2021: ano de recuperação ou estagnação?

2021 será um ano de estagnação. A recuperação será muito lenta em resultado das políticas erradas na saúde e na economia.

O ano novo trouxe, infelizmente, um agravar da situação pandémica. Depois da 1ª vaga (março-junho, em que tivemos casos diários na ordem das centenas), o verão foi relativamente calmo (com casos diários na ordem das dezenas). Mas o Governo não soube preparar o país para o outono. A partir de outubro, com a 2ª vaga, o número de casos disparou. Rapidamente a situação escalou e passámos para os 3-4 mil casos por dia. A situação não estava minimamente controlada quando vieram as regras, bastante ligeiras, para o Natal. Basta recordar que a 18 e 19 de dezembro estávamos nos 4 mil casos. Infelizmente, o passar das festas trouxe uma 3ª vaga. Ou se quisermos, um recrudescer da 2ª vaga. Neste momento estamos nos 10 mil casos/dia.

Muita gente julgou que, passando o ano, teríamos uma nova realidade. Como se a simples mudança de calendário fosse resolver os problemas. Infelizmente, o Governo deu todos os sinais errados.

Por um lado, permitiu regras ligeiras no Natal, quando os restantes países Europeus foram muito mais severos. Várias pessoas alertaram que Portugal tinha implementado um regime de regras sanitárias muito menos apertado do que a generalidade dos países da Europa. E que isso poderia gerar um aumento significativo dos casos, logo no início de janeiro. O resultado está à vista.

Por outro lado, criou um “exercício de propaganda” totalmente escusado com as vacinas, mas típico deste Governo e do Partido Socialista, por duas razões. Primeiro, porque vai demorar muitos meses a vacinar a população necessária para criar “imunidades de grupo”. E a ideia que o Governo passou é que de repente haveria milhões de pessoas vacinadas. Segundo, a vacina, sendo muito importante, não resolve, para já, o risco da pandemia.

Ou seja, o Governo ao invés de optar pela discrição e prudência, alertando os portugueses que os riscos da Covid-19 se mantinham e até se agravaram, preferiu passar o período de dezembro em campanha e em “desanuviamento”, para agora apertar as medidas e avançar para um confinamento tipo março-maio de 2020.

Desta forma, teremos ainda um longo período de pandemia à nossa frente em 2021. O que coloca uma questão económica muito relevante: 2021 será um ano de recuperação ou de estagnação?

Nas suas últimas projeções económicas, de 14 de dezembro, o Banco de Portugal (BdP) manteve, no essencial, as previsões de outubro. O PIB deverá cair 8.5% em 2020 e recuperar 3.9% em 2021. Pior do que a zona Euro (quebra de 7.3% e recuperação de 3.9%).

Uma quebra do PIB de 8.5%, mesmo que seguida de uma recuperação de 3.9%, representa no final de 2021 uma quebra de 5% face a 2019.

Esta previsão (alinhada com a do governo no OE2021) dependerá muito do que foi o comportamento da economia no 4º trimestre de 2020. Sendo expectável uma quebra do PIB no 4º trimestre (quer homóloga – face ao 4º trimestre de 2019; quer face ao 3º trimestre de 2020), a quebra teria de ser muito significativa para o PIB cair mais do que os 8.5% previstos. Isto porque a recuperação do 3º trimestre (face ao 2º trimestre de 2020) foi muito significativa. Teria de ser uma quebra homóloga de 16% nos últimos três meses do ano, só comparável com a 2º trimestre.

Ainda sabemos pouco sobre como foi o 4º trimestre. O indicador de clima económico do INE piorou em outubro e novembro, face a setembro, para ter uma ligeira recuperação em dezembro. No entanto, termina o ano abaixo do valor de setembro. Já o indicador de confiança dos consumidores terminou em dezembro com o mesmo valor de setembro. O 3º e o 4º trimestre de 2020 tiveram o mesmo nível médio.

Em regra, os indicadores económicos pioraram em outubro e novembro face a setembro, o que resulta, naturalmente, do agravamento da situação pandémica. Dezembro terá sido um mau mês. Vamos ver que impacto terá tido no 4º trimestre e como isso influenciará a quebra do PIB para 2020. Os 10% de quebra, receados por muitos no início da pandemia, parecem estar afastados. Provavelmente, a quebra ficará entre os 8% e os 9%. Não é muito diferente, mas pelo menos não tem o “impacto psicológico” dos “dois dígitos” de quebra.

