Três bloqueios ao crescimento económico em Portugal

O que continua a faltar é a coragem política e institucional para romper com um modelo que há demasiado tempo limita o potencial de crescimento do país, escreve o economista Óscar Afonso.

ECO Fast
  • Portugal enfrenta um problema estrutural de crescimento económico, com uma média de apenas 1% ao ano desde 1999, divergindo da média da UE.
  • A especialização em setores de baixa produtividade, como turismo e imobiliário, tem contribuído para a estagnação dos salários e a falta de inovação, limitando o crescimento sustentável.
  • Sem uma mudança no modelo de crescimento e investimento, Portugal continuará a ser ultrapassado por países da UE, perpetuando a divergência em termos de rendimento per capita.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Portugal enfrenta, há mais de duas décadas, um problema estrutural de crescimento económico que se traduz numa divergência persistente face à União Europeia (UE).

Entre 1999 e 2024, a economia portuguesa cresceu, em média, cerca de 1% ao ano, um ritmo que implica duplicar o PIB apenas ao fim de quase 70 anos. No mesmo período, a UE cresceu perto de 1,5% ao ano, duplicando o seu produto em menos de meio século. Esta diferença, aparentemente modesta em termos anuais, acumula-se ao longo do tempo e produz efeitos profundos sobre o nível de vida, os salários reais e a capacidade de o país financiar serviços públicos de qualidade.

O aspeto mais inquietante deste desempenho é que Portugal partiu de um nível de rendimento per capita inferior à média europeia e, ainda assim, cresce sistematicamente menos do que os seus parceiros. Em vez de convergir, diverge. Este padrão contraria a lógica básica da teoria do crescimento económico, segundo a qual economias menos desenvolvidas deveriam crescer mais rapidamente, beneficiando de processos de difusão tecnológica, acumulação de capital e integração em mercados alargados. No caso português, esses mecanismos têm funcionado de forma incompleta ou distorcida.

É verdade que, nos últimos anos, o crescimento económico foi temporariamente mais elevado. Contudo, essa aceleração assenta em fatores essencialmente conjunturais: um Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) excecionalmente generoso, uma expansão muito intensa do turismo e um aumento rápido da imigração. Entre 2017 e 2024, Portugal recebeu cerca de 160 mil novos imigrantes líquidos, o que representou um acréscimo significativo da população ativa e da oferta de trabalho. Num contexto destes — e tendo em conta a estrutura atual da economia portuguesa, mesmo com os seus problemas de produtividade — seria razoável esperar taxas de crescimento próximas de 4% ao ano, sustentadas pelo simples efeito quantitativo do aumento do fator trabalho.

O crescimento tem oscilado em torno dos 2%, valor que tem sido frequentemente celebrado como sinal de sucesso, apesar de ser manifestamente insuficiente face ao reforço excecional dos fatores de produção disponíveis. Crescer apenas 2% num contexto de forte aumento da população ativa significa, na prática, continuar a gerar baixos ganhos de produtividade, manter salários comprimidos e perpetuar a divergência em termos de rendimento per capita.

O que se observou, porém, foi bem diferente. O crescimento tem oscilado em torno dos 2%, valor que tem sido frequentemente celebrado como sinal de sucesso, apesar de ser manifestamente insuficiente face ao reforço excecional dos fatores de produção disponíveis. Crescer apenas 2% num contexto de forte aumento da população ativa significa, na prática, continuar a gerar baixos ganhos de produtividade, manter salários comprimidos e perpetuar a divergência em termos de rendimento per capita.

Um país com as características de Portugal — economia aberta, integração plena no mercado europeu, acesso a financiamento comunitário e reforço significativo da mão-de-obra — deveria crescer de forma substancialmente mais robusta. Não o faz porque enfrenta bloqueios estruturais profundos, que limitam a transformação do crescimento extensivo em crescimento intensivo, isto é, em ganhos sustentados de produtividade.

Na análise abaixo realço três bloqueios relevantes e inter-relacionados – entre outros que poderia apontar – que têm limitado o crescimento económico português: uma especialização produtiva concentrada em setores de baixa produtividade, um modelo de organização territorial excessivamente centralizado e um nível de investimento persistentemente insuficiente. Juntos, estes fatores ajudam a explicar, em boa medida, por que razão Portugal cresce pouco, cresce mal e continua a afastar-se da média europeia.

