1.460 dias de guerra e muita ‘desunião’ europeia

O pacote de 90 mil milhões da UE à Ucrânia — vetado pela Hungria — é exemplo paradigmático da 'desunião' europeia e da dificuldade de obtenção de consensos entre os Estados-Membros.

Comecemos pelo mais importante. As pessoas, com centenas de milhares de mortos. A destruição provocada por quatro anos de guerra na Ucrânia vai exigir um investimento de 500 mil milhões de euros numa década para reparar infraestruturas de energia ou habitação visadas pelos ataques de drones e mísseis russos. Mas, sem um acordo de paz à vista, não há um fim estimado para os mais de 1.460 dias de guerra à porta da Europa, e a ‘conta’ em vidas não pára de aumentar.

A Europa acordou para a necessidade de reforçar a sua defesa com a investida de Putin à Ucrânia, mas corre contra o prejuízo: os anos (felizmente) de paz resultaram no crónico subinvestimento nas forças armadas, e hoje a indústria de defesa interna mal supre as necessidades imediatas do continente para se rearmar e, nem os vários pacotes financeiros para o reforço da defesa da região conseguem fazer milagres.

Nem tão cedo a Europa vai conseguir reduzir a sua dependência de terceiros — entenda-se a NATO e os EUA — para assegurar a defesa das suas fronteiras. Esse reconhecimento está implícito quando vimos em programas de empréstimo como SAFE, cujo foco é reequipar com material militar made in Europe, a admissão que Estados podem comprar fora da região caso o equipamento seja urgente e não haja oferta disponível na Europa. Há estimativas de que isso poderá resultar em compras de 10 mil milhões de euros de equipamento fora da Europa, que é como quem diz, aos EUA. Suprema ironia, numa altura em que as relações transatlânticas mais parecem mais um caso de frenemies — os danos na relação causados pela ‘investida’ de Trump à Gronelândia ainda estão bem presentes — do que que de verdadeira Aliança.

A mesma cláusula de ‘prioridade Europa nas compras’ está igualmente vertida na proposta do pacote de 90 mil milhões de euros de apoio à Ucrânia, dos quais 60 mil milhões para apoio militar. Mas este é um daqueles exemplos onde a ‘desunião’ europeia e a dificuldade de obtenção de consensos entre os Estados-Membros é paradigmático. Quando tudo parecia encaminhado para avançar com o empréstimo, eis que se impõe a realpolitik: o veto da Hungria (em 2022 já tinha feito o mesmo) que se juntou à Eslováquia no cartão vermelho ao 20.º pacote de sanções à Rússia.

E por falar em dossiês complicados de desunião europeia, olhemos para o caça europeu de nova geração, o chamado “Future Combat Air System (FCAS)”. Tom Enders — antigo CEO da Airbus — considera a decisão da Alemanha em avançar há nove anos com a França para a construção de um caça europeu de nova geração um “erro estratégico”, depois de termos ouvido o chanceler alemão, Friedrich Merz, dizer que o FCAS não serve os interesses das Forças Armadas alemãs.
Se isto não é um míssil neste porta-aviões da indústria de defesa europeia, não sei o que será.

Ursula von der Leyen chegou à Ucrânia, na semana do quarto ano de guerra, com duas mãos cheias de nada e uma garantia. “O empréstimo foi acordado pelos chefes de Estado e de Governo no Conselho Europeu. Deram a sua palavra. Essa palavra não pode ser quebrada. Por isso, cumpriremos o empréstimo de uma forma ou de outra. Permitam-me ser muito clara: temos diferentes opções e iremos utilizá-las”, afirmou a presidente da Comissão Europeia. Quais não disse, mas aguardemos novidades sobre como a Comissão irá cortar este nó górdio.

E por falar em dossiês complicados de desunião europeia, olhemos para o caça europeu de nova geração, o chamado “Future Combat Air System (FCAS)”. Lançado em 2017, com a Alemanha, França e Espanha, as últimas semanas têm dado sinais preocupantes sobre o futuro do projeto de 100 mil milhões de euros.

Tom Enders — antigo CEO da Airbus, consórcio envolvido no projeto desde o seu início — considera a decisão da Alemanha em avançar há nove anos com a França para a construção de um caça europeu de nova geração um “erro estratégico”, depois de termos ouvido o chanceler alemão, Friedrich Merz, dizer que o FCAS não serve os interesses das Forças Armadas alemãs. “Os franceses precisam de uma aeronave com capacidade nuclear na próxima geração de aviões de combate; nós, da Bundeswehr [Forças Armadas] alemã, não precisamos disso agora”, disse.

Se isto não é um míssil neste porta-aviões da indústria de defesa europeia, não sei o que será.

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