🔥…💡💪✨#textoincrívelquediscorresobreabonecadaeafins😂😜😄😆😝🤪!!!

  • Nuno Antunes
  • 25 Junho 2026

Emojis excessivos, hashtags intermináveis e pontuação histérica partilham o mesmo problema. Quando a mensagem é boa, as palavras fazem a maior parte do trabalho. O resto é decoração.

Lembram-se daqueles tempos em que procurávamos comunicar através de palavras, frases, argumentos e ideias? Algumas boas, outras más, claro. Começávamos sempre pelo desafio, mas estávamos sempre à procura de uma coisa grande e bonita. Regra geral, existia a convicção de que a nossa audiência conseguia compreender uma mensagem que não era ditada por regras, lá está, mas pela ideia em si. Também, há quem diga, fórmulas ou melhores práticas. E era tão bonito, não era?

Agora, para obedecer à ditadura dos SEOs, dos GEOs e afins (eu sei que tem de ser assim, mas bolas, também “nem tanto ao mar nem tanto à terra”), começa-se pelos protocolos, melhores práticas, princípios, normas, preceitos, prescrições, determinações, disposições, diretrizes, mandamentos e até, vejam lá bem, cânones. Até pululam cursos de copywriting digital que não ensinam a pensar. Fazem pouco mais do que doutrinar as tais especificações.

E depois, também para continuar neste contexto digital, parece que precisamos constantemente de um conjunto de símbolos gráficos a funcionar como rodas de apoio cognitivas. Hoje, uma parte significativa do marketing parece acreditar que o consumidor é incapaz de interpretar uma frase sem assistência visual permanente. “Chegou a nossa nova solução para aumentar a produtividade! 🚀” (o ponto de exclamação não está esquecido e já volto a ele). Sem o foguete, aparentemente, ninguém perceberia que estamos perante algo inovador. Afinal, desde a invenção da escrita que a humanidade aguarda pela chegada deste emoji para compreender o conceito de progresso ou de evolução.

A situação torna-se particularmente fascinante quando os emojis começam a substituir a própria linguagem. Qualquer coisa do género: ”Os nossos resultados este ano foram 📈📈📈”. Que análise excelente! Fica apenas a dúvida sobre o valor das vendas, a evolução da quota de mercado e os indicadores financeiros. Mas quem precisa de números quando temos três gráficos ascendentes?

E quando uma marca, numa publicação, coloca um ou vários em simultâneo destes queridos 😂😜😄😆😝🤪, depois de uma piada ou de uma graçola? Não vá o leitor não perceber e então carregamos o texto com bonecada para dizer que teve graça. Ou tem ou não tem. Porque se tem, então estão a explicar a anedota e é aí que a graça se perde toda.

A outra praga no conteúdo é o ponto de exclamação. Ou melhor, os pontos de exclamação. Um já não chega. Dois demonstram entusiasmo. Três revelam paixão. Quatro sugerem descontrolo emocional. Cinco começam a parecer um pedido de ajuda: ”Temos uma grande novidade para partilhar!!!!!”. Calma, é apenas de uma newsletter que se trata. Ninguém encontrou a cura para todas as doenças nem estabeleceu contacto com vida extraterrestre. É, tão só e apenas, uma newsletter.

O problema dos pontos de exclamação é que funcionam como a inflação. Quando toda a comunicação está permanentemente aos gritos, nada parece realmente importante. Se todas as campanhas são extraordinárias, revolucionárias, imperdíveis e incríveis, então nenhuma o é. Se todas as novidades merecem cinco pontos de exclamação, então o recurso deixa de ter significado. É a mesma lógica do vendedor que fala sempre no volume máximo. Ao fim de cinco minutos, ninguém distingue o entusiasmo genuíno do ruído. O Mark Twain bem dizia sobre os pontos de exclamação, só porque ainda nem sonhava com emojis: “One should never use exclamation points in writing. It is like laughing at your own joke.”.

E as reticências que são usadas para fazer pausas nos textos? Nem sei se hei-de rir ou chorar. Experimentem as vírgulas ou os pontos finais, tal como nos diz a gramática, daquela mais básica que há.

Mas os emojis, os pontos de exclamação e as reticências não estão sozinhos nesta missão. Têm aliados poderosos, as hashtags. Originalmente criadas para categorizar conteúdos, as hashtags transformaram-se numa espécie de superstição digital. Há profissionais que acreditam genuinamente que quanto mais hashtags colocarem no final de uma publicação, maior será a probabilidade de serem encontrados por alguém, algures no universo, numa qualquer galáxia.

E é assim que surgem obras-primas como: #marketing #digitalmarketing #marketingdigital #business #success #growth #leadership #innovation #mindset #strategy #future #branding #socialmedia #content #communication #entrepreneurship #motivation #inspiration #transformation #change #technology #ai #artificialintelligence #digitaltransformation #futureofwork

Quando terminamos de ler, já não nos lembramos do conteúdo da publicação. Apenas sabemos que alguém tentou capturar todas as pesquisas realizadas na internet desde “dois mil e troca o passo”.

O fenómeno torna-se ainda mais curioso porque muitas destas hashtags não acrescentam rigorosamente nada. Imagine-se um restaurante a publicar uma fotografia de Bacalhau à Brás acompanhada de: #food #restaurant #lunch #dinner #hungry #tasty #delicious #foodlover #foodie #chef #cooking #eating

Um grande bem-haja pelo esclarecimento. Sem a hashtag #food talvez julgássemos que se tratava de uma análise geopolítica levada a cabo por um desses generais que passam a vida na televisão a falar das guerras do mundo.

No fundo, emojis excessivos, hashtags intermináveis e pontuação histérica partilham o mesmo problema. São frequentemente utilizados para compensar aquilo que falta na mensagem. Uma ideia forte não precisa de três foguetes. Uma reflexão relevante não precisa de vinte hashtags. Uma proposta interessante não necessita de cinco pontos de exclamação.

Quando a mensagem é boa, as palavras fazem a maior parte do trabalho. O resto é decoração. E, como qualquer decorador sabe, mesmo os de trazer por casa, existe uma diferença enorme entre acrescentar alguns detalhes e despejar toda a loja para cima do sofá.

Talvez o maior sinal de maturidade na comunicação moderna seja precisamente o de resistir à tentação de transformar cada conteúdo num desfile de símbolos, etiquetas e sinais gráficos. Porque, por muito doloroso que seja admitir, há momentos em que uma frase bem escrita continua a ser mais eficaz do que 🚀🔥…💡💪✨!!! Embora suspeite que esta conclusão teria mais alcance se terminasse com #Marketing #Comunicação #Branding #Inovação #Liderança #Futuro #TransformaçãoDigital #PensamentoEstratégico #Disrupção #GrowthMindset.

Há uns tempos, a jornalista Debbie Well saiu-se com isto: “Older people do not use internet differently, except in the correct way they write.”. E foi aqui que percebi que estou velho para caraças.

  • Nuno Antunes
  • business partner da Milford e professor ISCTE Executive Education

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