Há 1105 PPR mas a vasta maioria não superou a inflação no último quinquénio, em cerca de um quarto dos produtos o gestor ganhou mais do que o investidor e os 20% prometidos no IRS não chegam a 4%.
Há mais de três décadas que os Planos Poupança Reforma (PPR) ocupam um lugar de destaque na oferta comercial de bancos e seguradoras. Foram pensados para serem o trampolim discreto da reforma, o produto silencioso a que os portugueses voltam particularmente quando o mês de dezembro lhes lembra que o IRS está à porta e que a Segurança Social, sozinha, dificilmente lhes pagará o nível de vida que ambicionam.
Trinta e seis anos depois do diploma que os criou, os PPR são ainda hoje um dos pilares da poupança das famílias, que é espelhado numa indústria que movimenta 17,8 mil milhões de euros alimentada por mais de 2,1 milhões de subscritores que, ano após ano, continua a vender uma promessa que, na prática, raras vezes consegue cumprir.
Essa promessa começou no verão de 1989. Foi pela mão do primeiro Governo de Aníbal Cavaco Silva que em junho desse ano os PPR nasceram com a missão expressa de “incentivar a poupança de longo prazo” e “criar esquemas complementares ao sistema geral de Segurança Social”.
O Estado abdicava de receita fiscal imediata para conseguir uma coisa que considerava estratégica — direcionar capitais das famílias para a poupança de médio e longo prazo –, num país onde a esperança média de vida sobe e a sustentabilidade do sistema público de pensões é, há muito, uma dor de cabeça. Em troca, o investidor recebia um chamariz fiscal à entrada e uma tributação mais leve à saída. Mas o mercado que se construiu ao longo deste tempo, e que hoje conta com 1.105 produtos com selo “PPR”, está longe de honrar o espírito do diploma fundador.
Existem hoje no mercado 1.105 PPR registados, dos quais 903 (82%) são PPR sob a forma de seguros, 139 são fundos PPR (fundos de investimento) e 63 são fundos de pensões. Porém, apenas cerca de um quarto destes mais de mil PPR encontram-se em comercialização.
Os dados mais recentes dos reguladores destes produtos — Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) — compilados pelo ECO confirmam a dimensão da indústria: em 2024, foram mais de 2,1 milhões os subscritores de PPR ativos, com uma aplicação média de 1.305 euros, um valor 16% acima da média dos últimos cinco anos.
O bolo total de ativos sob gestão em PPR rondava os 17,8 mil milhões de euros, ainda longe dos históricos 21,6 mil milhões de euros alcançados em 2019, mas suficiente para que estes planos representem perto de 6,2% do PIB. Continuam a ser, por isso, o produto-âncora de poupança-reforma em Portugal, mesmo quando o número de novos subscritores começa a esmorecer, como se tem assistido nos últimos três anos.
A oferta acompanhou esta popularidade, mas fê-lo de forma desequilibrada. Existem hoje no mercado 1.105 PPR registados, dos quais 903 (82%) são PPR sob a forma de seguros, 139 são fundos PPR (fundos de investimento) e 63 são fundos de pensões. Significa que, por cada 10 PPR que existem, 8 são seguros. É o reflexo direto do modelo bancassurance, em que os bancos vendem produtos das seguradoras do grupo aproveitando a proximidade ao cliente.
Mas esta enorme oferta é, em larga medida, minguada quando se analisa apenas os produtos que aceitam novos investidores. Dos 1.105 PPR existentes, apenas 273 (cerca de um quarto) estão efetivamente disponíveis para comercialização e aceitam novos subscritores. E é nesta fatia que a fotografia muda de figura.
Entre os PPR comercializáveis, mais de metade (139) são fundos de investimento e apenas 26% são seguros. Ou seja, o investidor que entre hoje numa agência confronta-se com um universo bem mais magro do que aquele que as estatísticas globais sugerem e, com sorte, com uma oferta um pouco mais alinhada com produtos de investimento e menos com seguros com capital garantido que, como mostram os dados dos últimos dez anos, não têm sido um bom negócio para a poupança dos portugueses.
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Desempenho que não acompanha o custo de vida nem em 2025
O retrato da indústria de PPR torna-se desconfortável quando se passa da oferta para o desempenho. Os mais de mil PPR com pelo menos um ano de vida a 31 de dezembro de 2025 fecharam o ano passado com uma rendibilidade mediana de 2,5%, apenas 16 pontos base acima da taxa de inflação média de 2,34% registada em 2025, segundo o índice de Preços do Consumidor (IPC).