Especialização produtiva

A Figura 1 evidencia de forma inequívoca que Portugal se especializou progressivamente em setores de baixa produtividade, consolidando um perfil produtivo pouco favorável ao crescimento económico sustentado. Em particular, observa-se um aumento relativo do peso de atividades diretamente associadas ao turismo de massas, com destaque para o comércio, transportes, alojamento e restauração [G–I] – que inclui o alojamento e restauração, mais o transporte e o comércio, também influenciados, em parte, pela atividade turística – e para as atividades imobiliárias [L], setores cuja expansão tem moldado de forma decisiva a estrutura da economia portuguesa nas últimas duas décadas.

Estes setores têm sido relevantes na criação de emprego, precisamente porque são intensivos em mão-de-obra. Contudo, essa característica encerra um problema estrutural profundo: trata-se, de um modo geral, de atividades com baixa produtividade média, fraca incorporação tecnológica e reduzida capacidade de gerar efeitos de arrastamento sobre o resto da economia. Como consequência:

(i) Pagam salários estruturalmente baixos,

(ii) Apresentam escassa dinâmica de inovação;

(iii) Não criam crescimento sustentado da produtividade, limitando a evolução do rendimento per capita e a convergência real com a UE.

O crescimento que geram é, em larga medida, extensivo, dependente da acumulação de trabalho, e não intensivo, assente em ganhos de eficiência.

O contraste com os países da Europa de Leste, também visível na Figura 1, é particularmente elucidativo. Estas economias seguiram uma trajetória de especialização (peso do VAB de cada setor) substancialmente diferente. Em primeiro lugar, mantiveram uma base industrial forte [B–E], apostando na produção de bens transacionáveis e na integração profunda nas cadeias de valor europeias. Esta opção permitiu-lhes beneficiar de ganhos de produtividade, de processos de difusão tecnológica e de economias de escala associadas ao mercado interno europeu, criando uma base sólida para a convergência real.

Em segundo lugar, reforçaram a sua especialização no agregado comércio, transportes e armazenagem [G–I], mas numa lógica profundamente distinta da portuguesa. Nestes países, o peso destes setores resulta sobretudo do investimento em logística, transportes e armazenagem articulados com a indústria, funcionando como infraestruturas de suporte à produção e à exportação, e não como atividades predominantemente orientadas para o turismo e o consumo interno.

Adicionalmente, observa-se um reforço da especialização na construção [F], em sentido contrário ao ocorrido em Portugal. Esta opção contribuiu para uma maior capacidade de resposta às necessidades habitacionais, atenuando pressões sobre os preços do imobiliário e ajudando a explicar por que razão muitos destes países enfrentam hoje menos constrangimentos no acesso à habitação do que a economia portuguesa.

Outro aspeto central da sua trajetória foi a aposta clara nas atividades de informação e comunicação [J], onde se inserem as tecnologias de informação e comunicação (TIC). Trata-se de um setor intensivo em capital humano qualificado, inovação e conhecimento, com elevado potencial de crescimento da produtividade, dos salários e das exportações. É precisamente neste domínio que Portugal revela uma das suas maiores fragilidades estruturais, não tendo conseguido desenvolver uma especialização comparável nem criar um ecossistema tecnológico suficientemente robusto, embora se note melhorias ao nível do investimento neste setor em anos mais recentes e tenhamos exemplos de empresas fortemente dinâmicas nestas áreas, mas infelizmente são ainda a exceção.

Por fim, embora tenham reduzido o peso relativo da agricultura, silvicultura e pesca [A], estes países continuam, ainda assim, bastante mais especializados neste setor do que Portugal. Trata-se de atividades transacionáveis internacionalmente, que contribuem para as exportações, para o equilíbrio da balança de bens e serviços e para a segurança alimentar — dimensões frequentemente negligenciadas no debate económico nacional, mas relevantes para a resiliência económica.

Em suma, a leitura da Figura 1 mostra que os países da Europa de Leste não apostaram no turismo como motor principal do crescimento económico. Apostaram, antes, numa combinação de indústria, serviços produtivos e avançados (TIC), logística e construção. Portugal seguiu o caminho oposto — se é certo que temos vantagens comparadas em termos de atrativos turísticos, desde logo a beleza natural de grande parte do país, que certamente devemos aproveitar, o país não pode ficar dependente de um turismo de massas com baixa produtividade e que pressiona crescentemente as infraestruturas (como habitação) e o ambiente, devendo evoluir em qualificação e valor nessa área, mas sobretudo diversificar a economia apostando seriamente na indústria e serviços (conexos e outros) transacionáveis de elevada produtividade e valor, com forte intensidade em tecnologia e conhecimento, inovando e aproveitando o talento do país, retendo-o.

