A competitividade não é uma concessão à sustentabilidade

  • Luciana Macedo e Vera Morgado
  • 23 Setembro 2026

A verdadeira tensão não é entre sustentabilidade e competitividade, mas entre ambição e capacidade de implementação.

A transição energética europeia enfrenta um desafio que vai além das metas ou da tecnologia. A verdadeira tensão não é entre sustentabilidade e competitividade, mas entre ambição e capacidade de implementação. Porque a transição não parte de uma folha em branco.

Em 2024, o Relatório Draghi colocou a energia no centro da questão da competitividade europeia. A mensagem era simples: sem uma indústria competitiva, a Europa não conseguirá liderar a transição energética. Desde então, a União Europeia tem procurado reforçar a ligação entre descarbonização, energia e política industrial, nomeadamente através do Competitiveness Compass, do Clean Industrial Deal e do mais recente Industrial Accelerator Act, um dos principais mecanismos da sua implementação. Para a indústria, transformar essa ambição em investimento exige condições económicas, competências, infraestruturas e previsibilidade. Esta tensão é particularmente visível nos setores intensivos em energia e de difícil descarbonização como o cimento, o vidro, a cerâmica, o papel, a metalurgia e a indústria química. São atividades com ativos de longa duração, sujeitas a mercados com forte concorrência internacional e com processos difíceis de substituir.

A eletrificação tem um papel fundamental, mas não é a única resposta. Eficiência energética, recuperação de calor, combustíveis de baixo carbono, hidrogénio, captura e armazenamento de carbono e outras tecnologias podem fazer parte da solução. A questão é saber em que condições as empresas conseguem adotá-las. Grande parte da indústria europeia opera infraestruturas construídas ao longo de décadas, que não podem ser substituídas facilmente. Diminuir emissões significa, muitas vezes, transformar enquanto se continua a produzir.

Para muitas PME, financiar um estudo ou testar uma tecnologia pode ser tão determinante como financiar a solução final. Entre a investigação e o investimento industrial existe um espaço difícil: provar que uma solução funciona nas condições reais da indústria. Sem essa ponte, boas tecnologias podem não singrar.

Há ainda a questão da diferença de horizonte temporal. A indústria enfrenta, no curto prazo, custos elevados de energia, capital e infraestruturas. No médio e longo prazo, as tecnologias de baixo carbono podem tornar-se fatores de competitividade. O desafio político é, portanto, não só garantir quadros regulatórios estáveis, previsíveis e flexíveis, como também gerir o período de transição, garantindo que os custos de curto prazo não destruam a competitividade antes que os benefícios de longo prazo se materializem.

Descarbonizar a produção europeia perdendo-a para geografias com exigências ambientais menos rigorosas não resolve o problema climático. O risco não é só de carbon leakage, mas também de fuga de investimento para regiões que oferecem energia mais barata, incentivos mais acessíveis e maior previsibilidade regulatória. A competitividade não é, por isso, uma concessão feita à sustentabilidade: é uma condição para que a transformação aconteça na Europa.

A implementação exige mais do que tecnologia e financiamento. Exige capacidade para reduzir risco, partilhar conhecimento e criar escala. É aqui que alargar e apoiar as associações setoriais, clusters industriais e redes colaborativas é essencial: desenvolver projetos conjuntos, partilhar competências e infraestruturas e aproximar empresas, academia, centros tecnológicos, financiamento e decisores públicos. O princípio é fazer em conjunto aquilo para que cada empresa, isoladamente, não tem dimensão nem capacidade para assumir o risco.

Essa colaboração permite aproveitar o conhecimento industrial de quem sabe o que funciona em contexto real e garantir que esse conhecimento circula entre a academia, a indústria e a decisão pública.

A transição será competitiva se conseguirmos transformar ambição em investimento, conhecimento em implementação e colaboração em escala. E será sustentável se conseguirmos fazê-lo sem deixar pelo caminho a capacidade industrial necessária para a concretizar.

Nota: Esta é uma coluna fruto da parceria entre a Women in ESG Portugal e o Mulheres na Energia (Associação Portuguesa da Energia) para o ECO. Por meio deste canal pretendemos trazer conteúdos ligados ao ESG e Energia de forma descomplicada para a sociedade, na voz de mulheres, de gerações diferentes, que detêm expertise técnica na área.

  • Luciana Macedo
  • Especialista de Política Europeia em ESG e Economia Circular
  • Vera Morgado
  • Especialista em Finanças Sustentáveis e diretora de Finanças na Agovi Metalomecânica

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