E 2021? A previsão do BdP, de recuperação de 3.9%, choca com a da OCDE, de uma recuperação em torno dos 2%. O governo previa no OE21 um crescimento em 2021 de 5.4%. Mas, nessa altura, a previsão do BdP (de setembro) era de 5.2%. A revisão em baixa da previsão do BdP não deixará de ter reflexos nas previsões do Governo.

Uma quebra significativa da atividade económica no 1º trimestre, fruto de janeiro e fevereiro ainda com fortes medidas sanitárias (inclusive com um provável novo confinamento entre 15 de janeiro e meados/fins de fevereiro), terá um impacto significativo na recuperação económica de 2021. Se isso ocorrer, e com um 2º trimestre ainda bastante limitado, será preciso um 3º trimestre e um verão muito forte, sobretudo no turismo e restauração, para que o crescimento de 2021 fique acima dos 2.5%.

Enquanto não houver um retomar de uma certa “normalidade”, dificilmente o turismo recuperará. No entanto, chamo a atenção para dois aspetos que podem trazer alguma esperança ao setor:

  1. O primeiro é que uma parte significativa da população Europeia (a do setor público e a que pode ir para teletrabalho) viu as suas poupanças aumentarem neste período (ao contrário da outra parte que foi para o desemprego ou esteve em lay-off). Essas pessoas, que serão maioritariamente classe A/B, estavam muito habituadas a viajar e, quando a oportunidade surgir, vão querer faze-lo rapidamente.
  2. O segundo é que a pandemia pode afastar muitos turistas Europeus de destinos mais longínquos (pelo tempo em avião) e com sistemas de saúde mais frágeis. Isso pode provocar um efeito de aumento da quota de mercado dos países do sul da Europa (vimos isso, por outros motivos, com a Primavera Árabe).

Os dois riscos novos para o turismo residem em possíveis novas vagas de uma estirpe diferente do vírus, que a vacina possa não proteger, e a perda de capacidade instalada (sobretudo hotéis e operadores) por via das falências.

Em 2021, a recuperação da economia portuguesa dependerá antes de mais da evolução da pandemia a nível nacional, mas também a nível internacional. A recuperação das economias Europeias é crítica para a recuperação da economia nacional, quer nas exportações, quer no turismo. Adicionalmente é fundamental que se mantenha esta tranquilidade nos mercados financeiros e taxas de juro próximas de zero.

Internamente, a perda de capacidade produtiva, os problemas no setor financeiro decorrentes das moratórias e o elevado nível de desemprego serão fatores para a lentidão da recuperação e crescimento dos próximos anos. Adicionalmente, e mais importante, parece-me claro que não há uma estratégia do governo nem para a gestão de curto prazo da economia face a pandemia, nem para a recuperação económica a médio prazo.

Receio, contudo, que este 2º confinamento, se similar ao de março-maio de 2020, tenha um efeito muito mais devastador na economia. Isto porque as empresas estão ainda mais descapitalizadas do que há um ano. O ano de 2020 foi muito duro. E muitas empresas aguentaram o 1º confinamento. Mas fizeram uso de liquidez que tinham ou crédito que tiveram acesso. Mas essas empresas têm hoje uma margem muito menor.

2021 será um ano de estagnação. A recuperação será muito lenta em resultado das políticas erradas. Na saúde e na economia. Porque como já aqui escrevi: “O Governo está a destruir a economia sem cuidar da pandemia”. Reflexo de um Governo sem rumo, sem soluções e sem ambição. A declaração do primeiro-ministro, sobre a “conspiração internacional” lideradas pelos meus amigos Paulo Rangel, Miguel Poiares Maduro e Ricardo Baptista Leite (um abraço aos três), é bem o exemplo de um primeiro-ministro desnorteado, sem capacidade de liderança, sem soluções e com tiques a lembrar José Sócrates.

No Governo está tudo à espera do “milagre das vacinas” e do “milagre da bazuca Europeia”.

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