90 mil milhões de euros de alívio e um reality check

A Ucrânia suspira de alívio com o pacote de 90 mil milhões de euros, mas a guerra continua e os EUA têm outro tema na agenda: Ormuz. Tal, fez a Europa acordar para a necessidade de reforçar a defesa.

Depois de meses de espera, com a pressão da guerra pela Rússia a não dar tréguas, a luz verde dada pelo Conselho Europeu ao pacote de empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia deve ter sido recebido em Kiev com um enorme suspiro de alívio.

“Este pacote reforçará o nosso exército, tornará a Ucrânia mais resiliente e permitir-nos-á cumprir as nossas obrigações sociais para com os ucranianos”, afirmou Zelensky. “É importante que a Ucrânia obtenha este nível de certeza financeira, após mais de quatro anos de guerra em grande escala”, disse ainda.

A primeira tranche de 45 mil milhões deverá chegar ainda este trimestre, prometeu Von der Leyen. Dois terços deste dinheiro será usado para a defesa do país da invasão russa. “O primeiro pacote será um para drones — drones da Ucrânia, para a Ucrânia”, disse a presidente da Comissão Europeia na sua mensagem.

Pelo meio, mais um pacote de sanções à Rússia — o mesmo que Órban tinha vetado quando bloqueou o apoio à Ucrânia, e que avançou quando os votos do povo húngaro puseram fim a 16 anos do político no poder —, e muitas promessas dos Países Baixos, Reino Unido ou Itália de envio de drones para a Ucrânia.

Agora o reality check. No terreno, a guerra continua, não há sinal de tréguas ou de um acordo de paz consistente e duradouro, nem indicações públicas de que os EUA, bloqueado no Estreito de Ormuz, tenha este tema das negociações, que em tempos Trump quis promover entre Rússia e Ucrânia, na sua agenda.

Depois da ‘festa’ parece haver uma espécie de ressaca. Em Chipre, que viu uma base britânica ser atingida por drones iranianos, o tema da defesa do continente está bem presente e com os aliados a questionar a NATO — sobretudo Donald Trump que promete não esquecer que a Europa não apoiou a ação militar norte-americana e israelita no Médio Oriente —, o Artigo 42.7, de assistência de mútua em caso de ataque — invocado uma única vez por Paris após os ataques terroristas de 2015 do ISIS terem provocado 130 mortos e centenas de feridos — está a ser olhado com crescente interesse.

“Temos de ter um plano operacional”, disse Nikos Christodoulides, presidente do Chipre. A UE precisa de definir “o que vai acontecer caso algum Estado-membro decida invocar este artigo específico”, disse o governante citado pelo Politico.

Sem um Exército comum, com a NATO a viver dias de incerteza, a Europa mais cedo do que tarde irá confrontar-se com as suas fragilidades de defesa e dependência do ‘amigo americano’.

A mensagem tem sido clara do outro lado do Atlântico: a Europa tem de aumentar orçamento de defesa. Dúvidas houvesse, Mark Rutte veio esta semana pedir aos países aliados para reforçaram a produção de equipamento militar, após notícias de que os EUA estavam a adiar entrega de material já encomendado a países europeus. Pode ter sido uma mera coincidência, mas…

Em abono da verdade, a guerra da Ucrânia foi o violento acordar da Europa para a necessidade de garantir a sua defesa. Milhões têm sido despejados em fundos ou pacotes de empréstimos aos países membros da UE. Portugal, à conta dessa nova estratégia, garantiu 5,8 mil milhões no SAFE, com o primeiro cheque de 876 milhões a chegar em abril, segundo referiu em março o porta-voz da Comissão Europeia ao ECO/eRadar.

O cheque SAFE tem atraído operadores internacionais do setor ao país e a indústria de defesa nacional quer também tirar partido desta liquidez inusitada. E parece estar a conseguir garantir a atenção de players de peso que acenam com parcerias para ganharem alguma vantagem junto dos decisores.

Com as compras via SAFE já ‘encaminhadas’o ministro da Defesa aponta fechar contratos em maio —, o próximo dossiê em cima da mesa deverá ser os caças. Com, pelo menos, Lockheed Martin, Saab e o consórcio Eurofighter na pista para a substituição dos ‘velhinhos’ F-16 da Força Aérea, a ver vamos que bandeira chegará ao fim da corrida: as estrelas e o vermelho e azul do Tio Sam ou as estrelas e o azul do made by Europe. Aguardemos.

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