

Ao nível dos preços, a Coface sublinha que a evolução das taxas médias depende sempre da dimensão e da qualidade das carteiras seguradas. Num mercado concorrencial, a seguradora considera natural a existência de pressão competitiva, mas defende que a escolha de uma apólice não deve ser feita apenas em função do prémio. Para a Coface, fatores como a capacidade de gestão da exposição ao risco, os mecanismos de cobrança e recuperação de créditos e a solidez no pagamento de indemnizações assumem um peso decisivo na avaliação do serviço prestado. A empresa destaca ainda a sua oferta de soluções específicas para riscos mais difíceis de absorver através de autosseguro, como o risco político ou catastrófico, particularmente relevante para PME em períodos de maior instabilidade.

Na distribuição, a Coface mantém um modelo global e multicanal, comercializando soluções em cerca de 100 países e 200 mercados. Em Portugal, a estratégia passa pela adaptação ao perfil de cada cliente, desde PME até multinacionais, através de canais próprios, plataformas digitais, corretores de seguros, parceiros estratégicos e acordos com instituições financeiras. Um dos exemplos é a parceria com o Novobanco, que permite disponibilizar soluções de seguro de crédito aos clientes empresariais da instituição financeira.

Quanto à sinistralidade, a Coface recorda que o seguro de crédito é, por natureza, um setor contra cíclico, sujeito a períodos de maior ou menor pressão consoante a evolução económica. A seguradora considera essencial uma monitorização contínua da conjuntura macroeconómica, setorial e geopolítica. Ainda assim, sublinha que o setor se mantém sólido e resiliente, acrescentando que a Coface apresenta níveis de capitalização robustos e capacidade financeira suficiente para continuar a apoiar as empresas mesmo em cenários mais adversos, sem comprometer a sustentabilidade do negócio.

Para 2026, a Coface antecipa um contexto de crescimento sustentado da procura por soluções de seguro de crédito, gestão de risco e informação empresarial, num ambiente marcado por elevada volatilidade e maior exposição ao risco. A seguradora considera que Portugal está plenamente integrado nas novas dinâmicas do comércio internacional, marcadas pela diversificação de mercados e pela reconfiguração das cadeias globais de produção. Apesar das oportunidades, alerta para o surgimento de novos riscos, reforçando a aposta em tecnologia, dados e serviços de informação como motores de crescimento.

Em relação ao Banco de Fomento, a Coface aguarda uma clarificação sobre o modelo de articulação com os operadores privados, defendendo que as empresas devem poder apresentar candidaturas através das suas seguradoras. A empresa destaca ainda que continua a ser o único operador privado em Portugal a assumir determinados riscos políticos, catastróficos e de investimento de médio e longo prazo em benefício das empresas portuguesas.

CESCE
Com mais PME como clientes e mais geopolítica na avaliação de risco

A CESCE considera que o atual contexto internacional reforça a necessidade de uma análise de risco mais aprofundada, sobretudo para empresas com atividade exportadora ou investimentos no estrangeiro. Ainda assim, a seguradora sublinha que a sua política de subscrição se mantém alinhada com os princípios habituais e que não houve uma retração da capacidade de cobertura devido ao aumento da incerteza global. O foco está antes numa abordagem mais analítica e preventiva, onde a componente geopolítica passou a ter um peso acrescido na avaliação de risco e nas projeções de crescimento dos negócios.

 

Segundo a seguradora, o processo de internacionalização exige hoje maior robustez financeira e operacional das empresas, bem como acesso a informação comercial de elevada qualidade sobre os mercados de destino. A CESCE destaca ainda a importância de fatores externos como a estabilidade institucional, a segurança jurídica e a capacidade de investimento dos países onde as empresas pretendem exportar ou instalar-se. Neste contexto, a seguradora procura continuar a desempenhar um papel de apoio à internacionalização, sobretudo das PME, ajudando-as a avançar com maior segurança mesmo em períodos marcados por conflitos ou instabilidade económica.

Ao nível das garantias, a CESCE explica que as coberturas domésticas continuam a representar um peso superior às internacionais, refletindo o facto de as empresas realizarem ainda mais negócios no mercado interno do que no exterior. A seguradora lembra também que o risco doméstico tende a ser mais fácil de monitorizar, dada a maior disponibilidade de informação financeira, o conhecimento da legislação local e a simplicidade dos processos de recuperação de dívida. Ainda assim, considera que o mercado atravessa atualmente um ponto de inflexão, marcado por baixa sinistralidade, forte concorrência e pressão descendente sobre os prémios médios, num contexto de crescimento reduzido das vendas das empresas seguradas.

A CESCE identifica o autosseguro como o principal concorrente do seguro de crédito. Muitas empresas continuam a optar por reter internamente o risco de incumprimento, reservando capital próprio para absorver eventuais perdas. Contudo, a seguradora alerta que esta estratégia pode revelar-se particularmente perigosa em períodos de crise, quando um cliente aparentemente sólido pode entrar rapidamente em incumprimento. Ao contrário do autosseguro, o seguro de crédito oferece mecanismos de prevenção, através da análise de solvência, e de recuperação de dívida, reduzindo o impacto financeiro sobre as tesourarias das empresas. Neste sentido, a seguradora está a apostar na democratização do produto, procurando atrair PME que nunca utilizaram seguro de crédito através de soluções mais simples e acessíveis, como a “Apólice Fácil”.

Na distribuição, a Cesce mantém uma estratégia omnicanal, assente sobretudo numa rede de agentes exclusivos, mediadores especializados e corretores de seguros. A empresa considera que o seguro de crédito exige uma forte componente de consultoria técnica, sobretudo nas médias e grandes empresas, onde os corretores continuam a desempenhar um papel central na gestão das apólices e na negociação dos limites de crédito. Paralelamente, a seguradora pretende reforçar a presença junto das PME através de produtos simplificados que possam ser distribuídos também por mediadores generalistas. As parcerias bancárias são vistas como outra das grandes alavancas de crescimento, integrando o seguro de crédito nas soluções de financiamento empresarial e reforçando simultaneamente a segurança para bancos e empresas.

Para 2026, a Cesce acredita que o crescimento do setor dependerá sobretudo da expansão da base de clientes nacionais e da substituição gradual do autosseguro por soluções de transferência de risco mais estruturadas. A seguradora considera que a crescente internacionalização das empresas portuguesas obriga a um reforço contínuo da capacidade de recolha e análise de informação global, acompanhando as novas dinâmicas do comércio internacional. Neste cenário, a aposta em tecnologia, dados e proximidade comercial deverá assumir um papel cada vez mais relevante para apoiar as empresas portuguesas num ambiente económico mais complexo e imprevisível.

No primeiro trimestre de 2026, o ramo de crédito e caução — reunindo todas as seguradoras — aumentou prémios em 15% em relação a 2025, atingindo os 30 milhões de euros em três meses.

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