A assinalar 40 anos, o Vila Galé prepara uma nova fase de expansão. Jorge e Gonçalo Rebelo de Almeida revelam os planos do grupo, antecipam o cenário de sucessão e olham para o aeroporto de Lisboa.
“Aprendi mais com as coisas mal feitas, como exemplo para não repetir, do que propriamente com coisas bem feitas”, afirma Jorge Rebelo de Almeida, 77 anos, fundador e presidente do grupo português Vila Galé. Em 2026, o grupo assinala quatro décadas de uma história empresarial que começou no Algarve.
Gonçalo Rebelo de Almeida, o seu filho, tinha 12 anos quando, em 1986, o pai fundou a empresa que veio a dar origem aos hotéis Vila Galé, um dos maiores grupos hoteleiros portugueses, presente em Portugal, Espanha, Brasil e Cuba. Para a família, a Praia da Galé, em Albufeira, passou a ser um destino cada vez mais frequente até que, em 1988, abriu o primeiro hotel daquela que viria a tornar-se uma das maiores cadeias hoteleiras nacionais.
“O despertar do bichinho foi o meu pai que nos pôs todos a trabalhar na véspera da abertura do minimercado que existia no hotel a pôr preços nos produtos, ainda era uma coisa muito manual, e, portanto, pôs a família toda a ajudar“, lembra Gonçalo, que está na gestão do grupo desde 1996, em entrevista ao ECO. “Não havia esta visão da dimensão que viemos a atingir 40 anos depois“, acrescenta. Hoje, pai e filho gerem um portefólio de mais de 50 unidades hoteleiras, 12 mil quartos e 5 mil trabalhadores.
Em 1986, começa a desenhar-se para Jorge Rebelo de Almeida uma “mudança profissional profunda”, deixando para trás 13 anos de advocacia. “Eu tirei o curso a trabalhar no Ministério das Obras Públicas. Aprendi sobre obras, sobre projetos, tudo coisas que me vieram a ser extremamente úteis mais tarde”. Aliás, diz, “aprendi mais de Direito com os engenheiros do que com os juristas”.
Aprendi mais de Direito com os engenheiros do que com os juristas
Os últimos anos de Jorge Rebelo de Almeida na advocacia foram passados a coordenar projetos de construção de empreendimentos turísticos no Algarve e foi dessa experiência que nasceu a ideia da Vila Galé: “do desejo de eu aplicar tudo aquilo que tinha aprendido com essas experiências de produzir alguns hotéis e hotéis-apartamentos no Algarve para clientes meus e de achar que também era capaz de fazer um”.
O Vila Galé era um hotel de apartamentos porque, segundo Jorge Rebelo de Almeida, “se não corresse bem, nós vendíamos os apartamentos, ou ainda havia uma outra possibilidade de uma área em que eu também tinha trabalhado, que era o timesharing, o direito real de habitação periódica”. Foi precisamente a esse modelo que o grupo recorreu para financiar parcialmente o primeiro empreendimento. “Tivemos uma operação com grande êxito para vender cerca de 18% desse primeiro empreendimento em timesharing“.
Jorge Rebelo de Almeida diz que procurou desde o início foi evitar níveis excessivos de endividamento. “Nós ficámos com a nossa situação equilibrada a partir do momento em que fizemos essa primeira operação. Isso deu-nos alguma segurança e alguma estabilidade, porque eu acho que o endividamento naturalmente é importante, mas tem limites”.
“E até para negociar com os bancos, é bom nós não termos muito endividamento e não termos uma extrema dependência do sistema financeiro. Nós estamos muito autónomos, mesmo com este crescimento todo, tem sido prática da empresa reinvestir todos os ganhos desde o começo”, defende.
Agora, segundo Jorge Rebelo de Almeida, o grupo prepara-se agora para acelerar novamente. “Estamos numa fase de dar também um grande salto, porque temos neste momento 14 obras em andamento” e “sete ou oito projetos em estudo ou em preparação”, diz, em entrevista ao ECO.
Nós, na verdade, o que temos é um ponto de pressão entre maio e outubro em cinco ou seis pontos de algumas cidades. Na região do Alentejo ou na região centro, os hotéis não chegam sequer a 50% de taxa de ocupação anual.
Aposto no interior e novas aberturas
Há hoje duas linhas estratégicas que Jorge Rebelo de Almeida destaca no desenvolvimento do grupo: recuperar património histórico e investir no interior. É assim que nascem hotéis em Elvas, Beja ou Alter do Chão.
Outra aposta passa pela ligação entre turismo e cultura. “Ligamos sempre muito a cultura ao turismo. O turismo só faz sentido no país se defender a cultura do país, a autenticidade do país. Nós somos tanto mais competitivos em turismo quanto mais diferenciados forem os nossos produtos“.
Atualmente, o grupo já transformou 18 edifícios históricos. “Acreditamos, sinceramente, que é uma forma de valorizar a nossa oferta“, diz Jorge Rebelo de Almeida. E ao longo do próximo ano, planeia abrir três novos conceitos.
