O líder do Sistema de Informações de Portugal está a modernizar a instituição e a prepará-la para os novos desafios, depois de uma carreira pelo mundo fora, na diplomacia.
- Retrato é uma rubrica do ECO na qual, durante o mês de agosto, é publicado diariamente o perfil de uma personalidade que se distinguiu no último ano, em Portugal
No final de 2024, numa audição parlamentar prévia à sua confirmação como novo secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), Vítor Sereno disse ao que vinha, e que tem confirmado desde então: “Comprometo-me a transformar o SIRP numa estrutura moderna, eficaz e íntegra, à altura dos desafios globais do século XXI e das expectativas dos portugueses. E eu vou, caso seja nomeado, meter sem dúvidas mãos à obra”.
Mas a história deste homem discreto e determinado começa há 56 anos, nas margens do Mondego.
“Sou um conimbricense típico, nascido e criado nesta cidade. Nasci no Instituto Maternal Bissaya e Barreto e vivi até aos 23 anos no Bairro Norton de Matos, onde os meus pais ainda vivem. Cresci a jogar futebol no ringue do bairro e dei os primeiros passos no Café Samambaia, onde ia religiosamente com o meu pai comprar os jornais da época. Já com o diploma de direito nas mãos, da nossa Alta e Sofia Universidade, entrei primeiro na KPMG Portugal e mais tarde no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Costumo dizer, meio a brincar, que o meu primeiro posto no estrangeiro foi em Lisboa, em 1994. Longe da família, do aconchego da minha casa, dos velhos amigos, aprendendo a ‘virar-me’ sozinho”.
É desta forma que Vítor Sereno, que não respondeu às questões do ECO para este trabalho, volta às origens, na sua primeira crónica no Diário As Beiras, que assinaria durante vários anos, numa rubrica sob o nome de “Do mundo para Coimbra”.
Licenciou-se em 1993 na história Faculdade de Direito de Coimbra, na vertente jurídico-económica. Logo de seguida chegou a frequentar a pós-graduação em Estudos Europeus, na mesma instituição, um sinal do que viria anos mais tarde.
Sendo o Direito uma escolha natural, começou a trabalhar pela advocacia, no escritório Castanheira Neves. Ainda assim, não era ainda altura de deixar Coimbra, uma vez que essa era uma firma reconhecida e sediada na cidade dos estudantes. Nessa altura, aos 24 anos, tem o primeiro contacto com instituições públicas, nomeadamente como consultor da região do turismo do centro e como adjunto do delegado regional da cultura do centro da Secretaria de Estado da Cultura.
Mas o caminho profissional no setor privado estava prestes a acabar, apesar de praticamente só estar a começar. Em 1995 entra para a KPMG, ficando na empresa nos dois anos seguintes, enquanto Consultor Fiscal Sénior. São os tempos de Lisboa, a tal primeira experiência “no estrangeiro”, o primeiro ponto num mapa que conheceria coordenadas muito diferentes.
Ainda antes de sair da KPMG, já estava em busca do caminho que o viria a marcar na segunda etapa da sua vida profissional: em junho de 1997 passa no concurso de admissão aos lugares de adido de embaixada, aberto pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Estava, assim, habilitado para entrar na vida diplomática.
A diplomacia pelo mundo
De fevereiro de 1998 a julho de 2000 está nos Negócios Estrangeiros, mas a grande primeira missão internacional veio a seguir: é designado Primeiro Secretário e Encarregado da Secção Consular em Bissau, a capital da Guiné Bissau. É um período que o marcou particularmente, até porque representa o início de uma carreira diplomática internacional in loco.
Mais uma vez, na sua crónica quinzenal no jornal coimbrão, reflete sobre esse momento, falando da Guiné Bissau como “país irmão, meu primeiro posto e amor para toda a vida”.
“Recordo-me como se fosse ontem. Chovia intensamente quando o Airbus abriu as portas e a pista foi invadida por dezenas de transeuntes, que procuravam abraçar familiares e receber jornais lusos. Cá fora, estava o meu colega Pedro Carneiro, que me transportou até ao complexo da embaixada. Durante todo o caminho só pensava ‘what am I doing here’…”, escreveu.
Esse primeiro embate, de uma Bissau caótica, notoriamente pobre e com um carro de combate destruído no meio da rua, deu lugar progressivamente a uma experiência quase mística: “Tinha chegado a África. A este canto de um continente onde perdemos a noção de espaço e de posse”. Fora de Bissau, a descoberta de um país que enfeitiça: “Atravesso o rio numa jangada, prolongando estes momentos sem fim…impossível reproduzir tudo isto, nas fotografias que tentei tirar falta aquele ar que respirei, a sensação esmagadora de espaço, o suor escorrendo nas costas, a sede incrível sem água para beber por muitos quilómetros. Apesar de distante, sinto-me em casa”.
