A fronteira da incompetência
As companhias aéreas têm interesses próprios quando pedem a suspensão do sistema durante o verão, mas o facto de terem interesses não elimina o problema.
O caos nos aeroportos portugueses não é apenas uma falha técnica, é uma falha de preparação, de comando e de execução pública num ponto crítico da economia nacional, precisamente quando Portugal diz querer aumentar o valor do turismo e qualificar a experiência de quem visita o país.
O novo Sistema de Entrada e Saída, que recolhe dados biométricos de cidadãos de países terceiros nas fronteiras externas da União Europeia, não apareceu de surpresa. A aplicação progressiva começou em outubro de 2025, as dificuldades eram previsíveis e o aeroporto de Lisboa já funcionava no limite antes de lhe ser acrescentada mais uma camada de complexidade operacional.
Quando se junta mais tempo por passageiro, obras em áreas operacionais, falhas informáticas, falta de capacidade física, recursos humanos insuficientes e picos de tráfego concentrados, o resultado não é azar, é simplesmente má preparação. A crise estava anunciada e o Estado não se preparou a tempo.
O Governo pode invocar o cumprimento das regras europeias, e deve cumpri-las, mas segurança e funcionamento não são objetivos incompatíveis. O problema económico é evidente. Portugal depende muito do turismo, mas já percebeu que não pode viver apenas de volume. Quer mais valor por visitante, mais congressos, mais investimento, mais turismo qualificado, mais receita e menos pressão sobre os territórios. Nada disso é compatível com uma primeira experiência de espera, improviso e desorganização logo à chegada.
As companhias aéreas têm interesses próprios quando pedem a suspensão do sistema durante o verão, mas o facto de terem interesses não elimina o problema. Cada fila excessiva tem um custo económico para os passageiros, para os hotéis, para os operadores, para os eventos, para as empresas e para a imagem externa do país.
O reforço prometido, com mais boxes, mais e-gates e mais de 300 elementos da PSP a partir de julho, é urgente, mas como é que foi possível chegar até aqui e quem vai responder politicamente por este desastre? Se era preciso reforçar meios em julho, era porque a pressão já era previsível em maio. Se a infraestrutura de Lisboa estava limitada, era porque o risco operacional já estava identificado e se o turismo é estratégico, a fronteira aérea não pode ser tratada como um problema administrativo menor.
O aeroporto é hoje a porta de entrada da economia turística e se falha ali, como está a falhar de forma clamorosa, falha a promessa de valor. Se o turismo de valor começa na fronteira, Luís Montenegro não deve deixar este dossiê entregue à gestão defensiva de ministérios e serviços, tem de assumir diretamente a coordenação política do problema, exigir metas diárias de espera, publicar resultados e responsabilizar a cadeia de decisão.
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