439 euros no bolso e a Pátria no coração

Atrair e reter talento tem sido um problema das Forças Armadas. Mas a solução não parece passar pelo programa "Defender Portugal" que oferece aos jovens 439 euros e carta de condução gratuita.

Atrair e reter talento não é um problema só das empresas. É igualmente das Forças Armadas (FA). Atualmente, o país tem cerca de 24.500 militares na Marinha, Exército e Força Aérea, valor abaixo dos cerca de 30-32 mil considerados necessários. Em 1999, foi decidido o fim do Serviço Militar Obrigatório, mas na prática só a partir de setembro de 2004 é que as FA deixaram de poder contar com este mecanismo de recrutamento. Portugal estava a reduzir os seus efetivos militares, movimento que, de resto, vivendo-se dias de paz, não era inédito no resto da Europa.

Desde a guerra na Ucrânia que vários países europeus têm vindo a repensar os seus mecanismos de atração de jovens para a vida militar. A França, por exemplo, avançou desde o início do ano com serviço militar voluntário para todos os cidadãos franceses entre os 18 e os 25 anos. A estimativa é que, neste primeiro ano, se incorporem cerca de 3.000 pessoas, ​para um total de 10.000 em 2030 e de 42.500 em 2035​. Em troca do seu tempo — o primeiro mês dedicado ao treino de tiro, marcha, orientação e topografia, com os seguintes nove meses ​d​e serviço ativo em França​, sem envio para zonas de conflito bélico ou operações militares ​fora do país —, França irá atribuir um salário de 800 euros brutos por mês, alimentação e alojamento durante a prestação do serviço.

Que efeito um programa como o proposto pela AD possa ter na atração de talento para FA é uma incógnita. Mas mesmo dando-lhe o benefício da dúvida, atrair jovens, com as competências que as FA tanto necessitam, num momento de profunda transformação tecnológica e em que a Europa e o país estão a investir massivamente em defesa, com este tipo de oferta sabe assim a ‘poucochinho’ e a um mau sinal sobre o que futuro nas FA lhes reserva.

​Com quatro anos de guerra na Europa, a discussão tardava a chegar a Portugal. Chegou agora com o projeto de resolução do PSD e do CDS-PP para a criação de programa de voluntariado “cívico-militar”​: o “Defender Portugal”. Com duração de três a seis semanas – uma parte a cumprir em regime de internato –​, o programa destina-se a jovens portugueses entre os 18 e os 23 anos​, visando a sua “formação cívica, física e militar de jovens cidadãos e o reforço da ligação entre a sociedade civil e a Defesa Nacional”​, noticiou a Lusa. Em troca? “Uma retribuição única no valor de 439,21 euros” (50% do valor pago durante o período de instrução básica ao primeiro escalão remuneratório das Forças Armadas) e a “possibilidade de obtenção gratuita da carta de condução, em estabelecimentos militares habilitados”. ​O programa seria também valorizado nos concursos de acesso às F​A, forças e serviços de segurança, órgãos de polícia e bombeiros profissionais.

“​Uma inutilidade”, “dar oxigénio a um corpo morto”, “um remendo”, “um bocado ridículo, face à dimensão do problema”, “uma coisa da Segurança Social para indigente”​ foi como o “Defender Portugal” foi recebido entre ex-altos responsáveis militares​. Para ​o almirante Silva Ribeiro, ​antigo chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas entre 2018 e 2023,​ “o essencial, para concretizar a aproximação dos jovens às FA, é tornar o serviço militar nos regimes permanente, contratado e voluntário, socialmente valorizado, profissionalmente útil e civicamente prestigiado”​, disse citado pelo Público.

Gouveia e Melo aponta outro caminho. Para o almirante, ex-chefe do Estado-Maior da Armada e ​antigo candidato presidencial​, o mais importante é tornar as “carreiras mais aliciantes” para chamar efetivos, ​e o “fim da regra” que deixa os militares​ que entraram nas FA a partir de 2005 com reformas que correspondem a metade do último ordenado. “Estamos a perder o talento que criámos​.”​ Mais, argumenta, “​é essencial uma medida que permita que as pessoas, quando saem das FA, possam integrar uma reserva de longo prazo, talvez até aos 50 anos, e terem algum benefício por isso. O que permite contar com um contingente que foi treinado, no caso de se verificar um pico de tensão​”. Ficam as sugestões.

Que efeito um programa como o proposto pela AD possa ter na atração de talento para FA é uma incógnita. Mas mesmo dando-lhe o benefício da dúvida, atrair jovens, com as competências que as FA tanto necessitam, num momento de profunda transformação tecnológica e em que a Europa e o país estão a investir massivamente em defesa, com este tipo de oferta sabe assim a ‘poucochinho’ e a um mau sinal sobre o que futuro nas FA lhes reserva. Menos de 500 euros e uma carta de condução gratuita? Soa não a atração do melhor talento, mas apenas a falta de opções de vida.

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