E é esta diferença de especialização que ajuda a explicar por que razão uns convergem rapidamente com a Europa, enquanto outros permanecem presos a um crescimento baixo, assente sobretudo em volume e não em produtividade.

Figura 1. Especialização setorial de Portugal e dos países de leste em 2000 e em 2022 (diferença do peso de cada setor no VAB face à UE, p.p.)

Fonte: Eurostat e cálculos dos autores. Agricultura, silvicultura e pesca [A]; Indústria [B–E]; Construção [F]; Comércio, transportes, alojamento e restauração [G–I]; Informação e comunicação [J]; Atividades financeiras e seguros [K]; Atividades imobiliárias [L]; Atividades profissionais, científicas e técnicas, administrativas e serviços de apoio [M–N]; Administração pública, defesa; segurança social; educação, saúde e apoio social [O–Q]; Atividades artísticas, recreativas e outros serviços; famílias e organizações extraterritoriais [R–U]. P.p. = pontos percentuais. VAB = Valor Acrescentado Bruto (a preços base).

Centralismo territorial

O segundo bloqueio estrutural ao crescimento económico em Portugal que destaco nesta crónica é o centralismo territorial. Portugal continua a destacar-se pela sua excessiva concentração de recursos, competências e capacidade de decisão no Estado central e na capital (e respetiva área de influência), de onde gere o país da sua torre com ‘binóculos’ de pouca potência, para ilustrar de forma caricatural a situação.

Como ilustra a Figura 2, Portugal é um dos países mais centralizados da UE. A despesa de nível local e regional representa apenas cerca de 6,6% do PIB, um valor muito inferior à média europeia de 11,2%, colocando o país entre aqueles com menor grau de descentralização orçamental.

Figura 2. Despesa de nível local e regional, despesa de nível estadual e despesa descentralizada total nos países da UE (% do PIB), em 2024

Fonte: Eurostat. Notas: o nível estadual/federal (ou quase) só existe na Alemanha, Áustria, Bélgica e Espanha, tratando-se de um nível intermédio entre o do Estado central e os níveis local e regional. No caso de Portugal, a despesa regional abrande apenas a das regiões autónomas da Madeira e dos Açores. Países ordenados pelo total de despesa descentralizada, que corresponde à soma da despesa de nível local e regional com a despesa de nível estadual. Nos países sem nível estadual/federal, como Portugal, o peso da despesa descentralizada coincide com o da despesa local e regional.

Quando se considera o total da despesa descentralizada — que em quatro países inclui um nível estadual ou federal intermédio (Alemanha, Áustria, Bélgica e Espanha), dois deles de grande dimensão —, a diferença é ainda maior. Nesse caso, o valor de Portugal é o mesmo (6,6%) e o da UE passa para 17,1%, mas realça-se sobretudo a comparação com Espanha.

Estima-se que a despesa com as autonomias espanholas ascenda a 10,6% do PIB, o que, somando à despesa de nível inferior (6,1% do PIB) – valor similar ao de Portugal, apenas ligeiramente menor –, eleva o total de despesa descentralizada de Espanha a 16,7% do PIB (despesa de nível estadual e inferior), valor ligeiramente abaixo da UE. Essa é a grande diferença face a Portugal, que nunca criou regiões administrativas no território continental (apenas nas ilhas dos Açores e Madeira), apesar de tal estar constitucionalmente previsto.

Faço notar que Espanha tem um nível de vida consistentemente na mediana da UE ou pouco acima, sempre perto da metade de países mais ricos, onde Portugal deveria estar há muito tempo. Lembro que Portugal entrou ao mesmo tempo que a Espanha na UE — faz já 40 anos, tema que desenvolverei numa próxima crónica —, mas desde o início do milénio tem tido um desempenho bem pior.

E Espanha até nem foi um dos países mais dinâmicos neste primeiro quarto de século, assinalando-se, sobretudo, as economias de leste, várias das quais nos ultrapassaram em nível de vida, mas também a Irlanda, que apesar de já ser um dos países mais ricos da UE, continuou a registar das maiores taxas de crescimento da União mesmo se usarmos como indicador a variação real do Rendimento Nacional Bruto em vez do Produto Interno Bruto, devido ao forte peso das multinacionais (que depois repatriam os lucros), nomeadamente dos EUA, país com o qual tem forte laços económicos.