Significa que, mesmo num ano relativamente benigno, com a inflação a normalizar depois do choque energético do triénio anterior, somente 55% dos PPR conseguiram oferecer aos seus subscritores ganhos reais. Cerca de metade do mercado destruiu poder de compra num único ano. E o cenário deteriora-se à medida que se alarga o horizonte.
- Num horizonte de investimento a três anos (2023–2025), os 933 PPR com histórico suficiente apresentaram uma rendibilidade anualizada mediana de 2,75%, ficando assim abaixo da inflação média anualizada de 3,02% no mesmo período.
- A cinco anos, o quadro é particularmente sombrio: os 884 PPR com pelo menos cinco anos de existência a 31 de dezembro de 2025 alcançaram uma rendibilidade anualizada mediana de apenas 1,9%, contra uma taxa de inflação média anualizada de 3,61%. Na prática, significa que quem investiu num PPR nos últimos cinco anos perdeu, em termos reais, cerca de 1,7 pontos percentuais por ano, em termos medianos.
Apenas 13% dos PPR existentes foram capazes de bater a inflação a cinco anos. E mesmo concentrando a análise nos PPR atualmente em comercialização, a fotografia não fica muito mais animadora: só 21,6% conseguiram superar a inflação no quinquénio e menos de três em cada dez bateram a inflação a 10 anos.
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A décadas de distância da promessa do diploma de 1989, a constatação é demolidora: tanto a 3, como a 5 e a 10 anos, a rendibilidade anualizada mediana da indústria ficou sempre abaixo da taxa de inflação média do período. Quem subscreveu um PPR a olhar para a reforma está, na esmagadora maioria dos casos, a financiar o sistema sem que o sistema esteja, em troca, a defender o seu poder de compra.
Mais grave ainda é o desempenho das classes onde estão concentrados os portugueses mais conservadores e a fatia de leão da oferta. Os PPR com nível de risco 1, 2 e 3 — numa escala em que 1 sinaliza risco muito baixo e 6 risco muito elevado — ofereceram, nos últimos cinco anos, rendibilidades medianas anuais abaixo de 1%, contra uma inflação média de 3,61%, com somente 6% destes produtos a conseguir bater o IPC.
A 10 anos o filme não muda: a rendibilidade mediana anual é de 0,8% e apenas 7% superaram a inflação. O paradoxo é cruel: os investidores que procuram “segurança” nos PPR mais conservadores acabaram por ser os mais castigados pela erosão do dinheiro. O quadro torna-se ainda mais negro nos PPR com garantia de capital, que representam atualmente quase 71% da oferta total:
- Mesmo em 2025, com a inflação a abrandar, os PPR de capital garantido apresentaram uma rendibilidade mediana de 2,28%, ligeiramente abaixo dos 2,34% da inflação, e perdem em todos os horizontes a 3, 5 e 10 anos para a subida de preços.
- A cinco anos, os 678 PPR com capital garantido com pelo menos cinco anos de história fecharam o quinquénio com uma rendibilidade mediana de apenas 2%, contra uma taxa de inflação média anualizada de 3,61% (encontrando-se inclusive quatro PPR com perdas nominais). Trata-se de um diferencial negativo de mais de um ponto e meio por ano que, capitalizado, transforma a “garantia de capital” numa garantia de perda silenciosa de poder de compra.
Por trás deste desempenho anémico da oferta de PPR está, em grande medida, uma estrutura de custos que continua a desafiar o bom senso financeiro. Apesar de décadas de pressão regulatória, 44% dos PPR ainda cobram comissões de subscrição, com muitos a exigirem comissões acima de 3% e muito acima da rendibilidade que oferecem (tanto com ou sem garantia de rendibilidade).
O exemplo mais notório é o do MISTO BA PPR, da gestora España, que apresenta uma comissão de subscrição mínima de 10% e máxima de 12% e uma taxa de custos de gestão anual de 3,08%. E isto com resultados muito longe de deixarem qualquer investidor satisfeito, já que em 2025 alcançou uma rendibilidade negativa de 0,73%, acompanhado de rendibilidades médias anuais negativas de 1,36% e 1,22% a três e cinco anos, respetivamente, e um retorno médio anual de apenas 0,11% a dez anos. Por outras palavras, depois de descontadas comissões e custos correntes, este produto entregou aos subscritores, ao longo de uma década, uma rendibilidade que mal chega para um café.
