Uma empresa sediada no 'paraíso fiscal' do Delaware pagou um prémio de 70% por 16,4% da Benfica SAD. Por detrás do nome estão magnatas americanos que ligam Las Vegas, Pittsburgh e a Casa Branca.
Tim Leiweke passou a vida a construir arenas, como o Staples Center em Los Angeles e o Scotiabank Arena em Toronto. Em julho do ano passado, o Departamento de Justiça dos EUA acusou-o de ter tentado destruir a concorrência num concurso para construir mais uma, desta vez na Universidade do Texas. Em dezembro, Donald Trump perdoou-o e, quatro meses depois, a filha comprava uma fatia da Benfica SAD ao “Rei dos frangos”.
Esta sequência de eventos não é uma coincidência, mas o retrato de uma rede de poder, dinheiro e influência que atravessa o desporto americano de Las Vegas a Pittsburgh, de Silicon Valley a Grand Rapids, e que chegou, de forma silenciosa, mas determinada, ao coração da Luz, onde o Sport Lisboa e Benfica tem o seu quartel-general.
A 23 de abril, a Entrepreneur Equity Partners SPV V, uma sociedade-veículo sediada em Wilmington, no Estado norte-americano do Delaware — o endereço preferido das fortunas americanas quando querem mover capital discretamente –, assinou a compra da posição de 16,38% da Benfica SAD a José António dos Santos e ao Grupo Valouro por um valor entre 10 e 11 euros por ação, segundo a Bloomberg. Na véspera, a cotação era de 6,46 euros. Um prémio de até 70%. Não foi um erro de cálculo destes investidores. Foi uma afirmação.
A face mais visível da Entrepreneur Equity Partners junto do Benfica é Francesca Bodie, detentora de 9,2% do capital do veículo que comprou a participação de José António dos Santos e o Grupo Valouro, conhecido por “Rei dos frangos”. O nome pode não dizer muito à maioria dos portugueses, mas no universo das arenas e do entretenimento desportivo americano, Bodie é uma figura de referência e a sua história familiar é digna de uma série da HBO.
Filha de Tim Leiweke, cofundador e histórico presidente da Oak View Group (OVG), a maior operadora privada de arenas do mundo com mais de 300 espaços geridos globalmente, Bodie construiu a carreira dentro da empresa do pai. Foi ela a responsável pela captação de milhões em capital de investimento para projetos como o Climate Pledge Arena em Seattle, a UBS Arena em Nova Iorque — onde joga a equipe de hóquei no gelo New York Islanders — e um megaprojeto em Las Vegas, avaliado em 10 mil milhões de dólares.
Duas vezes reconhecida pelos “Forty Under 40” do Sports Business Journal (inclusive em 2025), Bodie era vista como a sucessora natural de Leiweke na liderança da empresa. Mas em julho do ano passado tudo isso ficou suspenso.
A relação entre Greg Williams e a família Leiweke/Bodie não começa em Lisboa, tem raízes em negócios americanos envolvendo grandes arena nos EUA.
O Departamento de Justiça dos EUA indiciou Tim Leiweke por conspiração na manipulação de um concurso público para a construção da Moody Center Arena na Universidade do Texas, em Austin. A OVG pagou 15 milhões de dólares em coimas e Leiweke saiu do cargo de CEO.
Em outubro, Bodie saiu da OVG e em dezembro de 2025, o presidente Donald Trump concedeu a Leiweke um perdão total e incondicional, antes sequer de o processo chegar a tribunal. Leiweke declarou “profunda gratidão” ao presidente. Bodie estava, entretanto, a construir o seu próximo passo, que passava por Lisboa.
A par de Bodie, o outro grande bloco da estrutura acionista que chega ao Benfica é controlado por Greg Williams, fundador e CEO da Acrisure, uma empresa de serviços financeiros e seguros de Grand Rapids, do Estado do Michigan, atualmente avaliada em 32 mil milhões de dólares após uma ronda liderada pelo Bain Capital no ano passado com a participação da Apollo e da Fidelity.
Williams investe no Benfica através de três entidades da sua marca privada, a Walnut Hills, mais o seu trust pessoal — no total, mais de 27% do capital da estrutura-veículo. O norte-americano, que desde 2005 foi responsável por mais de 1000 aquisições de negócios ao leme da sua Acrisure, é também conhecido pela sua filantropia. Em dezembro do ano passado, doou 401 milhões de dólares à Michigan State University para o departamento de atletismo, naquela que foi a maior doação individual da história da universidade. É esse o perfil do homem que, em silêncio, se tornou num dos novos acionistas do Benfica.
A relação entre Williams e a família Leiweke/Bodie não começa em Lisboa, tem raízes em negócios americanos. Em 2022, a Acrisure assinou dois acordos de naming rights com projetos da OVG: a Acrisure Arena em Palm Springs, Califórnia, num contrato de 10 anos para o pavilhão do novo clube de hóquei no gelo Coachella Valley Firebirds, e o rebatismo da entrada principal da UBS Arena em Nova Iorque como “Acrisure Great Hall”.
No mesmo ano, Williams transformou o histórico Heinz Field da equipa de futebol americano Pittsburgh Steelers (vencedores do Super Bowl por seis ocasiões) num Acrisure Stadium, num acordo de 15 anos com a família Rooney. Quando Francesca Bodie saiu da OVG, saiu para uma estrutura que inclui o principal parceiro comercial de naming rights da empresa do pai. Nada nesta história é por acaso.
A teia de conexões que chega aos outros americanos do Benfica
A entrada da Entrepreneur Equity Partners SPV V, no capital da SAD encarnada não é a primeira aposta americana no clube da Luz. Em junho do ano passado, a Lenore Sports Partners adquiriu 3,28% da Benfica SAD num leilão das ações anteriormente penhoradas a Luís Filipe Vieira e, poucos dias depois, anunciou ao mercado que já detinha mais de 5% do capital da Benfica SAD.
Este grupo é co-gerido por Jean-Marc Chapus — cofundador da Crescent Capital, gestora de crédito privado com mais de 50 mil milhões de dólares em ativos, formado em Economia e MBA em Harvard — e por Elliot Holton Hayes, também formado em Harvard, fundador da plataforma de aquisição de catálogos musicais Open On Sunday.
Inclui ainda Omar Imtiaz, da Imtiaz Holdings, e Mike Meldman, fundador da Discovery Land Company, que desenvolve mais de 35 resorts de luxo em todo o mundo, incluindo o CostaTerra Golf & Ocean Club em Melides, Portugal, onde investiu 500 milhões de euros.
A ligação mais estrutural entre os dois grupos americanos do Benfica passa pela Silver Lake, a grande firma de private equity de Silicon Valley, que investiu 100 milhões de dólares na OVG de Tim Leiweke em março de 2018, tornando-se numa das suas principais acionistas. E em dezembro de 2024, Egon Durban, co-CEO da Silver Lake, comprou 7,5% dos Las Vegas Raiders da NFL ao lado de Mike Meldman, o mais recente membro da LSP.
Em março deste ano, os proprietários da NFL aprovaram a venda de mais 7% ao mesmo duo, com a franquia avaliada em cerca de 11 mil milhões de dólares. O sócio de Meldman nos Raiders é, portanto, o mesmo fundo que financiou a OVG durante anos e o Benfica tornou-se assim o primeiro ativo europeu onde estas duas redes convergem de forma explícita na mesma tabela de acionistas, sem que nenhuma das partes o tenha declarado publicamente.
Com o Sport Lisboa e Benfica a controlar 64% da SAD e a ser visto como vendedor improvável do controlo, uma OPA total está fora de cena. Nenhum destes investidores veio para mandar, vieram para valorizar.