Este modelo territorial não é apenas uma opção administrativa ou institucional; tem consequências económicas diretas e cumulativas. Um país que concentra a quase totalidade da capacidade de decisão, do investimento público e do poder económico numa única região funciona, na prática, como um avião a tentar voar apenas com um motor. Durante algum tempo, esse motor pode compensar, sobretudo quando beneficia de economias de aglomeração. Contudo, à medida que a pressão se intensifica, surgem inevitavelmente problemas de sobreaquecimento económico: congestionamento urbano, saturação das infraestruturas, aumento dos preços do solo e da habitação, pressão crescente sobre os serviços públicos e perda de eficiência produtiva. Estes custos de congestionamento são crescentes e acabam por anular as vantagens iniciais da concentração, travando o próprio crescimento.

A experiência da região Norte é particularmente reveladora. Apesar de representar cerca de 35% da população nacional, foi responsável por quase metade do contributo da indústria para o crescimento económico entre 2000 e 2022. Sem o Norte, a economia portuguesa teria crescido ainda menos.

O centralismo alimenta, assim, desigualdades territoriais persistentes, reduz a eficiência das políticas públicas e limita a emergência de múltiplos polos de desenvolvimento económico. Ao impedir que várias regiões funcionem como motores complementares de crescimento, o modelo atual fragiliza o desempenho agregado da economia. Em termos simples, menos descentralização significa menos crescimento, mais desigualdade e um risco crescente de bloqueio económico na capital excessivamente congestionada, o que exige mais investimento público apenas para manter o nível de serviço.

No entanto, esta região continua a ser sistematicamente penalizada por um modelo territorial que concentra poder político, investimento público e capacidade estratégica em Lisboa — limitando a sua autonomia para planear, investir e desenvolver estratégias próprias de crescimento sustentado, ajustadas às suas vantagens comparativas —, e por um modelo económico com políticas que incentivam o investimento de menor risco, mas pouco valor acrescentado, como o turismo e imobiliário, em detrimento de atividades com maior potencial de geração de valor, como indústria e serviços avançados, mesmo que mais arriscados.

O resultado é um duplo desperdício económico. Por um lado, Lisboa enfrenta níveis crescentes de congestionamento, que reduzem a qualidade de vida, elevam custos económicos e sociais e diminuem a atratividade de médio prazo. Por outro, vastas áreas do território nacional — incluindo regiões com base industrial relevante e potencial exportador, como o Norte — permanecem subaproveitadas, sem instrumentos adequados para se afirmarem como motores regionais de crescimento, vendo a maior parte do seu talento humano ser absorvido pela área de influência da capital (onde se continua a concentrar o investimento e a despesa pública) em busca de melhores condições de vida ou mesmo a emigrar.

O centralismo alimenta, assim, desigualdades territoriais persistentes, reduz a eficiência das políticas públicas e limita a emergência de múltiplos polos de desenvolvimento económico. Ao impedir que várias regiões funcionem como motores complementares de crescimento, o modelo atual fragiliza o desempenho agregado da economia. Em termos simples, menos descentralização significa menos crescimento, mais desigualdade e um risco crescente de bloqueio económico na capital excessivamente congestionada, o que exige mais investimento público apenas para manter o nível de serviço.

Este modelo é insustentável e irá agravar-se com o elevado investimento previsto com o novo aeroporto e projetos associados – apresentados como uma inevitabilidade sem que tenham sido consideradas ou debatidas alternativas para um desenvolvimento mais sustentável, equilibrado e coeso do país em termos ambientais, sociais, territoriais e intergeracionais, como já alertei em crónicas anteriores. Em particular, realça-se a ausência de cenário sem hub no estudo encomendado à Comissão Técnica Independente sobre o novo aeroporto, que poderia trazer outras cenarizações e opções para o desenvolvimento do país, possivelmente evitando a necessidade de um novo aeroporto face à ampliação do atual — cujo investimento elevado em curso será desperdiçado no atual plano de encerramento após a abertura do novo aeroporto.

Fraco investimento

O terceiro bloqueio estrutural ao crescimento económico em Portugal identificado nesta crónica, relacionado com os dois anteriores, é o fraco investimento do país como um todo, o que adensa a preocupação acima referida com a sua concentração no território.

