João Castello Branco, um homem entre mulheres no maior grupo industrial português

João Castello Branco foi o gestor escolhido em 2015 por Pedro Queiroz Pereira para liderar a Semapa. Mais cedo do que se pensava, é um gestor entre as três herdeiras do industrial. E agora?

João Castello Branco é um homem entre três mulheres, é o gestor profissional e presidente executivo da Semapa entre as três herdeiras de Pedro Queiroz Pereira (PêQêPê), o empresário e industrial que morreu no dia 18 de agosto e que deixa assim uma cadeira vazia como chairman do maior grupo industrial de base portuguesa. Ainda não se sabe se alguma das três filhas – Filipa, Mafalda ou Lua – vai assumir o cargo de chairwomen da holding que controla a The Navigator e a Secil, mas já se sabe que, qualquer que venha a ser o novo modelo de governação, Castello Branco é uma figura central no futuro do grupo.

Quem é este gestor, discreto, à imagem do próprio PêQêPê, que está no grupo desde 2015? Licenciado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico e com mestrado em Gestão pelo INSEAD (França), “exerce, desde julho de 2015, funções como Presidente da Comissão Executiva da Semapa, tendo sido, até essa data, Sócio Director da McKinsey & Company – Escritório Ibéria. Ingressou na McKinsey em 1991, onde desenvolveu a sua atividade num número variado de indústrias, com particular ênfase nos serviços financeiros (banca e seguros), onde serviu algumas das instituições líderes, tanto em Portugal, como em Espanha. Trabalhou também nesse setor na Europa, América Latina e Estados Unidos. Foi membro do grupo de liderança da prática de banca da McKinsey, na Europa, tendo liderado as práticas de Corporate Finance, tanto de Banca, como de Seguros. Liderou igualmente vários trabalhos na McKinsey sobre competitividade, produtividade e inovação, tanto em Portugal, como em Espanha”. Isto é o que se lê no curriculum publicado no site da Semapa, a holding que é controlada em mais de 71% pela Sodim, a holding da família Queiroz Pereira.

Mas o que dizem os trabalham direta e indiretamente com Castello Branco? Consensual, discreto, reservado, competente, de confiança. São alguns dos adjetivos que se ouvem de quem o conhece, de quem com ele já trabalhou no passado e no presente. O gestor, é preciso dizer, foi uma escolha pessoal de Pedro Queiroz Pereira, ao contrário de outros gestores do grupo, como Diogo da Silveira, que passou o crivo das avaliações de uma empresa de gestão de recursos humanos. Castello Branco tinha, na altura, 55 anos. O dono da Semapa justificou a sua escolha, dizendo que a alteração visava “reforçar a equipa executiva com um quadro de topo de perfil internacional, com uma carreira sólida e experiência em vários setores de atividade”. E, nos últimos anos, com a progressiva diminuição de atividade de Queiroz Pereira, tinha uma autonomia e um poder quase absoluto na gestão do grupo.

Quem se cruzou com o gestor nos tempos da McKinsey não tem dúvidas. “João”, é assim que é tratado, “é muito inteligente, tranquilo e sabe bem o que quer. É, aliás, a combinação destes fatores que faz com que saiba transmitir com grande clareza e com muita calma as suas ideias”, disse ao ECO um gestor que se cruzou com o presidente executivo da Semapa. “Por via dessas qualidades tem uma excelente relação com os colegas”, afirma quem com ele trabalhou de perto.

A Semapa – que registou vendas consolidadas de mais de mil milhões de euros e 59 milhões de lucros no primeiro semestre de 2018 — é a holding de gestão de participações que controla 71,7% da The Navigator Company, 99,9% da cimenteira Secil e também 99,9% da empresa de ambiente ETSA. A função de gestor executivo, garantem as mesmas fontes, “não é nada fácil”. A Semapa é uma holding que tem empresas operacionais muito fortes e isso dificulta o trabalho ao gestor. É a Castello Branco que cabe fazer a “ponte” com os gestores das participadas, sempre em estreita articulação com Pedro Queiroz Pereira. Mais uma vez, quem o conhece bem, diz que desempenha o papel na perfeição.

Temos tudo o que necessitamos para continuar a abraçar o futuro com o otimismo e a confiança a que o Pedro nos habituou. É esta a forte convicção que tenho, eu, as principais acionistas do grupo e as equipas de gestão.

João Castello Branco

A par da relação de confiança que tinha com o industrial, o líder executivo da Semapa estabeleceu boas relações com Diogo da Silveira, da The Navigator Company, e com Otmar Hübscher, presidente executivo da Secil. Com as filhas do industrial (Filipa, Mafalda e Lua, que são administradores não executivas da Semapa desde o passado desde maio), que, segundo as contas da Exame, herdam uma fortuna avaliada em mais de 700 milhões de euros, Castello Branco tem também uma relação de proximidade, mas outra fonte que conhece a família sublinha que estão a habituadas a líderes fortes, à imagem do pai, e Castello Branco tem outro perfil, mais próxima do consultor do que propriamente do gestor que decide. “Esse será o seu desafio, a partir do momento em que não tem a presença de um empresário com o instinto e o rasgo de Pedro Queiroz Pereira”, afirma a mesma fonte. E tem a cultura do Grupo? “É difícil em tão pouco tempo ter essa cultura”, admite outro gestor que conhece o grupo por dentro e já lá trabalhou. Mas essa não é a mensagem que é passada.

