Uma tragédia familiar marcou a infância de Virgílio Bento, que viria a fundar um dos poucos unicórnios portugueses. À frente da Sword Health, quer agora transformar a fisioterapia com recurso à IA.
- Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal
Trabalhador incansável, visionário, ambicioso e sem papas na língua. Estes são algumas das características apontadas ao fundador da Sword Health, à frente de um unicórnio português que cruza saúde e tecnologia.
Natural da Guarda, a cidade mais alta de Portugal e a pouco mais de 40 quilómetros da fronteira com Espanha, Virgílio Bento é pai de dois filhos e encontrou no desporto uma forma de equilibrar a exigência do dia a dia. Fora do escritório, dedica parte do tempo ao jiu-jitsu e ao ginásio. Acredita, porém, que foi nas origens, na Guarda, que começou a construir o caminho para o sucesso quando ainda era uma criança. “Saía de casa às quatro da tarde e chegava às 22h, sem saberem por onde andava. A Guarda deu-me muita liberdade”, sublinhou Virgílio Bento, em entrevista ao programa Primeira Pessoa, da RTP, em maio passado, referindo-se ao espaço que teve para pensar de forma diferente e desenvolver ideias inovadoras.
Mas foi uma tragédia familiar, ainda em criança, que acabaria por ajudar a definir o percurso daquele que viria a fundar um dos poucos unicórnios portugueses.
Virgílio Bento nasceu em 1984 e é o CEO da Sword Health, empresa fundada em Portugal e com sede no Porto, especializada em soluções de inteligência artificial aplicadas à fisioterapia. A tecnologia da empresa permite que os doentes realizem programas de reabilitação em casa, com acompanhamento remoto e apoio de sistemas de IA, reduzindo a necessidade de deslocações presenciais. Entre as condições abrangidas estão dores musculoesqueléticas, lesões e recuperações pós-operatórias.
Filho de pais professores, Virgílio Bento licenciou-se em Engenharia Eletrotécnica e concluiu o doutoramento na Universidade de Aveiro, onde terminou o percurso académico em 2012. A escolha da cidade não foi por acaso: queria estudar no litoral, mas sem ficar demasiado longe da Guarda, para poder regressar a casa aos fins de semana.
A cerca de 150 quilómetros de distância, Aveiro permitia esse equilíbrio. Os pais ofereceram-lhe um automóvel para facilitar as deslocações, mas o plano durou pouco. Em entrevista ao programa da RTP, Virgílio Bento recordou que destruiu o carro apenas três meses depois de se mudar para Aveiro. “Vinha de Coimbra demasiado rápido para Aveiro. Não podia faltar a uma avaliação e tive um acidente. Felizmente, não me aconteceu nada”, contou. A partir daí, passou a fazer as viagens de autocarro.
Concluído o percurso académico, Vírgilio Bento iniciou a carreira profissional como docente no instituto Superior da Maia (ISMAI). Antes de criar a Sword Health em 2015, dedicou-se à investigação e à aplicação da tecnologia à área da saúde, um interesse que tem raízes numa experiência profundamente pessoal.
É preciso recuar aos anos 90 para perceber a origem dessa motivação. Virgílio Bento tinha apenas oito anos quando o irmão mais velho, Pedro, então com dez, foi atropelado numa passadeira, na Guarda. O acidente deixou-o em coma e obrigou à sua transferência para o Hospital da Universidade de Coimbra, onde permaneceu cerca de seis meses. Como recordou no podcast Geração 80, do Expresso, a primeira fase foi marcada pela incerteza sobre a sobrevivência do irmão; nos meses seguintes, a dúvida era se conseguiria recuperar ou se ficaria em estado vegetativo.
Após deixar Coimbra, Pedro seguiu para o Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, onde iniciou um longo processo de recuperação intensiva. Mais tarde regressou à Guarda, e foi aí que Virgílio Bento começou a perceber as dificuldades que as famílias enfrentam no acesso continuado aos cuidados de reabilitação. A recuperação prolongou-se durante cerca de 12 anos e, segundo o empresário, só foi possível graças à persistência dos pais, que nunca desistiram de procurar os melhores tratamentos. Atualmente, Pedro leva uma vida independente e socialmente ativa, um percurso que o fundador da Sword Health atribui, em grande parte, à determinação da família.
2019, o ano da mudança
Ainda antes de existir juridicamente, a ideia da Sword começou a ganhar forma em 2008, na Universidade de Aveiro, e teve por base um projeto de investigação que deu origem ao doutoramento de Bento, que viria a criar a empresa juntamente com Márcio Colunas. Ainda antes da criação da empresa, Virgílio Bento levou o projeto a um programa de aceleração nos Estados Unidos, que viria mais tarde até a dar origem a um processo judicial que ainda não está resolvido.
O caminho até Silicon Valley não foi imediato. Nos primeiros anos, a Sword Health cresceu com recursos limitados e enfrentou aquilo pode ser descrito como uma ‘travessia do deserto’. Entre os primeiros investimentos captados estiveram rondas de 150 mil, 250 mil e 400 mil euros, valores modestos que permitiram contudo à empresa sobreviver e continuar a desenvolver a tecnologia numa fase em que ainda era preciso convencer o mercado de uma ideia pouco comum: usar tecnologia e a inteligência artificial para transformar a forma como a fisioterapia era realizada.
A mudança de dimensão aconteceu em 2019, quando a empresa conseguiu entrar no ecossistema de Silicon Valley através do investimento da Khosla Ventures. A entrada daquele que é um dos mais conhecidos fundos de capital de risco norte-americanos marcou uma nova fase no percurso da Sword Health e abriu a porta a novas rondas de financiamento.