Como evidencia a Figura 3, a taxa de investimento da economia portuguesa — medida pelo peso da Formação Bruta de Capital Fixo no PIB — caiu de cerca de 28% em 2000 para aproximadamente 20% em 2024, apesar da entrada de fundos europeus sem precedentes ao longo deste período. Em termos simples, Portugal investe hoje substancialmente menos do que investia há duas décadas face ao seu produto, o que constitui um entrave sério e persistente ao crescimento da produtividade e do rendimento per capita.

Esta quebra não resulta de um único fator conjuntural, mas de uma combinação de tendências estruturais, também visíveis na Figura 3 quando se analisa a repartição do investimento por setor institucional.

Em primeiro lugar, verifica-se uma redução muito acentuada do investimento das famílias, que como é sabido se centra na habitação. O peso deste investimento no PIB caiu de forma expressiva, refletindo não apenas alterações demográficas e de rendimentos, mas também constrangimentos no acesso ao crédito, falta de oferta (construiu-se muito menos do que no passado), incerteza e um mercado imobiliário cada vez mais orientado para a procura externa e turística (muita dela de cidadãos com rendimentos muito acima do português médio) em detrimento das necessidades dos residentes — sem esquecer o impacto na habitação da imigração descontrolada e desligada da atividade económica entre 2017 e 2024 devido ao Regime de manifestação de interesse, que já referi em anteriores crónicas, implicando um impacto limitado na atividade económica (muitos entrantes terão ficado na economia paralela), mas com real pressão sobre as infraestruturas e os serviços públicos, gerando algum alarme social que alimentou discursos populistas.

Em segundo lugar, observa-se um colapso prolongado do investimento público. O Estado deixou de investir de forma sistemática em infraestruturas físicas e sociais fundamentais, o que ajuda a explicar a degradação visível de estradas, ferrovia, escolas, hospitais e outros bens públicos essenciais ao funcionamento da economia. Esta retração do investimento público não é neutra do ponto de vista macroeconómico: compromete a eficiência do setor privado, aumenta custos de contexto, reduz a atratividade do território e limita o potencial de crescimento de médio e longo prazo, com a agravante de que o pouco investimento público se concentra numa parte reduzida do território, como já referido.

Em terceiro lugar, o investimento das sociedades não financeiras não desapareceu, mas reduziu-se, como ilustra a Figura 3, e foi claramente reorientado, conforme decorre da análise anterior da especialização de Portugal no contexto europeu.

Figura 3. Repartição do peso do investimento no PIB (%) por setor institucional

Fonte: Eurostat. Notas: a série do Eurostat começa em 2000; *valor em 2002 (o primeiro disponível para a UE no caso das Sociedades e Famílias; entre parêntesis está assinalado o ranking de Portugal na UE; FBCF – Formação Bruta de Capital Fixo.

As empresas passaram a canalizar uma parte crescente do investimento para setores de retorno rápido e risco relativamente baixo, como o turismo e o imobiliário, em detrimento da indústria transformadora, da inovação e das atividades tecnologicamente mais avançadas. Esta escolha é racional do ponto de vista microeconómico face aos incentivos existentes, dadas as condições institucionais e de mercado existentes, mas tem efeitos macroeconómicos perversos: reduz a capacidade de gerar ganhos de produtividade, limita a diversificação da base produtiva e reforça a especialização em setores de baixo valor acrescentado. As políticas públicas facilitaram claramente esse sentido de especialização que limitou o crescimento económico e a progressão do nível de vida. O exemplo óbvio é a alta tributação do capital em Portugal, que naturalmente promove a especialização em atividades pouco intensivas em capital, como o turismo, em detrimento das que são intensivas, como a indústria.

Importa sublinhar que o PRR permitiu atenuar temporariamente a quebra do investimento e financiar alguns projetos relevantes, refletindo-se nalguma recuperação da taxa de investimento entre 2019 e 2024 (ver Figura 3). Contudo, não inverte tendências de fundo (termina em 2026), nem reorienta de forma decisiva o investimento para setores com maior impacto na produtividade, na inovação e no crescimento potencial.

Alias, nunca o conseguiria fazer porque se trata de um programa centralizado, de desenho rápido, que apenas serviu para reproduzir o centralismo existente — a maior parte foi alocada ao Estado (substituindo investimento nacional, mas de forma incompleta, por ter de seguir as prioridades de Bruxelas), não ao setor privado, relembro, quando este foi o verdadeiramente penalizado pela pandemia e deveria ter sido o mais apoiado, na vertente de recuperação do programa, idealizado em Bruxelas. Por isso, o PRR não produziu uma alteração estrutural do perfil do investimento em Portugal e muito menos do perfil de especialização do país.