Depois de mais de dois anos em Bissau, onde chegou a estar debaixo de fogo aquando do golpe de Estado para derrubar o Presidente Kumba Ialá, muda de continente para a América do Sul, aterrando na embaixada portuguesa em Buenos Aires, com jurisdição também sobre a Bolívia e o Paraguai. Dos tempos na capital do tango deixou várias reflexões, uma delas sobre as características em comum com os portugueses: “os portugueses e os argentinos tratam-se naturalmente por tu. São gente boa, amigos do seu amigo, generosos e que vivem, alternadamente, entre estados de euforia e depressão. Ou porque são os melhores do mundo ou porque são os piores (e tudo é mau). Naturalmente”.
Mais de três anos depois, regressa à Europa enquanto Cônsul-Geral de Portugal em Estugarda, na Alemanha, tendo desempenhado também funções em Roterdão, nos Países Baixos, aquando de uma crise de trabalhadores portugueses explorados nesse país. Em 2007, está em missão em Lisboa por vários meses, no papel de coordenador da estrutura de missão para a presidência portuguesa da União Europeia. O verdadeiro regresso a casa e a primeira experiência dentro de um Governo dá-se em fevereiro de 2008, quando aceita o convite do Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, António Braga, para ser seu Chefe de Gabinete. Era o primeiro Governo de José Sócrates, com maioria absoluta. Fica dois anos no cargo e, quando Sócrates volta a ganhar eleições mas sem maioria, Vítor Sereno transita para Chefe de Gabinete do Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Aquando da entrada da troika em Portugal, muda o Governo e a cor política de quem o lidera, mas Vítor Sereno continua em funções públicas, agora ainda mais perto do centro do poder político: torna-se chefe de gabinete de Miguel Relvas, ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, no primeiro Governo AD, liderado por Pedro Passos Coelho. Não tem qualquer filiação partidária.
Mais uma vez, fica dois anos neste cargo, de 2011 a 2013, até que responde novamente ao apelo do mundo. Parte para o oriente, agora com um cargo de responsabilidade superior: torna-se Cônsul-Geral de Portugal em Macau e Hong-Kong, com a categoria de Chefe de Missão, o diplomata mais jovem a desempenhar essa função, aos 43 anos. Fica nessa posição até 2018, apaixonando-se pela cultura asiática, que teria ocasião de explorar a fundo alguns anos mais tarde.
Antes disso, em 2012, fez o mestrado em comunicação empresarial no Instituto Superior de Comunicação Empresarial, onde chegou a dar aulas.
Em 2018, é-lhe atribuído o primeiro cargo enquanto embaixador. Neste caso, um regresso a África, continente que tanto o havia impressionado, mas com possibilidade de explorar mais países. É embaixador nacional no Senegal, e também embaixador não residente na Costa do Marfim, Guiné, Burkina Faso, Gâmbia, Libéria e Serra Leoa.
São anos de conhecimento desses países e de grandes viagens, em contacto com as comunidades portuguesas mas não só. E, em Dakar, Vítor Sereno organiza o Torneio José Mourinho, apoiado pelo treinador português, evento de futebol entre as equipas das várias embaixadas na capital senegalesa. A final foi da equipa portuguesa contra a Bélgica, com esta última a vencer por 4-3, já no prolongamento. “Foi um sábado agridoce. Quem me conhece sabe que não gosto de perder – no campo, no FIFA 21, em lado algum… – mas a aguardada conclusão deste inédito exercício de diplomacia desportiva em África (já o havia feito na Ásia) após um ano de suspensões e cancelamentos covidianos, mostra que é possível fazer a diferença e marcar golos também no campo diplomático”, escreveu.
É ainda em Dakar que começa a usar a expressão #portugalmodernoecompetitivo, procurando mostrar como Portugal e as empresas portuguesas estão na vanguarda. Este é um conceito que continuou a desenvolver e a defender, como um modelo em várias áreas. Graças ao grande aumento das trocas comerciais entre Portugal e o Senegal, e pelo seu papel no fomento dessas relações, é distinguido pela Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa como o “diplomata económico do ano”.
Em janeiro de 2022 volta a Lisboa, já com o destino marcado para a missão seguinte. A partir de março torna-se o embaixador português no Japão.
Na sua crónica quinzenal, bem como na sua página de Linkedin que foi atualizando com grande frequência, foi refletindo sobre as relações entre os dois países, ligados há séculos. Nesse país, foi descobrindo, e refletindo por escrito, a cultura local, da gastronomia ao legado dos samurais, passando pela tecnologia, pelo Manga e até pelo sumo, chegando a assistir a combates.
Um ponto alto foi a visita ao local onde os portugueses (e os europeus) pela primeira vez chegaram ao Japão, no dia do 480º aniversário desse encontro. Nas palavras de Vítor Sereno: “Talvez tudo tenha começado por um acaso. Por uma tempestade, a 25 de agosto de 1543, que levou uma nau com marinheiros portugueses a desviar-se da rota inicial e a naufragar em Cabo Kadokura, na ilha de Tanegashima, extremo sul do Japão. O certo é que, três deles, foram os primeiros ocidentais a ter contacto com este país. Eles e as suas espingardas, mudaram, para sempre, a história do Japão. Esta semana estive precisamente em Cabo Kadokura e prestei-lhes uma singela homenagem. Aos nossos antepassados, heróis do mar, valorosos aventureiros!”, escreveu, no Linkedin.

