Mais de 20 instalações do maior operador de comércio eletrónico da Rússia foram atacadas nas últimas semanas. Danos começam nos armazéns, mas atingem milhares de pequenas empresas e chegam aos bancos.
Um armazém incendeia-se em Samara, a sudeste da Rússia europeia, e toda a mercadoria armazenada é destruída. Outro, com 100 mil metros quadrados, arde na região de Vladimir, a leste de Moscovo. Em Yekaterinburg, a 1.400 quilómetros também da capital russa, drones atingem mais um centro logístico. Dias depois, novos incêndios deflagram em instalações na região de Voronezh, que dista apenas 581 quilómetros do centro do poder do país. Desde 18 de julho, a Ucrânia tem atacado centros logísticos da Wildberries, a maior plataforma de comércio eletrónico da Rússia, conhecida vulgarmente como a “Amazon russa”, e está a colocar à prova a economia de Putin.
Em pouco mais de três semanas, pelo menos 20 instalações foram atingidas, provocando perdas superiores a mil milhões de dólares. Uma análise da Reuters a imagens de satélite estimava, a 7 de agosto, que pelo menos 1,18 milhões de metros quadrados de espaço de armazenamento tinham sido danificados ou destruídos, o correspondente a mais de um quinto da capacidade da empresa. Porém, a estimativa é preliminar, pelo que o valor pode subir.
Contudo, os prejuízos não se limitam aos edifícios atingidos. Os armazéns da Wildberries albergam o stock de milhares de empresas que utilizam a plataforma para vender produtos. Com os ataques, desapareceu mercadoria, afetando as vendas sobretudo de pequenas e médias empresas e aumentando a pressão sobre a tesouraria, levando mesmo o Banco Central da Rússia a pronunciar-se sobre o tema a fim de evitar que os efeitos se propaguem pela economia.
A Wildberries é hoje o maior operador de comércio eletrónico russo, tendo movimentado cerca de 75 mil milhões de dólares em mercadorias em 2025, o equivalente a aproximadamente 3% do PIB russo.
A Wildberries é hoje o maior operador de comércio eletrónico russo, tendo movimentado cerca de 75 mil milhões de dólares em mercadorias em 2025, o equivalente a aproximadamente 3% do PIB russo. Um salto gigante desde que, em 2004, Tatyana Kim (então Tatyana Bakalchuk) e o marido, Vladislav Bakalchuk, começaram a vender roupa pela Internet a partir do apartamento onde viviam nos arredores de Moscovo.
Aquela que é hoje a mulher mais rica do país, com uma fortuna avaliada em cerca de sete mil milhões de euros (nas contas da Forbes), era professora de inglês antes de se tornar empresária, aproveitando o crescimento das vendas online na década seguinte para transformar o negócio familiar.
Com o boom do comércio eletrónico, a empresa rapidamente deixou de ser apenas uma loja e tornou-se um marketplace através do qual mais de um milhão de vendedores comercializam os seus produtos, através de uma rede pesada de armazéns, transportes, pagamentos e pontos de recolha.
Segundo a empresa, são processadas 20 milhões de encomendas por dia, sendo cerca de 95% levantadas em pontos de recolha espalhados pela Rússia e por países vizinhos, segundo dados citados pela Reuters. E só em 2025, as vendas totalizaram 147 milhões de dólares, uma subida de 28% face ao ano anterior.
Nas palavras do Kremlin, a Wildberries está no centro da “economia de plataformas”. Em conjunto com a Ozon e operadores de menor dimensão, estas plataformas movimentam bens e serviços num valor equivalente a cerca de 8,5% do Produto Interno Bruto (PIB) russo e empregam, direta ou indiretamente, cerca de quatro milhões de postos de trabalho, mais de 5% da força de trabalho do país, segundo números oficiais.
Nas palavras do Kremlin, a Wildberries está no centro da “economia de plataformas”. Em conjunto com a Ozon e operadores de menor dimensão, estas plataformas movimentam bens e serviços num valor equivalente a cerca de 8,5% do PIB russo e sustentam cerca de quatro milhões de postos de trabalho.