A conclusão é inequívoca: sem investimento consistente, previsível e bem orientado — público e privado — não há ganhos sustentados de produtividade, nem salários mais elevados. Num contexto de envelhecimento demográfico, forte concorrência internacional e crescente pressão sobre os serviços públicos, a persistência de níveis tão baixos de investimento constitui um dos principais obstáculos à convergência económica de Portugal com a UE.

Conclusão: O problema não é falta de fundos, é falta de modelo

Portugal não enfrenta um problema de escassez de recursos financeiros. Pelo contrário, tem beneficiado, ao longo das últimas décadas, de fluxos muito significativos de fundos europeus, culminando recentemente num PRR de dimensão excecional.

O problema central reside noutro plano: na ausência de um modelo de crescimento coerente, orientado para a produtividade, a diversificação da base produtiva e a criação sustentada de valor acrescentado. Ou seja, um modelo assente na geração endógena de recursos e não na ‘mão estendida’ a pedir mais fundos de Bruxelas, até porque estes se irão reduzir já a partir de 2027, mas os que estarão disponíveis — em montante ainda significativo, como o Portugal 2030 — devem ser muito melhor aproveitados do que no passado, de modo a melhorar o perfil de especialização do país, para elevar a produtividade e o nível de vida.

Portugal especializou-se em setores de baixa produtividade, excessivamente dependentes de mão-de-obra pouco qualificada e com fraca capacidade de gerar salários elevados e inovação. Em simultâneo, manteve um modelo de organização territorial fortemente centralizado, que concentra poder político, investimento público e atividade económica numa única região, gerando custos de congestionamento crescentes e desperdiçando o potencial produtivo de vastas áreas do território. Finalmente, deixou de investir de forma consistente, tanto no setor público como no setor privado, comprometendo a renovação do capital físico, a qualidade das infraestruturas e a capacidade de incorporação tecnológica da economia.

A análise dos três bloqueios aqui discutidos revela um padrão claro. Portugal especializou-se em setores de baixa produtividade, excessivamente dependentes de mão-de-obra pouco qualificada e com fraca capacidade de gerar salários elevados e inovação. Em simultâneo, manteve um modelo de organização territorial fortemente centralizado, que concentra poder político, investimento público e atividade económica numa única região, gerando custos de congestionamento crescentes e desperdiçando o potencial produtivo de vastas áreas do território. Finalmente, deixou de investir de forma consistente, tanto no setor público como no setor privado, comprometendo a renovação do capital físico, a qualidade das infraestruturas e a capacidade de incorporação tecnológica da economia.

Estes bloqueios não atuam de forma isolada; reforçam-se mutuamente. Uma especialização produtiva de baixo valor acrescentado reduz os incentivos ao investimento. Um modelo centralizado limita a emergência de polos regionais capazes de atrair e reter investimento produtivo. Um investimento insuficiente, por sua vez, perpetua baixos níveis de produtividade e consolida uma especialização económica pouco ambiciosa. O resultado é um crescimento anémico, incapaz de transformar aumentos quantitativos de emprego — incluindo os associados à imigração — em ganhos reais de rendimento per capita no contexto europeu.

Sem uma aposta clara e consistente em setores de maior valor acrescentado, sem uma descentralização efetiva que permita o surgimento de vários motores regionais de crescimento e sem um esforço sustentado de investimento público e privado bem orientado, Portugal não conseguirá entrar na metade de países mais ricos da União Europeia num horizonte aceitável — o que deveria ser um desígnio nacional —, mas continuará a ser ultrapassado por países de leste que aderiram muito mais tarde à UE e receberam muito menos apoios , mas parecem tê-los aproveitado muito melhor.

A nossa vizinha Espanha, que entrou ao mesmo tempo que Portugal na UE e descentralizou a administração do território em autonomias, promovendo um desenvolvimento policêntrico, há muito tempo conseguiu estar consistentemente na mediana de nível de vida da UE ou até um pouco acima, o que deveria ter sido o percurso de Portugal.

O diagnóstico é amplamente conhecido e os dados são claros. O que continua a faltar não é informação, nem financiamento (para já), mas sim a coragem política e institucional para romper com um modelo que há demasiado tempo limita o potencial de crescimento do país.

  • Diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Professor Catedrático e sócio fundador do OBEGEF

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