Editorial

A economia portuguesa anda sem cinto de segurança?

Ao fim de dois anos de governação, uma maioria de portugueses vive hoje com mais rendimento disponível, mas a economia portuguesa, do ponto de vista estrutural, continua praticamente no mesmo sítio.

Corria o início do ano de 2014 quando Luís Montenegro, então líder parlamentar do PSD, fez uma afirmação que lhe ficou colada à pele. “A vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor”, dizia, justificando os resultados de anos de sacrifício e austeridade impostos pela bancarrota do país a que nos conduziu o Governo de Sócrates em 2011. Passados dois anos de governação – e dois governos –, a realidade parece ter virado do avesso. Ironicamente, muitos portugueses estão hoje melhor do que estavam quando Montenegro tomou posse, mas a economia portuguesa, do ponto de vista estrutural, continua praticamente no mesmo sítio.

A avaliação política e económica destes dois anos surge, para o Governo, no pior dos momentos, quando nos entram pela casa dentro as notícias sobre o aumento do custo de vida provocado pelo ataque dos EUA e Israel ao Irão e pela escalada da guerra aos países do Golfo. Os combustíveis aumentam, mesmo com o apoio ao ISP, o cabaz dos preços acelera para níveis históricos, e antecipa-se um abrandamento da economia e o regresso do défice público para responder às necessidades dos agentes económicos, as famílias e as empresas, depois de um excedente em 2025 que superou todas as previsões. Mas este quadro não nos pode limitar a análise, nem deve servir para por ideologia, ou ignorância, nas conclusões.

Há uma caricatura preguiçosa a instalar-se no comentário televisivo. A de que, em Portugal, só está melhor quem recebe dividendos, tem ações em bolsa ou vive do capital, e a Galp, por ser uma petrolífera, surge à cabeça, mas também as grandes empresas de retalho alimentar. É uma tese sedutora para quem prefere o reflexo ideológico ao trabalho de olhar para os dados, reforçada até por esta notícia de fim de semana de que o Governo quer avançar para um imposto temporário sobre os lucros extraordinários das empresas de energia. Mas é uma tese errada.

A maioria dos portugueses está hoje, em média, materialmente melhor do que estava há dois anos. Não porque o país tenha feito uma reforma económica de fundo, não fez (e continuamos à espera da famosa reforma do Estado, a ‘mãe’ de todas as reformas). Mas porque houve uma combinação favorável de salários reais a subir, inflação a descer, mercado de trabalho resiliente, aumentos do salário mínimo, atualizações de pensões e alívio fiscal para parte relevante dos contribuintes, e uma revisão de carreiras para centenas de milhar de funcionários públicos. O Banco de Portugal estimou que o rendimento disponível real das famílias cresceu 7,8% em 2024 e continuaria a aumentar em 2025. A OCDE, já em janeiro de 2026, voltou a sublinhar emprego elevado e crescimento dos salários reais em Portugal.

Mas estes dois anos tem também o outro lado da moeda. Há três grupos de portugueses que estarão hoje a viver em maiores dificuldades, e sobretudo na sequência do aumento galopante dos preços da habitação. Por um lado, os jovens que estão a iniciar a sua vida ativa têm uma enorme dificuldade em acederem a uma casa, seja na aquisição ou arrendamento, a preços adequados ao salário de entrada. Ainda há dias, o Banco de Portugal revelava que em Lisboa, comprar casa exige 102% do salário mediano. Leu bem. Cento e dois por cento. Isso significa que, para uma família com rendimentos medianos, comprar uma casa na capital implica gastar mais do que se recebe. E no Porto, atinge os 84%. Depois, estarão hoje em pior situação os que têm contratos de arrendamento que terminaram neste período e que os renovaram, seguramente a um valor bem mais pesado e a comer mais rendimento. Finalmente, os que são atingidos pela fatalidade de um dos três ‘D’: Desemprego, doença ou divórcio.

Portanto, os portugueses estão, na sua maioria, em melhor condição financeira, com mais rendimento disponível, do que estavam há dois anos. Mas este retrato não esgota a análise. O ponto está em perceber que melhoria foi esta. Foi, sobretudo, uma melhoria conjuntural e distributiva, e não uma transformação estrutural. O consumo aguentou-se porque o rendimento real subiu, o turismo continua a ser um ‘maná’ e o investimento público e parte do impulso económico continuam muito ligados à execução dos fundos europeus e em particular do PRR. Em suma, o país navegou bem, mas muito à boleia de vento externo e de medidas que aliviam o presente sem mudarem a economia do ponto de vista estrutural.

Luís Montenegro fez divulgar este fim de semana um vídeo a assinalar (celebrar?) os dois anos de governação e é literalmente apanhado sem cinto de segurança. É caso para perguntar se a economia portuguesa não anda, ela própria, sem cinto.

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