Em Miranda do Douro, o escritor José Luís Peixoto escreveu um conto que se passa no hotel. “No meio disto tudo, o nosso amigo querido Leonel Vieira, que é por acaso de Miranda do Douro, disse que se o José Luís faz um conto, ele faz um filme com base nesse conto“, revela Jorge Rebelo de Almeida.
Em Penacova nascerá o Hotel do Humor. “Com a ajuda do Fernando Alvim e do Nuno Artur Silva, que estão, de uma forma muito divertida para todos nós, a gerar ideias para um hotel que fará uma homenagem à história do humor, antes de mais nada ao nacional, mas também em termos internacionais, e ao humor em geral“.
Um terceiro hotel recupera a tradição templária. “Estamos a fazer uma quinta templária na Cardiga. Aliás, este hotel, que está a 150 ou 160 quilómetros de Lisboa, vai-se chamar Vila Galé-Tejo. O Tejo passa à porta deste nosso hotel na Golegã“.
Estas coisas, também lhe vou confessar, dão um prazer muito maior do que estar a fazer um hotel convencional, ou uma coisa repetitiva, ou um conceito qualquer importado
Estes projetos, que envolvem património cultural, têm-se revelados os mais complexos de concretizar. “Neste momento temos cinco projetos no património cultural”, diz o presidente do Vila Galé. Um deles é um palácio no Conde Barão.
“Nós temos mais de 5 mil edifícios históricos em Portugal que mereciam ser recuperados e não temos essa preocupação“, critica. E recupera um exemplo com mais de duas décadas. “Nós recuperámos, há 26 anos, o Arraial Ferreira Neto, o último arraial da pesca do atum que havia no Algarve. Estava numa fase muito adiantada de degradação, fizemos ali um hotel que é uma peça de excelência e fizemos lá o Museu da Pesca do Atum”, diz. Outros casos esbarram com mais obstáculos, como o projeto para o Forte do Rato, também no Algarve. “A atitude das entidades da área da cultura foi dizer ‘ah, não se metam nisso, que é muito complicado’. Não queremos facilitismo, queremos razoabilidade”, diz o fundador do Vila Galé.
Apesar das dificuldades, são precisamente estes projetos que mais entusiasmam Jorge Rebelo de Almeida. “Estas coisas, também lhe vou confessar, dão um prazer muito maior do que estar a fazer um hotel convencional, ou uma coisa repetitiva, ou um conceito qualquer importado.”
A olhar para a inteligência artificial
Do passado para o futuro, Gonçalo Rebelo de Almeida fala sobre a transformação tecnológica que a Inteligência Artificial pode trazer ao sector do turismo. “Temos identificado um conjunto de oportunidades em funções mais administrativas, mais repetitivas, gestão documental, de elaboração de relatórios e, portanto, aí vai haver ganhos significativos”, avalia.
Há, porém, o outro lado. “Temos uma máquina em que 90 e tal por cento das pessoas não trabalham diariamente em frente a um computador e, portanto, são funções muito operacionais que não vão ter grande impacto no seu dia a dia com este salto da inteligência artificial”. Nestes casos, poderá acontecer num próximo salto tecnológico com os robôs humanoides. “Que se calhar também não será assim tão longínquo“, antecipa.
Nem pai nem filho alinham na visão de que Portugal tem turismo a mais. “Há que fazer uma desconcentração no território. E, portanto, evitar que os quatro grandes destinos portugueses – Algarve, Madeira, Lisboa e Porto – fiquem sobrecarregados”, defende Gonçalo Rebelo de Almeida, detalhando: “Se formos rigorosos, são dois ou três pontos em cada um destes destinos. Lisboa tem dois ou três pontos de pressão, o Porto terá dois ou três pontos de pressão, não é a cidade inteira, não é a região metropolitana toda”. A solução, defende, passa por criar novos pontos de atração nas cidades e nas regiões, permitindo uma maior dispersão dos turistas, dentro das próprias regiões e para outros territórios.
O outro problema do turismo percecionado como excessivo é temporal. “O fluxo turístico continua a estar excessivamente concentrado entre maio e outubro. “Nós, na verdade, o que temos é um ponto de pressão entre maio e outubro em cinco ou seis pontos de algumas cidades. Na região do Alentejo ou na região centro, os hotéis não chegam sequer a 50% de taxa de ocupação anual. No Algarve, no período de inverno, os hotéis estão a fazer 10%, 15%, 20% de taxa de ocupação anual”, afirma. “Há muitos períodos do ano onde não há pressão turística nenhuma”.
Uma década de subir e um entrave ao crescimento – o aeroporto
O Vila Galé cresceu ao ritmo do turismo em Portugal. “A última década mudou radicalmente. Portugal teve a capacidade de atrair muitos turistas de valor acrescentado, ou abriu espaço para abrirem muitas unidades de luxo e de 5 estrelas, abriram unidades dessas em muitas regiões que há 10 anos atrás era impensável que tivessem sucesso”, repara Gonçalo Rebelo de Almeida. “Nós tivemos a capacidade de atração dessa pirâmide. Só que a pirâmide é como a pirâmide no mundo. O número de pessoas com poder elevado é muito mais pequeno”.