Este ano, a empresa reforçou ainda mais a sua posição no setor, ao anunciar uma aliança com o VTB, o segundo maior banco da Rússia, que adquiriu uma participação de 5% no WB Bank, o braço financeiro da Wildberries, com uma opção para aumentar essa participação.
O crescimento deste setor faz parte dos planos do Kremlin para estimular uma economia marcada pelo fraco crescimento e pela guerra. Maxim Oreshkin, um dos principais conselheiros económicos do Presidente Vladimir Putin, descreveu as plataformas como a Wildberries e a Ozon como uma nova forma de economia planificada, coordenada por algoritmos em vez das instituições burocráticas da era soviética. E é precisamente esta transformação, de retalhista a infraestrutura económica, que aumentou o peso da Wildberries na Rússia e a dimensão do impacto provocado pelos ataques na economia.
Ucrânia aponta à logística russa para atingir economia
Kiev, que se defende da Rússia desde fevereiro de 2022, justifica os ataques de drones alegando que a plataforma participa no abastecimento do esforço de guerra russo, apontando para produtos de dupla utilização vendidos na rede, uma acusação rejeitada pela empresa e pelo Kremlin.
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, descreveu alguns dos centros logísticos atingidos como instalações envolvidas no abastecimento das forças russas com componentes para drones e outros equipamentos. Segundo a Reuters, a oferta da Wildberries inclui produtos como óculos de visão noturna, bolsas para munições e capacetes, bem como roupa, cosméticos, eletrodomésticos, medicamentos e muitos outros produtos civis.
A expressão “levar a guerra de volta para casa, para a Rússia” paira na estratégia ucraniana, tendo como objetivo fazer com que os custos da guerra sejam sentidos dentro da Rússia. Como? Ao contrário de um alvo como uma fábrica de armamento ou uma refinaria, a Wildberries está presente no dia a dia de milhões de consumidores.
O argumento de Kiev não será contudo o único motivo para a cadeia de ataques. A expressão “levar a guerra de volta para casa, para a Rússia” paira na estratégia ucraniana, tendo como objetivo fazer com que os custos da guerra sejam sentidos dentro da Rússia. Como? Ao contrário de um alvo como uma fábrica de armamento ou uma refinaria, a Wildberries está presente no dia a dia de milhões de consumidores.
O balanço inicial revela que as perdas concentradas num número limitado de armazéns estão a ser propagadas a milhares de empresas que dependem da plataforma. Entre os exemplos reportados pela Reuters está a designer russa Viktoria Terekhova, que enviou praticamente toda a coleção de verão de roupa infantil da sua empresa, Fareal Kids, para o armazém da Wildberries em Elektrostal, destruído dias depois. A empresária perdeu 12 mil artigos, correspondentes a cerca de 45% das existências totais do negócio, além de outros quatro mil produtos destruídos em ataques a outros centros da Wildberries.
O impacto, contudo, não se fica por aí. A coleção tinha sido produzida com dinheiro emprestado e as receitas das vendas deveriam servir para pagar dívidas e financiar a coleção seguinte, pelo que a probabilidade é de que falhará os compromissos com a banca. Outro caso é o de Oleg Kondratyev, cofundador da marca de vestuário Airbase, que perdeu cerca de cinco milhões de rublos em stock. O empresário explicou, à Reuters, que a quebra das vendas através da Wildberries estava a impedir a empresa de pagar os empréstimos e admitiu o risco de falência caso não fossem concedidos adiamentos nos pagamentos.
Efeitos que se fazem sentir igualmente nos pontos de recolha. Vasily Klimov, operador de um destes espaços em Moscovo, viu o número de encomendas recebidas cair de cerca de 400 para 150 por dia, com as vendas a diminuírem aproximadamente 50% e o negócio a passar a dar prejuízo.
Empresa iniciou trâmites com o vizinho Cazaquistão para a criação de centros logísticos no seu território, que deverão entrar em funcionamento no primeiro trimestre de 2027.
