25 anos depois de Entre-os-Rios: o que eu nunca esqueci e lições para lidar com catástrofes
A resposta à queda da ponte Hintze Ribeiro fez-se de proximidade e de presença no terreno. Aprendemos muito e não posso ficar em silêncio quando o país volta a ser abalado por uma nova catástrofe.
Nunca esquecerei o dia 4 de março de 2001 e também não consigo apagar da minha memória as imagens, os silêncios, os olhares de quem esperava respostas que ninguém queria dar.
A queda da ponte Hintze Ribeiro, em Entre-os-Rios, que abrangeu quatro concelhos de Portugal, Castelo de Paiva, Cinfães, Gondomar e Penafiel, foi a maior tragédia rodoviária alguma vez ocorrida em Portugal, mas para mim foi, acima de tudo, uma experiência humana e institucional que me marcou para sempre.
Estive lá. Vivi aqueles dias, semanas, meses, bem de perto. Tinha sido pai pela primeira vez 36 dias antes. O último dos corpos da tragédia que apareceu foi no final de Maio de 2001. E é por isso que, vinte e cinco anos depois, sinto que não posso ficar em silêncio quando o país volta a ser abalado por uma nova catástrofe.
Lembro-me bem de como, desde os primeiros momentos, se percebeu que a resposta não podia ser feita à distância. E na época, o Governo de então e a Proteção Civil Nacional instalaram o centro de operações junto ao rio Douro, em Castelo de Paiva, onde permaneceram cerca de 30 dias.
Tudo acontecia ali, e era ali que tinha de se decidir. As reuniões, muitas delas duras e emocionalmente pesadas, realizavam-se no terreno, não em Lisboa, não por telefone, não por intermédio de notas técnicas. Quem decidia via, ouvia e sentia o que estava a acontecer.
Não foi uma decisão cómoda, foi a decisão certa. Tudo acontecia ali, e era ali que tinha de se decidir. As reuniões, muitas delas duras e emocionalmente pesadas, realizavam-se no terreno, não em Lisboa, não por telefone, não por intermédio de notas técnicas. Quem decidia via, ouvia e sentia o que estava a acontecer. E isso faz toda a diferença. Recordo a forma como comunicávamos aos familiares dos desaparecidos e ao país. Um briefing ao almoço e outro às 20 horas.
Recordo com particular ênfase a presença do então Secretário de Estado da Administração Interna, Carlos Zorrinho, hoje Presidente da Câmara de Évora, que esteve duas semanas consecutivas no local, em representação do Governo. Vem-me à memória também, a presença no terreno de outros membros do Governo que ali se deslocaram e ali permaneceram, no centro de operações, e em Castelo de Paiva estiveram dezanove membros do Governo, em vinte e três dias.
Havia uma consciência clara de que o país real exigia mais do que declarações públicas, exigia presença física, responsabilidade e compromisso.
Não esqueço as palavras do então Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio: “Pensar local e agir local”. Esta não era apenas uma frase feliz, era exatamente o que estava a acontecer.
Aquele centro de operações tornou-se, para mim, o símbolo de uma forma de estar do Estado em tempos de crise, era ali que se pensava, ali que se decidia, ali que se agia. E sobre isto, não esqueço as palavras do então Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio: “Pensar local e agir local”. Esta não era apenas uma frase feliz, era exatamente o que estava a acontecer.
Nunca foi concluído o livro branco sobre tudo o que se fez após a tragédia de Entre-os-Rios, apesar do mesmo ter sido iniciado (e participei em algumas reuniões) pelo então Presidente do Serviço Nacional de Proteção Civil, Coronel Pinto Henriques, que, entretanto, faleceu num acidente rodoviário. E tenho pena que não tenha sido terminado pois aprendeu-se muito após aquela tragédia, e esse livro seria um verdadeiro Manual de Procedimentos para situações idênticas de catástrofe.
Aprendeu-se sobre proteção civil, sobre coordenação entre entidades, sobre comunicação, mas, acima de tudo, aprendeu-se sobre liderança em momentos extremos.
Não posso esquecer também uma comissão que foi criada, que incluía o Ministro das Obras Públicas, Ferro Rodrigues, o Secretário de Estado das Obras Públicas, Vieira da Siva, eu próprio e o meu Vice-Presidente. Reuníamos, com uma periodicidade semanal, depois quinzenal, e depois mensal, acompanhando todos os processos que estavam em cima da mesa, para que a teia burocrática que na altura já percorria a administração pública não fizesse parar na mesa de qualquer organismo processos de resolução urgente.
Passaram-se vinte e cinco anos. Hoje, Portugal enfrenta outra catástrofe, diferente, sim, mas igualmente devastadora e exigente. E eu não consigo deixar de comparar, não para estabelecer hierarquias de dor, mas para lembrar que, salvo melhor opinião, já soubemos responder melhor.
A memória de Entre-os-Rios não é, para mim, apenas uma lembrança dolorosa, é um referencial. É a prova de que, quando o Estado decide estar presente, quando sai dos gabinetes e se aproxima das pessoas, a resposta ganha outra densidade, outra humanidade.
A memória de Entre-os-Rios não é, para mim, apenas uma lembrança dolorosa, é um referencial. É a prova de que, quando o Estado decide estar presente, quando sai dos gabinetes e se aproxima das pessoas, a resposta ganha outra densidade, outra humanidade.
Vinte e cinco anos depois, continuo a acreditar que devemos olhar para trás sem nostalgia, mas com lucidez. Recuperar o que fizemos bem, aprender com o que falhou e, sobretudo, não esquecer que em momentos de tragédia o país não se governa à distância.
É isso que eu nunca esqueci e é isso que, hoje, sinto a obrigação de lembrar.
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