“Conseguimos captar o crescimento do mercado americano, o crescimento do mercado brasileiro, o mercado canadiano”, nota o administrador do grupo Vila Galé, lembrando que Portugal está entre os 15 maiores destinos turísticos a nível mundial. “Quando se está nesta posição, respondemos um bocadinho a todas as faixas e segmentos”.
Nós estamos muito autónomos, mesmo com este crescimento todo, tem sido prática da empresa reinvestir todos os ganhos desde o começo.
Este crescimento encontra agora um obstáculo, em Lisboa, chamado aeroporto. “No cenário mais otimista de que irá avançar um novo aeroporto e que esse aeroporto estará pronto dentro de 10, 12, 15 anos, estamos a falar de praticamente 10, 12 anos de estagnação. Significa que a região metropolitana e este aeroporto, que não serve só Lisboa, mas ajuda muito ao desenvolvimento do Alentejo ou da região centro, tem um constrangimento“. A matemática é simples, segundo Gonçalo Rebelo de Almeida. “Durante os próximos 10 anos, o número de turistas não irá crescer. Portanto, é com esse número que vamos trabalhar”. Ao mesmo tempo, “vão aparecer novos players no mercado, vai aumentar a oferta de alojamento, de hotéis…”
Fora de Portugal, o Vila Galé está no Brasil, em Espanha e Cuba, onde os seus quatro hotéis, com 1700 quartos, estão encerrados desde abril. “Não havia, efetivamente, condições para eles operarem”, segundo o presidente do conselho de administração. “Sem combustível ou sem energia elétrica, não é possível operar”, acrescenta Gonçalo.
O grupo Vila Galé pretende manter-se como um grupo familiar e, “mais que um grupo familiar, uma empresa nacional, uma empresa portuguesa”. Fechou 2025 com um resultado operacional de 78,3 milhões de euros, mais 10% do que no exercício anterior, segundo o relatório e contas do grupo.

Entre 2023 e 2024, Gonçalo Rebelo de Almeida saiu e regressou ao grupo. Presidente e administrador têm tarefas bem definida. Jorge tem o pelouro de desenvolvimento e novos projetos, Gonçalo dedica mais tempo às áreas de tecnologia, de marketing, de vendas. “Para o salto que vamos dar agora, vamos ter mais necessidade de nos reforçar mais, porque os tempos são cada vez mais exigentes“, diz Jorge Rebelo de Almeida.
O CEO afirma que no grupo Vila Galé “há uma decisão partilhada” e “como em qualquer empresa que tem um CEO, independentemente de ser da família ou não ser da família, ou ser uma empresa cotada em bolsa ou não ser cotada em bolsa, há depois decisões mais estratégicas e o caminho é definido pelo CEO”, refere Jorge Rebelo de Almeida, afirmando que a sucessão “está garantida”. “São um conjunto de pessoas que hoje são muito ligadas à empresa“.
Gonçalo Rebelo de Almeida detalha o modelo de funcionamento do grupo (e da relação de equilíbrio entre o pai e o filho). “Há áreas onde eu dedico mais tempo – tecnologia, marketing, vendas – e este polo do desenvolvimento das obras, dos novos projetos, das renovações está muito com o meu pai, portanto, temos aqui um equilíbrio, mas no fim do dia depois falamos um bocadinho das áreas todas. Elas acabam por ser um sistema também de vasos comunicantes. Para além disso, nós também temos hoje uma estrutura de pessoas e de quadros“.
O caminho para os próximos três, quatro anos está traçado. “Temos muitos projetos, estamos a falar de facilmente dar um salto para 60 e tal hotéis”. Portugal, Espanha e Brasil são cruciais no desenvolvimento do grupo, tal como pretendem reabrir Cuba, e há outros países onde querem estar como Cabo Verde e São Tomé ou a Europa. “A marca vai procurar ter produtos que deem resposta àquilo que os nossos clientes procuram. E nós hoje, obviamente, temos clientes portugueses e brasileiros, que são as nossas duas grandes bases de clientes, que viajam para a Europa”.
Onde pensam estar nas próximas décadas? “Essa pergunta é mais para ele”, diz Jorge Rebelo de Almeida apontando para Gonçalo, 52 anos. “Queremos manter nas próximas décadas o ADN, a essência da Vila Galé: a capacidade de trabalho, procurar inovar, valorizar as pessoas, tudo o que são valores de lealdade, de transparência, de honestidade. Isso tem que perdurar, faz parte daquilo que é o esqueleto do Vila Galé”.
Veja aqui a entrevista:
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Vila Galé: “Estamos numa fase de dar um grande salto” e chegar aos 60 hotéis antes dos 50 anos
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