A arte de amar a bolha: Como dançar à beira do abismo financeiro
No mercado atual, a humildade de seguir o preço deve ser sempre acompanhada pela disciplina de quem sabe que a orquestra toca à beira do abismo.
Leio nestes dias o instigante livro do economista David McWilliams, “Dinheiro: Uma História da Humanidade“. Ao abordar a Grécia Antiga, o autor descreve uma verdadeira revolução intelectual levada a cabo por Xenofonte: a transposição da base do pensamento do mythos para o que ele designava como logos. Enquanto o mythos assentava na narrativa e na fabulação, o logos, por outro lado, implicava a análise lógica e racional, a génese da economia. Ora, os tempos que vivemos nos mercados parecem marcar um regresso ao domínio das narrativas. A racionalidade parece ter-se tornado um conceito ultrapassado, perante a euforia do momentum e do trend following efetuado por máquinas de IA.
Sabemos, ainda que o digamos amiúde em tom de brincadeira, que a meteorologia e os mercados financeiros partilham uma semelhança curiosa: ambos dependem de condições prévias para que os fenómenos se manifestem. Quando olhamos para um céu carregado de nuvens cumulonimbus (as “rainhas” das nuvens), não assumimos que a chuva surge por geração espontânea. Ela já lá está, latente, à espera das condições exatas para se precipitar. No mundo dos investimentos, as tempestades também se anunciam. Contudo, como procuro transmitir semanalmente nestas páginas do ECO, bem como nas minhas aulas, a nossa capacidade de adaptação ao mercado (seja como investidor, especulador ou gestor de risco) é, frequentemente, muito mais valiosa do que a nossa capacidade de previsão.
Ao ler a nota de opinião de John P. Hussman relativa a este mês de fevereiro, encontrei uma reflexão pertinente sobre este tema. O mercado acionista norte-americano encontra-se nas avaliações mais extremas da sua história. Se observarmos a métrica da capitalização de mercado face ao valor acrescentado bruto das empresas não financeiras, estamos perante um cenário que já ultrapassa os picos de 1929 e 2000. As margens de lucro estão invulgarmente elevadas, impulsionadas por uma economia de serviços e de alta tecnologia com fortes barreiras à entrada.
Muitos analistas olham para as distribuições de probabilidade históricas (a clássica “curva de sino”) e assumem que o retorno médio anual do mercado rondará invariavelmente os 10%. Mas isto é o que Hussman categoriza como uma probabilidade “incondicional”. É o equivalente a ignorar as nuvens negras e o vento frio, confiando cegamente na média anual de precipitação da região. Se não ajustarmos a nossa estimativa às condições presentes (avaliações esticadas e dinâmicas internas divergentes), arriscamo-nos a ficar encharcados.
Isto não significa que a matemática financeira seja uma farsa. A matemática é, meramente, pensamento bem estruturado que nos permite compreender a interação entre variáveis. O problema surge quando a transformamos em dogma, assumindo que os preços resultam de um processo aleatório perfeito, em vez de refletirem as expectativas, as esperanças e os medos dos investidores reais — os “animal spirits” de Keynes.
Neste contexto de tensões entre a narrativa e a realidade, é impossível ignorar a recente e acutilante intervenção digital de Ryan Cohen, CEO da GameStop. Numa reflexão que evoca os “homens ocos” de T.S. Eliot, Cohen descreve o que apelida de “insider sem risco”: uma classe parasitária de burocratas corporativos que capturou o capitalismo moderno. Para Cohen, a autoridade separou-se da responsabilidade; os gestores hoje apostam o capital alheio sem exporem o seu próprio património. Esta crítica à “economia de delegação” serve de alerta: enquanto o mercado se distrai com avaliações estratosféricas, a erosão do “espírito de proprietário” (owner’s mentality) cria uma fragilidade estrutural profunda. É mais uma camada de complexidade nesta nossa bolha, um grito pelo regresso ao logos da responsabilidade num oceano de mythos corporativo.
O verdadeiro desafio não é, portanto, vaticinar o momento exato do colapso, mas sim saber navegar o presente. E aqui a lição torna-se contraintuitiva: Precisamos de aprender a amar a bolha.
É humano discriminar uma bolha especulativa. Sabemos que estas fases estão repletas de delírios e que o seu desfecho penaliza severamente a economia e as poupanças. Por isso, a tendência é desejar que o mercado corrija rapidamente para regressarmos à “normalidade”. Porém, uma disciplina de investimento robusta não pode estar refém de um cenário apocalíptico, esperando por uma queda de 70% que traga os rácios de volta à terra. Se o mercado continuar a subir nesta espiral, o investidor deve possuir mecanismos que lhe permitam capturar essa valorização sem abdicar da proteção.
A adaptação tática é a chave. Ao calibrar a intensidade das posições defensivas face à tendência de alta, é possível beneficiar dos ganhos, mesmo quando a análise fundamental dita extrema cautela. Perante a irracionalidade atual, recordo-me de que não precisamos que os juros desçam ou que os défices desapareçam para encontrar valor. Como sugere o ensinamento budista citado por Hussman, “sem lama, não há lótus”.
Em vez de rejeitarmos o momento com o dogmatismo de um permabear (para usar o título do excelente novo livro de Jeremy Grantham), devemos cultivar as oportunidades que nascem no meio do “lixo especulativo”. Isto é, posicionarmo-nos como stock pickers que aproveitam as excentricidades do “Mr. Market” para identificar bons ativos a preços razoáveis.
Proteger o futuro das nossas carteiras exige uma rotura definitiva com o vício da previsão e um compromisso rigoroso com a gestão do presente. O imperativo para o investidor hoje é compreender que a gestão de risco não é o oposto do lucro, mas a sua condição de permanência. Devemos, por isso, habitar uma dualidade estratégica: Ter a agilidade necessária para acompanhar a tendência enquanto a música toca, mas ancorar cada decisão na lucidez de nunca acreditar em milagres.
No mercado atual, a humildade de seguir o preço deve ser sempre acompanhada pela disciplina de quem sabe que a orquestra toca à beira do abismo. No final, o sucesso não pertencerá aos que meramente vaticinaram o colapso, mas aos que souberam navegar a euforia com as ferramentas certas para sobreviver à sua inevitável correção.
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