Há consenso sobre a manutenção das taxas de juro nos níveis atuais na reunião desta quinta-feira, mas a geopolítica e o mercado cambial poderão fazer o BCE terminar a pausa com um corte já em março.
- O Banco Central Europeu vai manter as taxas de juro na Zona Euro inalteradas pela quinta vez consecutiva, destacando a sua posição confortável, mas salientado os riscos.
- Os analistas do Deutsche Bank e do BNP Paribas concordam que a reunião de fevereiro não trará mudanças significativas, dada a incerteza macroeconómica e a ausência de novas projeções.
- A valorização do euro gera inquietação no BCE, podendo levar a uma necessidade de ajuste na política monetária, especialmente se a tendência continuar.
Um bom lugar é sempre difícil de deixar, mas às vezes não há escolha. Esta quinta-feira, o Conselho do Banco Central Europeu (BCE) vai mostrar, ao deixar as taxas de juro na Zona Euro inalteradas pela quinta vez seguida, que ainda tem escolha. Mas à volta do bom sítio onde se encontra voam riscos que poderão obrigar a uma mudança de lugar, eventualmente mesmo já em março, e a um renovado interesse na conferência de imprensa de Christine Lagarde.
“Prevemos que o BCE mantenha as taxas de juro inalteradas pela quinta reunião consecutiva,” afirmaram os analistas do Deutsche Bank. Notaram, no entanto que seria errado “caracterizar a reunião de fevereiro como um evento sem importância, pois o ambiente é marcado por elevada incerteza e riscos bilaterais e compreender como o BCE está a avaliar os riscos é importante para avaliar o rumo da política monetária no futuro”.
A opinião sobre a manutenção das taxas de juro ao nível atual – com a taxa de Facilidade Permanente de Depósito nos 2% e as taxas de refinanciamento e de cedência de liquidez a manterem-se nos 2,15% e 2,4%, respetivamente – é consensual. Numa sondagem da Reuters divulgada a 23 de janeiro, todos os 83 economistas consultados apontavam nesse sentido.
Segundo os economistas do francês BNP Paribas é improvável que a reunião do BCE em fevereiro trate da decisão em si. “Sem novas projeções da equipa, com os mercados essencialmente a preverem a manutenção das taxas e poucas alterações no cenário macroeconómico, não vemos motivos para que o Conselho do BCE se afaste da sua atual postura de política [monetária]”.
“Assim, 5 de fevereiro parece destinado a ser uma reunião deliberadamente discreta, com qualquer debate significativo provavelmente adiado para março, quando uma nova ronda de projeções poderá fornecer novos pontos de referência“, adiantaram.
Sublinharam, contudo, que desde dezembro a narrativa macroeconómica tem sido dominada por um renovado aumento das tensões geopolíticas, abrangendo atritos comerciais e desenvolvimentos em torno da Venezuela, Irão e Gronelândia.
Os economistas do BNP Paribas não esperam que estes desenvolvimentos alimentem mecanicamente a distribuição formal de riscos do BCE nesta fase, por várias razões. O impacto macroeconómico de cada um destes choques é incerto, embora, em qualquer caso, não se trate de um choque novo, mas sim da continuação de uma tendência que, até agora, teve uma transmissão limitada nas condições financeiras e na confiança. Além disso, a resiliência da economia da Zona Euro em 2025, apesar da elevada incerteza, reduz o incentivo para reagir de forma prematura.
Neste contexto, manter a pausa provavelmente será visto como preferível. “Dito isto, a incerteza pode abrir a porta para uma inflexão marginalmente dovish [termo em inglês referente a pomba, postura que favorece cortes nos juros] no tom”, vincaram, recordando os comentários recentes de Joachim Nagel, normalmente um ‘falcão’, que descreveu a situação atual como muito delicada e alertou que a incerteza relacionada com as tarifas pode espalhar-se para a política monetária, com um cenário de escalada a ter um impacto negativo.
Março pode ser uma oportunidade para agir?
Michael Krautzberger, diretor de investimento global (CIO) de mercados públicos na Allianz Global Investors (GI), concordou que “com o risco de uma nova guerra comercial entre os EUA e a UE por causa da Gronelândia dissipado, ainda antes de esta começar – acontecimento que teria sido suficientemente disruptivo para desencadear um corte nos juros – não parece haver urgência para o BCE abandonar a sua ‘boa posição'”.
“Esperamos que o BCE reitere que o patamar para tal corte é elevado, mas não intransponível. A reunião de março, com novas previsões, poderá ser uma oportunidade para agir.
O analista da Allianz é, no entanto, mais taxativo em relação à possibilidade de um corte dos juros já no próximo mês. Os riscos de inflação a médio prazo na Zona Euro continuam a inclinar-se em baixa e “isto pode não obrigar o BCE a reduzir as taxas de juro, mas dada a incerteza das políticas dos EUA no que diz respeito às eleições intercalares e ao seu impacto na Europa, um corte preventivo por parte do BCE é possível e justifica-se”.
“Esperamos que o BCE reitere que o patamar para tal corte é elevado, mas não intransponível”, concluiu. “A reunião de março, com novas previsões, poderá ser uma oportunidade para agir”.
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Euro forte está a causar “inquietação”
Nos últimos dias, porém, a evolução do mercado começou a tornar a boa posição do BCE um pouco menos confortável, conforme vincou Carsten Brzeski, global head of macro do banco de investimento neerlandês ING.
“O enfraquecimento do dólar americano e, consequentemente, o fortalecimento do euro causaram alguma inquietação no BCE“, adiantou, recordando que governador do banco central austríaco, Martin Kocher, afirmou que se o euro continuar a valorizar-se, em determinada altura isso poderá criar, naturalmente, uma certa necessidade de reagir em termos de política monetária e o congénere francês, François Villeroy de Galhau, sugeriu que o euro mais forte era um fator-chave na orientação da política monetária nos próximos meses.
Brzeski lembrou ainda que o vice-presidente do BCE, Luis de Guindos, disse no verão passado que uma taxa de câmbio de 1,20 em relação ao dólar era aceitável, mas que níveis acima disso poderiam tornar-se mais complicados. “Bem, estamos nesse nível agora“, frisou o analista.
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Trump e euro forte ameaçam tirar BCE do ‘bom lugar’, mas não para já. Juros ficam congelados (pelo menos) até março
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