A formação em matéria de IA: ‘what’s in for me?’

  • Cristina Romariz
  • 1 Abril 2026

É importante reconhecer que, numa mesma empresa, podem coexistir diferentes perspetivas e expectativas relativamente à IA, bem como distintos níveis de maturidade e de utilização dessa tecnologia.

Um dos grandes entraves à tão anunciada revolução da Inteligência Artificial (IA) não reside na tecnologia, mas sim no humano. Embora as ferramentas estejam já desenvolvidas e acessíveis, trabalhadores e empresas enfrentam o desafio não só de aprender a utilizá-las, mas também de encontrar formas de se adaptar à convivência com as mesmas. Esta transição traz à superfície questões que ultrapassam largamente o âmbito tecnológico, ao tocar em temas fundamentais como a formação, a cultura empresarial, os direitos laborais e o próprio sentido do trabalho na sociedade contemporânea.

Com efeito, a ansiedade pela eventual obsolescência laboral e a sensação de desadaptação tecnológica podem levar a situações de stress, de perda de autoestima profissional e de tensão na relação de trabalho, o que dificulta a integração e o aproveitamento da IA quer pelos trabalhadores, quer pelo empregador.

O que fazer?

Num contexto de transição digital e de transformação das competências profissionais a uma escala e velocidade sem precedentes, torna-se essencial investir na capacitação dos trabalhadores em IA. Este processo formativo e, muitas vezes, de requalificação – ou reskilling – visa, desde logo, capacitar os trabalhadores para a utilização desta nova tecnologia, mas também habilitá-los a assumir novas funções, diferentes das que atualmente desempenham, eventualmente mais alinhadas com as exigências de um mercado em constante evolução.

O Regulamento da IA impõe, já desde fevereiro de 2025, que o utilizador desta tecnologia assegure literacia no domínio da IA, relativamente a quem a utiliza em seu nome e aos que sejam por ela visados. Desta forma, reconhece-se a essencialidade do conhecimento para uma IA de confiança. Sem prejuízo de a proposta do Digital Omnibus em matéria de IA pretender eliminar aquela obrigação direta de dar formação, substituindo-a por um mandato institucional à Comissão Europeia e aos Estados-membros no sentido de fomentarem essa literacia, a formação nesta matéria ultrapassa (em muito) o mero cumprimento de uma obrigação legal.

Por um lado, é do interesse das empresas em transição digital assegurar que os profissionais sejam agentes ativos na transformação que vai (espera-se) gerar valor; e, por outro lado, a falta de formação adequada expõe as empresas a riscos significativos, seja no plano reputacional, operacional ou de compliance, especialmente no contexto de uma utilização inadequada da IA.

Na verdade, bem vistas as coisas, a formação é uma prioridade estratégica tanto para empregadores, como para trabalhadores.

Esta capacitação em matéria de IA não se materializa, no entanto, numa formação padrão que possa ser replicada indiscriminadamente, sem considerar as especificidades dos trabalhadores em questão. É um trabalho de “alfaiataria formativa”, e não um “pronto-a-vestir”. Cada empresa deve realizar um diagnóstico personalizado das necessidades à luz das ferramentas de IA já existentes e das prospetivas, bem como dos respetivos usos e contextos de utilização.

Acresce que a personalização da formação deve ser concebida de forma a abordar os diversos interlocutores dentro da organização. É importante reconhecer que, numa mesma empresa, podem coexistir diferentes perspetivas e expectativas relativamente à IA, bem como distintos níveis de maturidade e de utilização dessa tecnologia.

Num cenário de mudança acelerada, as empresas têm de encarar o investimento na formação e requalificação dos trabalhadores como um desígnio. Só assim conseguirão fomentar a inovação, reforçar a competitividade, reter talento e melhorar a produtividade e a eficiência. Por outro lado, os trabalhadores não devem cair na ilusão de competir com a IA: a verdadeira concorrência ocorrerá entre aqueles que sabem utilizá-la e os que não sabem. O conhecimento em matéria de IA pode vir a ser, a breve prazo, uma questão de “sobrevivência laboral”.

  • Cristina Romariz
  • Advogada da Cuatrecasas

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

A formação em matéria de IA: ‘what’s in for me?’

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião