Os portugueses usam IA tanto por lazer como no emprego. Ganham tempo e sentem os resultados, mas as empresas ficam para trás sem estratégia e sem grande convicção, alerta a Comissão Europeia.
Um trabalhador europeu que utilize inteligência artificial (IA) no trabalho ganha, em média, quase um dia inteiro por mês. O número é da Comissão Europeia, de acordo com um estudo publicado esta terça-feira, e é a melhor fotografia até hoje de um fenómeno que deixou de estar confinado às startups do Silvertown londrino ou aos laboratórios de San Francisco, nos EUA.
O relatório técnico “AI at work in Europe”, desenvolvido pela Direção-Geral dos Assuntos Económicos e Financeiros da Comissão Europeia, mostra que 34,5% dos empregados na União Europeia já recorrem a ferramentas como o ChatGPT, o Copilot ou o Midjourney para executar tarefas profissionais, e que cada um desses trabalhadores poupa, em média, 7,4 horas por mês ou 11 dias por ano. Em Portugal, esses números crescem para 9,5 horas por mês, cerca de 14 dias por ano.
Considerando que um mês de trabalho tem cerca de 160 horas (com base num período laboral de 40 horas por semana), significa que a IA já está a devolver 4,6% desse tempo — algo que a Comissão Europeia calcula equivaler a um ganho de até 0,76% na produtividade total de fatores da economia europeia. O problema é que esse ganho vem com letra minúscula.
Os portugueses estão entre os que mais beneficiam da tecnologia, com uma média de 9,5 horas de trabalho por mês poupadas, contra 9,7 horas em Espanha e somente 6,2 horas na Alemanha.
Dois em cada cinco trabalhadores que usam IA no emprego admitem ter medo de ser dispensados por causa da própria tecnologia que os está a tornar mais produtivos, e esse receio é mais forte entre os portugueses e espanhóis com salários mais baixos, com menos escolaridade e mais jovens.
“Uma parte significativa dos utilizadores manifesta preocupação com a deslocação profissional induzida pela IA, particularmente entre os inquiridos de menores rendimentos, menos escolarizados e mais jovens”, escreve a Comissão Europeia no documento assinado pela equipa de Christian Gayer, espelhando que a ideia de que quanto mais a IA ajuda, mais o trabalhador sente que está a treinar o seu próprio substituto.
Os dados do estudo feito em 18 Estados-membros, entre os quais Portugal, trazem surpresas que contrariam o senso comum. Os países mais avançados em inovação não são os que reportam os maiores ganhos de tempo e sofrem de “retornos marginais decrescentes”, revela o estudo.
Na Finlândia, Países Baixos e Suécia, apenas 24% dos trabalhadores que usam IA dizem que ela os torna muito mais rápidos. Em Portugal, essa proporção sobe para 36% e em Espanha atinge 45,5%, o valor mais alto entre as grandes economias da União Europeia. Pelo meio, a Alemanha fica-se pelos 38,4%.
Olhando apenas para as horas poupadas, os portugueses estão entre os que mais beneficiam da tecnologia, com uma média de 9,5 horas de trabalho por mês poupada, contra 9,7 horas em Espanha e somente 6,2 horas na Alemanha. O argumento é de que, nos países onde a IA ainda está a ser adotada, está a aliviar trabalho que antes era feito à mão; nos países onde já está em toda a parte, foi levada até aos últimos nichos, onde os ganhos são pequenos.
Contudo, Bruxelas alerta que este padrão pode alargar o fosso entre o norte e o sul da Europa. “As economias com sistemas de inovação mais fortes parecem mais bem posicionadas para integrar a IA em atividades produtivas, amplificando assim os ganhos de produtividade”, lê-se no relatório.
Além disso, os técnicos da Comissão Europeia alertam ainda que para que “esta configuração corre o risco de exacerbar disparidades estruturais, uma vez que os países menos inovadores enfrentam maiores dificuldades em alavancar a IA para o avanço económico, podendo abrandar a sua convergência”.
Assim, para Portugal, o desafio não é pegar nos cinco minutos que se poupam a redigir um e-mail no ChatGPT, mas usá-los para fazer mais ou melhor, e não apenas para ficar a ver vídeos no YouTube.
- 34,5% dos empregados na União Europeia usam IA no trabalho. Sobe para 55,6% nos quadros superiores e profissões qualificadas e cai para 13% nos operadores de máquinas e profissões elementares.
- 7,4 horas é a poupança média mensal na União Europeia. Em Portugal são 9,5 horas e em Espanha 9,7 horas, contra apenas 6,2 horas na Alemanha.
- 91% dos utilizadores profissionais dizem que a IA os torna mais rápidos, e quatro em cada dez a reportarem ganhos significativos.
- 40% dos trabalhadores com IA no emprego temem ser dispensados por causa dela. O receio é maior entre os jovens, menos escolarizados e de baixos rendimentos.
- 0,76% é o ganho estimado pela Comissão Europeia na produtividade total de fatores da União Europeia graças à IA, em linha com os 0,71% calculados por Daron Acemoglu, Prémio Nobel da Economia em 2024, para os EUA (por menos de 0,55% sob condições mais restritivas.
A leitura europeia ganha outra dimensão quando cruzada com o “Artificial Intelligence Index Report 2026” publicado há poucos dias pelo Institute for Human-Centered AI da Universidade de Stanford (Stanford HAI).
O documento da universidade norte-americana mostra que os ganhos de produtividade pelo uso da IA variam entre 14% e 15% no apoio ao cliente, chegam a 26% no desenvolvimento de software e a 50% na produção de marketing, mas diluem-se nas tarefas que exigem mais julgamento humano.
O choque já é visível nos mais jovens. De acordo com a investigação do Institute for Human-Centered AI, o emprego de programadores entre os 22 e os 25 anos nos EUA caiu perto de 20% desde 2024, enquanto o número de engenheiros com mais idade continua a subir.
Os ganhos de produtividade da IA estão a surgir exatamente nas mesmas funções onde o emprego de entrada começa a recuar, um sinal de que os recém-licenciados podem ser os primeiros a sentir o impacto na carteira.
Além disso, os dados apontam para que a procura de talento especializado não esteja a abrandar. A Stanford HAI, em parceria com a Lightcast, revela que Espanha é o quarto mercado do mundo com maior procura de competências de IA nos anúncios de emprego (3,3% do total), atrás apenas de Singapura, Hong Kong e Luxemburgo.
Portugal não aparece no topo, o que coloca o país numa posição dúbia: é dos que mais horas poupa quando usa IA, mas ainda não transformou essa adoção em procura massiva por profissionais qualificados na tecnologia.
Para Stanford, os ganhos de produtividade da IA estão a surgir exatamente nas mesmas funções onde o emprego de entrada começa a recuar, um sinal de que os recém-licenciados podem ser os primeiros a sentir o impacto na carteira.
A mesma investigação da Stanford HAI dá ainda uma pista sobre um obstáculo menos visível, mas igualmente estrutural. A partir de um inquérito a 48.340 pessoas em 47 países por parte da Universidade de Melbourne e a KPMG, a investigação da Stanford HAI conclui que 58% dos trabalhadores já usam IA de forma regular e 53% confiam nela para fins profissionais, mas o mapa é muito desigual.
Índia, China, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Nigéria ultrapassam os 80% em ambos os indicadores, enquanto a maioria dos países europeus e norte-americanos fica nos 50% de uso e entre 40% e 48% de confiança. Já Portugal aparece precisamente nessa metade de baixo do gráfico, abaixo da média global nos dois eixos e um passo atrás de Espanha, o vizinho com quem partilha quase todos os indicadores de produtividade da IA, menos este.
O trabalhador português usa IA, poupa horas e sente os ganhos, mas fá-lo muitas vezes por iniciativa própria, sem formação estruturada, sem regras claras dentro da empresa e sem grande convicção de que a organização sabe como lidar com a tecnologia.
Além disso, quando a mesma base de dados avalia o apoio que as empresas dão aos seus colaboradores em estratégia, literacia e governança de IA, Portugal é citado nominalmente ao lado do Japão e da Coreia do Sul como um dos três países que “reportam os níveis mais baixos de apoio à literacia em IA, a par de menor confiança numa governança responsável da IA”, escreve a Stanford HAI.
Esta realidade ilustra um quadro em que o trabalhador português usa IA, poupa horas e sente os ganhos, mas fá-lo muitas vezes por iniciativa própria, sem formação estruturada, sem regras claras dentro da empresa e sem grande convicção de que a empresa sabe como lidar com a tecnologia. É aí que reside o outro desafio português: não chega adotar IA, é preciso ensinar a usá-la com critério e criar as regras do jogo antes que a confiança se perca.
A mensagem final é ambivalente, e a Comissão Europeia não foge a ela. “O inquérito apresenta um retrato matizado dos benefícios da IA no trabalho, com efeitos sobre a produtividade, a qualidade e a segurança no emprego que variam em função da idade, da profissão, da educação e do contexto nacional”, conclui o relatório de Bruxelas, notando ainda que “embora os trabalhadores menos qualificados e os jovens pareçam ser os que mais beneficiam quando usam IA, são também os que mais frequentemente manifestam receio de deslocação”.
Para Portugal, que agarrou a tecnologia com entusiasmo e está entre os que mais tempo poupa, a conversa deixou de ser sobre se se usa IA, mas sobre o que se faz com o tempo que ela devolve todos os meses.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Um em cada quatro trabalhadores portugueses já usa IA e poupa 9,5 horas por mês
{{ noCommentsLabel }}