No Japão, Sereno apostou nas relações económicas mas deu também atenção ao intercâmbio cultural. A nova casa da embaixada em Tóquio tem o piso térreo ocupado com obras de arte e símbolos do Portugal contemporâneo, como uma mostra permanente.
Em muitos destes momentos, contou com a companhia da esposa, numa vida com a casa às costas. Vítor Sereno abordou este tema numa das suas crónicas, a que deu o título de “Os cônjuges dos diplomatas: heróis anónimos”. “Um dos maiores sacrifícios que enfrentam é a renúncia à sua vida profissional para acompanhar os parceiros em serviço do Estado. Muitas vezes, deixam para trás, a cada três ou quatro anos, carreiras bem-sucedidas, amigos e família, reinventando-se numa nova cultura e idioma. Essa disposição é admirável. Na esmagadora maioria dos casos, fazem-no de forma voluntária e sem remuneração”, pode ler-se. No final do texto, menciona diretamente o caso que melhor conhece: “Esta crónica é inteiramente dedicada à minha mulher, Andrea Direito, e a todos os cônjuges/companheiro(a)s dos diplomatas portugueses”. Atualmente, Andrea Direito é consultora da Câmara Municipal de Lisboa, para as áreas de diplomacia e protocolo. Juntos, têm um filho.
O desafio dos serviços de informações
Este outro ciclo de dois anos terminou com um convite direto de Luís Montenegro, para uma missão diferente e ainda mais essencial: o Primeiro-ministro precisava dele para ocupar o mais alto lugar nas “Secretas” portuguesas, como Secretário-Geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), que tem lá dentro o SIS e o SIED. A missão era dar um novo ímpeto à instituição, num momento em que as ameaças se multiplicam e adquirem novas formas.
A preparação militar e civil tem vindo e deve continuar a ser um tema de reflexão prioritária. Temos de encarar – sem alarmismo, mas com seriedade – a necessidade de nos prepararmos para crises várias. Ou até mesmo para cenários – por hipotéticos que por vezes pareçam – de eventuais conflitos alargados na Europa
Acabado de chegar ao cargo, logo em abril de 2025, numa conferência do ECO dedicada ao Relatório Draghi, Sereno explicava o panorama. “A preparação militar e civil tem vindo e deve continuar a ser um tema de reflexão prioritária. Temos de encarar – sem alarmismo, mas com seriedade – a necessidade de nos prepararmos para crises várias. Ou até mesmo para cenários – por hipotéticos que por vezes pareçam – de eventuais conflitos alargados na Europa”, afirmou então, lembrando que há desafios paralelos que mostram como é necessário reinvestir na defesa e segurança, entre os quais a intensificação de “múltiplos” focos de ameaça digital (sabotagem, ciberataques e/ou desinformação).
Entre as várias medidas tomadas, destaca-se um movimento, há muito pedido, de rejuvenescimento dos quadros de pessoal, tendo recebido mais de dez mil candidaturas, num inédito processo que envolveu comunicação pública sobre o processo de contratação.
A vida de Vítor Sereno em Lisboa é muito diferente da que levou até aqui. Se há o conforto de estar no seu país, a sensibilidade do seu cargo significa que tem segurança reforçada e a consequente limitação de movimentos. Não abundam as oportunidades para andar de mota – “a sensação de liberdade na minha Ducati é incomparável” – contou num inquérito de verão do Diário de Notícias, em 2024, no qual faz várias outras revelações: é portista ferrenho, perde a cabeça com a doçaria tradicional portuguesa (destacando acima de tudo o arroz doce feito pela sogra) e aplaude o cozido à portuguesa mas também o sushi. Ainda assim, continua a montar-se na Ducati sempre que pode e também tenta, quando possível, ver ao vivo os jogos do Futebol Clube do Porto.
Nesse mesmo trabalho no DN, deixa cair como se chamaria um eventual livro sobre a sua vida: “A Jornada de Um Diplomata Motoqueiro. Uma narrativa das minhas aventuras e desafios ao longo da carreira diplomática, passando por quatro continentes, procurando construir pontes e derrubar barreiras culturais”. Anos antes, partilhou no Facebook uma lista de livros que o haviam marcado, de autores como Sun Tzu, Pablo Neruda, Eça de Queirós, Jonathan Swift ou Sophia de Mello Breyner Andresen. No meio das recomendações, sugere ainda a coleção de Os Cinco, da autora britânica Enid Blyton: “aprendi a ler e a gostar de ler com esta coleção”, confidencia.
Está de corpo e alma no seu trabalho à frente do SIRP mas dizem várias pessoas que não surpreenderia se viesse mais tarde a enveredar pela política, dado o seu pensamento estruturado e verbalizado acerca do rumo que Portugal deve seguir.
Por agora, este “diplomata motoqueiro” tem outra missão.

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Vítor Sereno, o diplomata de Ducati que quer mudar as Secretas
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