Existem outras ligações, com episódios ainda mais reveladores. Em 2024, por exemplo, segundo fontes citadas pela imprensa americana, Jean-Marc Chapus e o co-fundador da Crescent, Mark Attanasio — proprietário dos Milwaukee Brewers da MLB desde 2005 e acionista maioritário do clube inglês Norwich City FC — estiveram em conversações avançadas para adquirir até 25% da Benfica SAD, a fatia de José António dos Santos.
O negócio acabou por não se concretizar nessa fase. Meses depois, a Lenore Sports Partners comprava 5,24% em leilão. E agora a Entrepreneur Equity Partners SPV V adquire os restantes 16,38%. O mesmo alvo, caminhos diferentes: a posição que Chapus e Attanasio tentaram comprar integralmente em 2024 ficou repartida entre dois grupos separados, sendo que Chapus faz parte de um deles.
Do lado da Lenore Sports Partners, Elliot Hayes e Omar Imtiaz também não chegam sem currículo europeu. Em 2016, os dois fizeram parte do consórcio que comprou 80% do OGC Nice da Ligue 1 francesa por 23 milhões de euros. Três anos depois, venderam o clube ao empresário britânico Jim Ratcliffe e ao seu grupo INEOS por cerca de 100 milhões de euros, gerando uma mais-valia de quase quatro vezes o investimento inicial.
Ratcliffe, que hoje é dono de 29% do Manchester United e tem participações em vários outros clubes, conhecia bem o que comprava. Hayes e Imtiaz também sabiam o que vendiam, e o que vale um clube europeu nas mãos certas. É esse o modelo mental que trazem para o Benfica.
Para perceber por que razão investidores desta dimensão estão dispostos a pagar um prémio de 70% pelo Benfica, é preciso olhar para dois números em simultâneo.
- O primeiro é o que a Bolsa de Lisboa diz que o clube vale: cerca de 177 milhões de euros de capitalização de mercado implícita na transação à cotação de fecho desta terça-feira, mais 17% face ao valor do dia anterior, antes de ser divulgado o comunicado da venda da posição do “Rei dos frangos” aos novos acionistas americanos.
- O segundo é o que a empresa de análise Football Benchmark estima o que o clube vale: entre 598 milhões e 659 milhões de euros, incluindo a dívida, segundo o ranking mais recente. A diferença é de quase três vezes. É nesse fosso que vivem as oportunidades para quem lê balanços e percebe de futebol europeu.
A assimetria não é nova nem exclusiva do Benfica, é a razão pela qual o capital americano tem entrado em força nos clubes europeus cotados em bolsa, de Roma a Florença, de Nice a Norwich.
O que torna o Benfica particularmente apetecível para este grupo específico de investidores é algo mais concreto: o clube está em pleno processo de requalificação do Estádio da Luz e da zona envolvente, com planos para transformar o complexo num polo de entretenimento, retalho e lazer durante todo o ano, por via do aclamado “Benfica District“.
O Estádio da Luz tem atualmente capacidade para cerca de 68 mil espetadores, contando com um projeto de expansão para 80 mil e, detalhe crucial, tem um dos maiores contratos de naming rights disponíveis no desporto europeu ainda por assinar. Para Francesca Bodie, que passou a última década a vender esses contratos em arenas americanas, isso não é um pormenor. É o negócio principal.
O que compraram, ao preço a que estavam dispostos a pagar, foi exposição a um ativo que acreditam estar subavaliado que conta com mais de 400 mil sócios (nem todos pagantes), uma academia que fabrica regularmente jogadores vendidos a clubes europeus por dezenas de milhões de euros e um projeto de infraestrutura que ainda não chegou ao seu valor real.
A transferência das ações está prevista para até ao final de julho, após aprovação dos acionistas. O verdadeiro trabalho começa a seguir.
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Trump perdoou o pai e a filha investiu forte no Benfica. Os magnatas que chegaram à Luz pela calada da noite
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