Nos últimos cinco anos, 25,7% dos PPR apresentaram taxas de gestão acima da rendibilidade oferecida aos seus subscritores. Significa que, entre 2021 e 2025, mais de um quarto dos PPR pagou mais aos gestores do que entregou aos investidores.
Mas o problema das comissões de subscrição é apenas a ponta do iceberg. O verdadeiro dreno está nas comissões anuais de gestão, que se aplicam silenciosamente ano após ano sobre o património.
A taxa de custos de gestão mediana dos PPR ronda os 0,8%, mas há produtos a cobrar mais de 3% ao ano e vários a cobrar mais de 2%, sem que isso se traduza em ganhos acima da média. Em produtos cujo desempenho mediano mal supera 2% ao ano, custos desta dimensão são uma sentença prática de incapacidade de bater a inflação.
Os dados da CMVM e da ASF confirmam a desproporção. Nos últimos cinco anos, 25,7% dos PPR apresentaram taxas de gestão acima da rendibilidade oferecida aos seus subscritores. E afunilando a oferta para apenas os PPR em comercialização, este rácio sobe para 29%. Significa que, entre 2021 e 2025, mais de um quarto dos PPR pagou mais aos gestores do que entregou aos investidores.
A boa notícia, e é importante sublinhá-la para evitar o desânimo, é que existem exceções. Entre os PPR em comercialização há produtos sólidos, maioritariamente com elevada exposição a ações, comissões competitivas e desempenhos consistentes.
- Os PPR sob a forma de fundos de investimento das classes de risco 5 e 6, por exemplo, chegaram a registar rendibilidades anualizadas de 8,4% e 16,4% no último triénio. É o caso do Save & Grow PPR da Casa de Investimentos e do Bankinter Mega TT PPR da Bankinter Gestión de Activos, que acumulam uma rendibilidade média anual de 20% e 12,5%, respetivamente, entre 2023 e 2025 e são fundos de quatro e cinco estrelas da Morninsgtar, seguindo filosofias de investimento distintas. E ainda do PPR Golden SGF Poupança Dinâmica, um PPR sob a forma de fundo de pensões gerido pela Golden SGF, que acumula ganhos médios anuais de 8,38% no último quinquénio e 5,24% nos últimos 10 anos, sendo o PPR mais rentável nestes dois horizontes.
- Há também bons exemplos para carteiras menos dispostas aos solavancos do mercado, como sucede com o Alves Ribeiro PPR (conhecido também por Invest AR) do Banco Invest, um fundo de nível risco 4 e com cinco estrelas pela Morningstar, que investe até 40% da carteira em ações, e que nos últimos 10 anos acumula uma rendibilidade média anual de 4,67% com uma taxa de encargos correntes de 1,59%. Destaque também para o Sixty Degrees PPR Flexível I, um fundo de investimento de nível risco 2 gerido por Virgílio Garcia que investe maioritariamente em obrigações e que se revela num autêntico outlier na oferta de PPR. Não só porque alcançou uma rendibilidade média anual de 5,42% no último triénio e de 4,25% no último quinquénio sem que isso se traduzisse num nível de volatilidade acima dos seus pares, como alcançou um desempenho acima da mediana dos PPR de todas as classes de risco no último quinquénio.
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A ilusão do benefício fiscal que a maioria nunca consegue alcançar
Se a popularidade dos PPR resiste apesar do desempenho medíocre, é porque há uma força gravitacional que continua a atrair os investidores em massa: a promessa do benefício fiscal à entrada em sede de IRS.
A lei permite deduzir à coleta do IRS 20% do valor aplicado em PPR, até um máximo anual de 400 euros para quem tenha menos de 35 anos, 350 euros entre os 35 e os 50, e 300 euros acima dos 50. É um chamariz tão eficaz que, em 2024, quase 461 mil agregados familiares declararam ter feito investimentos em PPR, mais 100 mil do que há uma década.
A indústria tem aprendido a explorar com eficácia esta “cenoura” nas campanhas de fim de ano, mas o problema é que esta narrativa, embora tecnicamente correta, é estatisticamente enganadora.
