A contabilidade que não se vê na guerra
O paradoxo contemporâneo é evidente: nunca falámos tanto de sustentabilidade e nunca gastámos tanto em destruição. Contratos e margens das empresas de defesa crescem, mas não respondem a uma pergunta.
Em 2025, a despesa militar mundial atingiu 2,887 mil milhões de dólares. Foi o 11.º ano consecutivo de crescimento. Este aumento representou uma carga militar de 2,5% do PIB global, o nível mais elevado desde 2009, segundo dados publicados pelo SIPRI em abril de 2026. A Europa aumentou a despesa em 14%, a Alemanha em 24% e a Espanha em 50%. Fora dos Estados Unidos, onde a despesa caiu devido à ausência de nova ajuda militar à Ucrânia, o crescimento global foi de 9,2%. E o SIPRI prevê que esta trajetória continue em 2026 (e nos anos seguintes).
No mesmo período, as primeiras empresas europeias abrangidas pela Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) publicaram os seus relatórios de sustentabilidade, comprometendo-se a medir emissões, biodiversidade, direitos humanos e impactos ao longo da cadeia de valor. Dois mundos avançam em simultâneo: o do armamento, que bate recordes, e o da responsabilidade corporativa, que nunca teve uma linguagem tão sofisticada. No centro de ambos está a contabilidade.
A nova definição proposta por Carnegie e coautores apresenta a contabilidade como uma prática técnica, social e moral, orientada para a utilização sustentável dos recursos e para a prestação de contas a múltiplos stakeholders. Ou seja, a contabilidade não é um registo neutro da realidade – é uma forma de decidir o que se torna visível, o que é quantificado, e o que permanece na sombra. E o que fica na sombra, quando se trata de despesa militar, é demasiado grande para ser ignorado.
A história mostra que esta escolha tem consequências duradouras: durante a Primeira Guerra Mundial, empresas alemãs, como a Daimler, acumularam reservas secretas para ocultar lucros extraordinários obtidos através de contratos militares. A prática era apresentada como simples “prudência contabilística”. Mas, em 1918, quando o jornal Vorwärts publicou uma tabela mostrando que os dividendos tinham subido de 8% em 1909 para 35% em 1916, a ficção da neutralidade contabilística desmoronou-se. Aquilo que parecia uma técnica prudente revelou-se um instrumento de legitimação de interesses privados em tempo de guerra.
Décadas mais tarde, as sanções económicas ao Iraque nos anos 90 repetiram o mesmo padrão. Thomas Pickering, então embaixador norte-americano na ONU, descreveu-as como medidas “precisas e não violentas”, uma alternativa racional à guerra. A lógica contabilística subjacente era aparentemente impecável: exercer pressão máxima sobre o adversário ao menor custo possível para quem executava a medida. Mas o resultado humano foi devastador. Segundo dados da UNICEF, morreram 1,2 milhões de pessoas, incluindo 5.500 crianças por mês com menos de cinco anos. Em 1996, quando Madeleine Albright, então embaixadora norte-americana na ONU, foi confrontada publicamente com a morte de meio milhão de crianças, respondeu que “o preço valia a pena”.
No artigo Accounting for War, Chwastiak e Lehman argumentam que esta frieza só é possível quando o sistema de reporte que orienta decisão, receita, custo, risco e margem não tem espaço para o valor de vidas humanas. A contabilidade não matou essas pessoas, mas falhou ao não as tornar relevantes para a decisão. As sanções e os custos associados aparecem nas contas como instrumento de política externa. E as vidas perdidas não aparecem.
Este problema permanece atual. Em 2025, as maiores empresas europeias da indústria militar e de defesa publicaram os seus primeiros relatórios ao abrigo da CSRD. Reportaram aumentos de resultados de dois dígitos e apresentaram informação detalhada sobre emissões de CO₂. Na maioria dos casos, classificaram o impacto na biodiversidade como não material. Algumas identificaram riscos de trabalho forçado e trabalho infantil na cadeia de valor, sobretudo associados a matérias-primas. Mas o número de vidas destruídas por guerras e conflitos armados não é reportado. De acordo com o Índice de Conflito da ACLED, em 2025 morreram 240 mil pessoas em conflitos armados.
O paradoxo contemporâneo é evidente: nunca falámos tanto de sustentabilidade e nunca gastámos tanto em destruição. O SIPRI estima que as emissões militares representam entre 3,3% e 7,0% das emissões globais de gases com efeito de estufa. Os conflitos na Ucrânia, em Gaza e no Sudão destroem infraestruturas, contaminam solos, degradam ecossistemas e deixam marcas que durarão décadas. Ao mesmo tempo, o plano europeu “Readiness 2030” (anterior ReArm Europe), prevê mobilizar mais de 800 mil milhões de euros em despesa de defesa.
Os contratos multiplicam-se. As margens crescem. E as mesmas empresas que beneficiam deste ciclo publicam relatórios de sustentabilidade cada vez mais sofisticados, mas sem responder à pergunta que qualquer leitor atento aos inevitavelmente faz: como é que os vossos sistemas de armas afetam as infraestruturas, os solos, o ar e as populações nos territórios onde são utilizados?
A questão central não é se a defesa pode ser sustentável, sendo que a segurança pode ser condição do florescimento humano; a questão é outra: se uma empresa reporta direitos humanos na cadeia de valor, que respostas deve dar sobre os utilizadores finais dos seus produtos em zonas de conflito? Se um fundo ESG investe em defesa, que critérios usa para distinguir armamento defensivo de sistemas vendidos a regimes que reprimem populações civis? Se a biodiversidade é material quando uma fábrica polui um rio, porque deixa de o ser quando uma bomba destrói um território inteiro? Está a contabilidade a cumprir a sua função social e moral, ou está a ser usada para higienizar a economia da guerra com a linguagem da responsabilidade?
Há uma palavra para o que acontece quando uma disciplina com autoridade técnica decide sistematicamente o que conta e o que não conta, o que é visível e o que permanece na sombra: não é neutralidade, é poder. A contabilidade exerce-o todos os dias. Reconhecer a contabilidade como prática moral, como Carnegie et al. propõem, não é uma posição académica, é uma exigência de honestidade democrática. Ao escolher o que reportar, escolhemos também o que a sociedade consegue ver — e o que é forçada a ignorar. É importante repensar o sustainability reporting, para evitar que se torne aquilo que prometia combater: uma linguagem respeitável para tornar aceitável o inaceitável.
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