Após várias tentativas falhadas junto de investidores portugueses e europeus, Virgílio Bento decidiu contactar diretamente o investidor Vinod Khosla por email. Segundo o fundador da health tech, duas horas depois recebeu uma resposta para agendar uma chamada, um contacto que acabaria por abrir a porta ao investimento da Khosla Ventures.
Ao longo dos anos seguintes, a empresa começou a atrair alguns dos principais investidores internacionais. A entrada da Khosla Ventures abriu a porta ao ecossistema de Silicon Valley, seguindo-se novas rondas de financiamento com fundos como a General Catalyst, que participou e liderou a expansão da empresa em fases posteriores, incluindo a Série C.
O momento decisivo chegou em novembro de 2021, quando a Sword Health fechou uma ronda Série D foi liderada pela Sapphire Ventures com a participação dos novos investidores Sozo Ventures, Willoughby Capital, ADQ, LocalGlobe, e ainda de grandes investidores como a General Catalyst, Khosla Ventures, Founders Fund, Bond, Transformation Capital e Green Innovations. A empresa angariou naquele momento 163 milhões de dólares na ronda da Série D e 26 milhões numa ronda secundária com os novos investidores, o que lhe garantiu o estatuto de unicórnio com uma valorização acima de mil milhões de dólares.
A empresa portuguesa passou assim a integrar um grupo restrito de startups nacionais que conseguiram atingir esse patamar. Entre os investidores que acompanharam o percurso da empresa estão ainda fundos como a portuguesa Faber Ventures, que apostou numa fase inicial no projeto liderado por Virgílio Bento.
Para Bento, mais do que a capacidade de criar uma tecnologia inovadora, o fator decisivo para o crescimento da empresa foi a persistência. “A diferença do nosso sucesso foi, não tanto o que fizemos, mas o facto de nunca termos desistido”, indicou o fundador da Sword em abril ao Observador. Na visão do empreendedor, os projetos verdadeiramente inovadores enfrentam uma dificuldade dupla: criar algo que ainda não existe e convencer o mundo a aceitar essa mudança.
Apesar do reconhecimento alcançado, Virgílio Bento tem uma ambição muito maior do que a valorização financeira da empresa. O objetivo que traçou para o futuro é construir a maior empresa portuguesa de sempre, com uma avaliação superior a 100 mil milhões de dólares, e cumprir uma missão que resume em poucas palavras: “libertar dois mil milhões de pessoas da dor”, atirou no podcast Geração 80.
Atualmente, a Sword Health conta com cerca de 1.000 trabalhadores e tem como principal mercado os Estados Unidos que representa, segundo o empreendedor, 99,7% da receita da empresa. O modelo de negócio é sobretudo empresarial, com a tecnologia a ser disponibilizada através de contratos com outras organizações. Entre os clientes está a Pepsi. Além dos EUA, a empresa tem presença noutros mercados como Austrália, Canadá, Reino Unido, Porto Rico e Irlanda.
Fisioterapia remota também já se estica em Portugal
Mas o crescimento da Sword Health não se faz apenas além-fronteiras. Em junho, Virgílio Bento conseguiu levar o unicórnio português a assinar uma parceria com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) para disponibilizar fisioterapia remota com recurso a IA em todos os hospitais e centros de saúde públicos, sem custos para os utentes. Segundo a empresa, a tecnologia permite reduzir em até 97% o tempo de espera para o início dos tratamentos e gerar uma poupança de cerca de 45% para o Estado face ao modelo convencional.
Antes disso, no ano passado, uma falsa partida na colaboração com entidades públicas em Portugal: o projeto de ajudar com o atendimento automático no INEM esbarrou, nas suas palavras, num “sistema obsoleto” e que era uma “bomba-relógio”. No final de 2025, atinge um marco importante, ao ganhar o contrato para a gestão tecnológica da linha de saúde da Grécia.
A aposta em Portugal vai, contudo, muito além desta parceria. No final de 2025, a Sword Health anunciou um investimento de 250 milhões de euros no país até 2028, com o objetivo de criar um hub mundial de inovação em inteligência artificial aplicada à saúde. O plano prevê aumentar a equipa para mais de 900 trabalhadores em Portugal, dos quais cerca de 700 serão engenheiros.
O investimento assenta em três pilares — reforço dos recursos humanos qualificados, expansão da infraestrutura tecnológica e aposta em investigação e desenvolvimento, sobretudo no treino de modelos de IA. A estratégia acompanha o crescimento acelerado da empresa, que sublinha que já tratou mais de 600 mil pacientes em três continentes e realizou mais de nove milhões de sessões de fisioterapia apoiadas por inteligência artificial, esperando quadruplicar o volume de negócios até 2027.
Aos 42 anos, Virgílio Bento continua a olhar mais para o caminho do que para a meta final. Apesar das dezenas de reuniões que preenchem os seus dias e da ambição de transformar a Sword Health numa das maiores empresas portuguesas de sempre, o empreendedor dizia no podcast do Expresso não fazer planos para os próximos 40 anos — nem sequer para os próximos cinco.
Entre os objetivos que ainda quer cumprir estão alguns longe dos indicadores de crescimento de uma empresa tecnológica: conquistar o cinturão negro de jiu-jitsu, ver os filhos crescerem felizes e, um dia, poder sentar-se no jardim e olhar para trás para perceber a dimensão daquilo que ajudou a construir.
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Virgílio Bento, do drama familiar ao unicórnio português que quer revolucionar a fisioterapia
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