A empresa, por outro lado, tem respondido à pressão desviando encomendas para outras instalações, ao mesmo tempo que começa a procurar proprietários e arrendatários dispostos a abrir novos partner hubs no país. Iniciou ainda trâmites com o vizinho Cazaquistão para a criação de centros logísticos no seu território, que deverão entrar em funcionamento no primeiro trimestre de 2027.
Embora as condições comerciais da Wildberries, citadas pela Reuters, a isentem de responsabilidade em situações de força maior e incluam especificamente os ataques com drones entre essas circunstâncias, a gigante económica anunciou o pagamento de compensações voluntárias aos vendedores. Segundo as informações avançadas pela empresa, mais de 97 mil vendedores que perderam mercadoria terão começado a receber pagamentos no início de agosto.
Reestruturações de empréstimos e o impacto para a banca
Sem mercadoria, as empresas vendem menos, mas continuam a ter fornecedores, salários, impostos e empréstimos para pagar, pelo que a procura por reestruturação de empréstimos disparou. Cerca de 300 empresas já avançaram com a decisão, segundo os dados mais recentes da Reuters.
Assim, e com o impacto a chegar facilmente à banca russa, o banco central aconselhou as instituições financeiras a apoiarem as pequenas e médias empresas (PME) que sofreram danos provocados pelos ataques. Numa carta publicada pelo regulador bancário no seu canal no Telegram, citada pela Lusa, o Banco Central da Rússia informou que as PME “que sofreram perdas em consequência dos ataques terroristas em centros logísticos, armazéns, locais de produção, escritórios ou outros locais poderão solicitar a reestruturação dos seus créditos e empréstimos”.
O Banco Central da Rússia aconselhou as instituições financeiras a apoiarem as pequenas e médias empresas (PME) que sofreram danos provocados pelos ataques.
“Recomenda-se que as entidades de crédito facilitem o trâmite dos pedidos, independentemente de o mutuário cumprir os requisitos legais para uma moratória de pagamentos, e que considerem essa reestruturação como uma medida independente para apoiar as empresas”, acrescentava ainda o documento. Na mesma linha, o regulador russo emitiu indicações para que as entidades de crédito se abstenham “de cobrar multas e penalizações por pagamentos atrasados e não exigir o reembolso antecipado do empréstimo”.
O Sberbank, maior banco do país, já admitiu que poderá aumentar as provisões para perdas de crédito devido à deterioração da situação financeira de retalhistas online e vendedores afetados.
Além do desafio da liquidez, o potencial impacto na inflação é um risco para a economia. A governadora do Banco da Rússia, Elvira Nabiullina, indicou que a instituição vai avaliar se as perturbações da oferta resultantes dos ataques se podem traduzir numa inflação mais elevada. Elina Ribakova, economista da Kyiv School of Economics e do Peterson Institute for International Economics, em Washington, afirmou que os ataques poderão complicar os esforços do banco central para reduzir as taxas de juro, atualmente nos 14%.
Além do desafio da liquidez, o impacto na inflação é um risco para a economia. A governadora do Banco da Rússia, Elvira Nabiullina, indicou que a instituição vai avaliar se as perturbações da oferta resultantes dos ataques se podem traduzir numa inflação mais elevada.
“Apesar de ser provável que a economia russa registe crescimento nulo este ano, e de ter estado em contração no primeiro trimestre, a inflação continua elevada e, por isso, qualquer pequeno choque poderá obrigar o banco central a abrandar significativamente os cortes ou até mesmo a interrompê-los. Por isso, os choques do lado da oferta são muito importantes”, afirmou numa entrevista telefónica à Reuters.
Certo é que o Kremlin já confirmou que foram discutidas formas de apoiar a Wildberries e as empresas que dependem da plataforma. Entre as possibilidades noticiadas por meios internacionais estão empréstimos através de bancos estatais, benefícios fiscais e subsídios.
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Wildberries, a “Amazon russa” alvo da Ucrânia que está a pressionar a economia de Putin
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