Talvez antecipando precisamente esta leitura, na nota enviada aos colaboradores, esta quinta-feira, João Castello Branco diz que não deve haver dúvidas ou apreensões sobre o futuro do grupo e sublinha o alinhamento com as principais acionistas e com as equipas de gestão. “Começa agora, sem nenhum traço de descontinuidade” para com o passado, “tendo como únicos desafios os próprios mercados dos nossos negócios”, assinalou o gestor perante o desaparecimento de Pedro Queiroz Pereira. “Perdemos todos um líder incontornável, mas esta enorme perda não nos deve deixar dúvidas ou apreensões sobre os rumos futuros do grupo”, acrescentou. “Temos tudo o que necessitamos para continuar a abraçar o futuro com o otimismo e a confiança a que o Pedro nos habituou. É esta a forte convicção que tenho, eu, as principais acionistas do grupo e as equipas de gestão”, pode ler-se na missiva.

Nas próximas semanas, as herdeiras de Pedro Queiroz Pereira vão ter de decidir quem vai ser o chairman do grupo. E pode vir a ser uma das filhas, um gestor externo ao grupo ou até vir a ser Castello Branco a acumular funções. “Neste momento, não há decisões”, diz uma fonte ao ECO. Há uma decisão que está tomada, e que decorre dos princípios definidos pelo agora desaparecido empresário. Uma clara separação entre a função acionista e a função de gestão. Mas a mesma fonte precisou que, ao contrário do que tem sido escrito, o ‘family office’ que foi criado há uns anos e que é participado pelas filhas de PêQêPê não tem nada a ver com a herança que, agora, vão receber. “Há um family office (uma Société de Participations Financiéres ou SOPARFI, no Luxemburgo, que é uma sociedade aberta com ações e não um fundo fechado) com alguns anos entre Pedro Queiroz Pereira e as filhas para gerir uma pequena parte dos ativos financeiros da família. O principal bolo das participações de Pedro Queiroz Pereira será herdado por cada uma das filhas”, disse a mesma fonte.

A influência de Castello Branco no grupo, salienta outra fonte, é muito relevante. “O João conseguia convencer o líder do grupo e, nos próximos meses, essa influência vai ser mais clara com os projetos que vão ser anunciados, tendo em vista, por exemplo, a diminuição do risco de um grupo que tem na Navigator mais de 70% dos seus ativos. E isso resultou, muito, da participação de João Castello Branco”, referiu a mesma fonte, sem especificar quais serão esses novos caminhos.

Recentemente, a Semapa realizou a sua primeira conferência de Imprensa, com o lançamento da Semapa Next, uma área do grupo dedicado ao investimento e apoio às startups na área industrial. João Castello Branco marcou presença, além de Ricardo Pires, o presidente executivo desta área, e de Lua Queiroz Pereira, a filha mais nova de PêQêPê (nascida em 1981) que acompanha também este projeto muito de perto. “O João Castello Branco é um gestor discreto, mas vai ter de aumentar um pouco o seu perfil público”, sublinhou. Uma oportunidade vai ser a inauguração do investimento na nova máquina de produção de papel na fábrica de Cacia, em Setúbal, que começou a laboração neste mês de agosto. Estava agendada para outubro e, agora, ainda ninguém sabe se o evento vai realizar-se. Mas, como confidencia um alto quadro do grupo ao ECO, esta fábrica tinha um grande valor sentimental para Pedro Queiroz Pereira. “Foi inaugurada pelo seu avô há mais de 60 anos e, nessa altura, Pedro Queiroz Pereira estava também lá”.

A forma como nós olhamos para as coisas condiciona muito as consequências que tiramos delas. Assim se eu olho para o copo meio vazio vou atuar de uma maneira; se eu olhar para o copo meio cheio, atuo de outra.

João Castello Branco

Há uma faceta ainda menos conhecida de João Castello Branco. Para lá da dimensão de consultoria empresarial e financeira, Castello Branco tem também uma atenção à avaliação económica do país e, em 2003, entregou ao governo de Durão Barroso um estudo sobre os constrangimentos e as oportunidades para o aumento da produtividade do país. Foi um estudo desenvolvido pelo ‘think tank’ McKinsey Global Institute e pelo escritório lisboeta da consultora, e entregue ao primeiro-ministro e ao ministro da Economia de então, Carlos Tavares. Além disso, Castello Branco foi, juntamente com Raúl Galamba de Oliveira e Heino Fassbender, autor do livro “Conquistar o futuro da Europa. Uma perspetiva estratégica”, publicado em 2005.

Gestor discreto, sempre fora das páginas dos jornais, avesso a entrevistas, tem exatamente o perfil público à medida de um empresário como Pedro Queiroz Pereira. Mas, curiosamente, a relação com a comunicação social é até de proximidade em termos de negócio. João Castello Branco é um dos acionistas fundadores do jornal online Observador.

A vida dá muitas voltas. E a de João Castello Branco é a prova disso. Em 2006, em conversa com a jornalista Mafalda Avelar, para uma secção do Expresso denominada “Livros à volta do mundo”, o gestor escolheu um dos que mais o tinha marcado. Qual foi? “The Art of Possibility: Transforming Professional and Personal life” (2000), de Rosamund e Benjamin Zander. Porquê? “É uma tese que está na intersecção entre o pessoal e o empresarial“, dizia. É a história de um maestro que utiliza a sua experiência na direção de orquestras para falar sobre liderança, sobre transformação pessoal. “A forma como nós olhamos para as coisas condiciona muito as consequências que tiramos delas. Assim se eu olho para o copo meio vazio vou atuar de uma maneira; se eu olhar para o copo meio cheio, atuo de outra”. O gestor tem agora, mais do que nunca, a oportunidade de testar esta tese.

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