A taxa efetiva de benefício fiscal alcançada pelos subscritores de PPR está muito longe dos 20% anunciados. Em 2024, a taxa média do benefício fiscal ficou-se nos 3,77% e nos últimos 10 anos foi de apenas 2,82%
Segundo cálculos do ECO com base nos dados mais recentes da Autoridade Tributária e Aduaneira, a taxa efetiva de benefício fiscal alcançada pelos subscritores de PPR está muito longe dos 20% anunciados. Em 2024, a taxa média do benefício fiscal ficou-se nos 3,77%. A média dos últimos cinco anos não anda longe disso (3,82%) e a média dos últimos 10 anos terminados em 2024 é ainda mais reduzida: apenas 2,82%. Em todo este tempo, a taxa efetiva nunca subiu acima dos 5,3% registados em 2023.
A razão é simples e está escrita no Código do IRS: o benefício fiscal dos PPR não é um “bónus” autónomo. Concorre com outras deduções à coleta — as despesas gerais familiares, as despesas de saúde, a dedução por dependentes, os encargos com imóveis — dentro de um teto global de deduções que varia consoante o escalão de rendimento.
Para um agregado familiar de classe média, com filhos e despesas de saúde recorrentes, as restantes deduções consomem normalmente todo o espaço disponível, e o investimento em PPR acaba por gerar pouca ou nenhuma vantagem fiscal adicional. O “bónus” máximo de 400 euros é, na prática, alcançável apenas por uma fatia muito reduzida de contribuintes, geralmente os mais novos, sem dependentes e com rendimentos acima da média.
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Na carteira, este diferencial é muito significativo. Para se ter uma ideia, um investidor com menos de 35 anos que aplique os 2.000 euros necessários para atingir a dedução máxima, espera, em teoria, recuperar 400 euros em IRS. Porém, segundo a taxa média efetiva dos últimos cinco anos (3,82%), recuperaria na realidade cerca de 76 euros — e olhando para os últimos 10 anos (2,82% de média), pouco mais de 56 euros. A diferença entre o que é prometido pela publicidade e o que é entregue pela máquina fiscal pode chegar a quase 350 euros por ano por agregado familiar.
A combinação desta arquitetura é um cocktail desfavorável ao investidor médio: um benefício fiscal à entrada cinco a sete vezes inferior ao prometido, um desempenho mediano que não acompanha a inflação e comissões que, em mais de um terço dos casos, levam mais dinheiro aos gestores do que aos subscritores.
Porém, é importante não esquecer a grande vantagem dos PPR, que muitos subscritores desconhecem, e esta sim altamente favorável aos investidores: os resgates feitos dentro das condições legais — reforma por velhice, após os 60 anos com cinco anos de antiguidade do PPR, desemprego de longa duração, incapacidade, doença grave, morte do titular ou pagamento de prestações de crédito à habitação — beneficiam de uma taxa de apenas 8% sobre as mais-valias, contra os 19,6% que se aplicam à generalidade dos produtos financeiros detidos há mais de 8 anos. Fora destas condições, resgates antecipados implicam a devolução do benefício fiscal recebido, acrescido de uma penalização de 10% por ano decorrido.
Investir num PPR pode continuar a fazer sentido pela disciplina de poupança a longo prazo e pela tributação reduzida à saída, mas exige uma escolha informada, focada nos custos e na consistência do desempenho da gestão.
A indústria financeira não está, contudo, condenada à inércia, e os investidores ainda menos. A lei permite transferir o capital acumulado num PPR para outro da mesma natureza de forma totalmente gratuita (no caso dos PPR sem capital garantido) e sem perder os benefícios fiscais já acumulados.
Quem hoje detém um PPR cuja rendibilidade tem ficado sistematicamente abaixo da inflação não tem de continuar refém da escolha que fez há cinco, dez ou vinte anos. A escolha de um PPR deveria começar exatamente onde os subscritores menos olham: nas comissões, no nível de risco e na consistência do desempenho a cinco e dez anos.
Investir num PPR pode continuar a fazer sentido pela disciplina de poupança a longo prazo e pela tributação reduzida à saída — até 8% sobre as mais-valias. Mas exige uma escolha informada, focada nos custos, na consistência do desempenho a cinco, dez anos e na adequação do nível de risco ao horizonte de reforma. Olhar apenas para a dedução à coleta como motivo de investimento é cair na ilusão que a Autoridade Tributária, ano após ano, vem desmontando nos seus próprios números.
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Só 13% dos PPR bateram a inflação nos últimos 5 anos e os com “menos risco” foram os que destruíram mais valor
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