A Europa está a apostar na defesa. Mas está a investir no sítio errado

  • André Godinho Luz
  • 18 Maio 2026

Europa perdeu liderança industrial em setores chave e continua fragmentada em áreas críticas. Tenta compensar atraso com investimento em defesa, mas sem assegurar o domínio da tecnologia.

A Europa acordou tarde para a defesa, e agora corre o risco de repetir o erro. Perante uma nova realidade geopolítica e um menor envolvimento dos Estados Unidos, a resposta tem sido previsível: aumentar o investimento militar. Mas há uma questão que poucos colocam de forma direta: investir em defesa, sem controlar a base tecnológica que a sustenta, resolve realmente o problema?

A resposta é não.

A verdadeira transformação não está nos sistemas de defesa em si. Está na forma como esses sistemas são concebidos, operados e continuamente melhorados. E essa transformação tem um nome: IA física.

Estamos a assistir a uma mudança estrutural na inteligência artificial. O software tradicional está a ser substituído por agentes de IA capazes de executar tarefas e tomar decisões. Ainda dependem de supervisão humana, mas essa dependência é transitória. À medida que estes sistemas se ligam ao mundo físico — a máquinas, infraestruturas e operações — ganham contexto, limites e capacidade real de atuação.

É aqui que a IA deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma infraestrutura. O elemento central desta nova arquitetura é o gémeo digital: uma réplica virtual, em 3D e em tempo real, do mundo físico, construída através da fusão contínua de dados com modelos tridimensionais. É neste ambiente que a IA opera, testa decisões e aprende. Não num espaço abstrato, mas com base nos constrangimentos reais de sistemas físicos.

Na prática, isto significa que a IA passa a compreender o impacto das suas ações antes de as executar. E, com isso, a necessidade de supervisão humana começa a desaparecer. Este modelo não é teórico. Está já a emergir em contexto real.

A Europa não precisa apenas de mais orçamento militar. Precisa de uma estratégia industrial e tecnológica coerente. E essa estratégia tem de começar onde tudo converge: na IA física.

A guerra na Ucrânia tornou evidente que a superioridade militar deixou de depender apenas de equipamento. Depende da capacidade de integrar informação, adaptar sistemas em tempo real e coordenar múltiplos ativos — drones, sistemas autónomos, sensores — com base em dados atualizados continuamente. A NATO reconhece isto ao colocar a “superioridade na decisão” no centro da sua estratégia.

Mas há um detalhe crítico que muitas vezes é ignorado: esta nova geração de sistemas exige uma capacidade computacional massiva. O modelo asset-light das empresas de software deixou de ser viável. Hoje, quem não garantir acesso a infraestrutura de data centers simplesmente não consegue competir.

E é aqui que a Europa volta a estar em desvantagem.

Perdeu liderança industrial em setores chave, como o automóvel, e continua fragmentada em áreas críticas. Agora, tenta compensar esse atraso com investimento em defesa, mas sem assegurar o domínio da tecnologia que irá definir essa mesma defesa.

O resultado é previsível: dependência.

A Europa não precisa apenas de mais orçamento militar. Precisa de uma estratégia industrial e tecnológica coerente. E essa estratégia tem de começar onde tudo converge: na IA física. Porque dominar esta camada significa dominar simultaneamente três frentes:

  • Os sistemas de combate do futuro;
  • A nova geração de indústria, mais flexível, modular e escalável;
  • E a evolução da própria inteligência artificial.

Ao contrário do que aconteceu noutras revoluções tecnológicas, esta não parte do zero. A IA física exige exatamente aquilo em que a Europa ainda é forte: engenharia, indústria e capacidade de integrar sistemas complexos. Mas essa vantagem só será relevante se houver foco.

Criar campeões europeus nesta área não é uma ambição, é uma necessidade estratégica. Sem isso, a Europa continuará a investir em sistemas que outros controlam.

O debate atual está mal colocado. A questão não é quanto investir em defesa. É decidir onde investir para não precisar de correr atrás mais uma vez. A Europa ainda vai a tempo. Mas desta vez, o erro não será por falta de aviso.

  • André Godinho Luz
  • Fundador e CEO da Infinite Foundry

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