A IA não vai substituir advogados. Vai exigir melhores advogados

  • Francisco Costa
  • 2 Julho 2026

A IA não tem a ‘humildade’ de dizer que não sabe e acaba por ser muito persuasiva na sua ‘ignorância’.

Há um paradoxo na adoção da IA pelos advogados: a ferramenta promete devolver tempo, mas a IA generalista acaba por consumi-lo. O tempo poupado a redigir e pesquisar é gasto a inspecionar o que a máquina fez. Uma IA em que não confiamos não é uma ajuda – é mais uma tarefa. A IA não tem a ‘humildade’ de dizer que não sabe e acaba por ser muito persuasiva na sua ‘ignorância’. Os sucessivos ‘tens toda a razão’ quando confrontada com um erro, deitam por terra toda a confiança que deveria aspirar.

E a confiança nasce de duas coisas: dados e transparência. A IA generalista é demasiado genérica porque está desligada do conhecimento de quem a usa. Cada escritório guarda um diamante em bruto – pareceres, contratos, precedentes – mas ligar a IA a esse acervo não chega. É preciso polir o diamante antes de o usar. Dados jurídicos em bruto induzem em erro, existe informação contraditória, desatualizada e dispersa. Só um pré-processamento com uma modelação rigorosa transforma conhecimento disperso em respostas fiáveis e plausíveis.

Depois há a segurança. O boom da IA democratizou o desenvolvimento de software e o mercado encheu-se de soluções. Mas nem todas foram desenvolvidas para um contexto em que o sigilo profissional é um dever absoluto. A utilização destas ferramentas representa um risco inaceitável para o advogado e para os seus clientes. Num escritório de advogados, uma ferramenta de IA sem certificação de segurança não é inovação: é risco operacional, reputacional e deontológico. É por isso que uma certificação como a ISO 27001 deixa de ser um detalhe técnico para se tornar um requisito obrigatório.

Mas o verdadeiro salto não está em pedir textos à IA. Resumo de documentos, pesquisa de jurisprudência ou elaboração de peças faz já parte do dia a dia de uma grande parte dos profissionais jurídicos. A questão já não é se a inteligência artificial será utilizada na advocacia, mas sim como será integrada nos processos de trabalho. Agora é preciso mais e a resposta está nos muito falados workflows. Com a rápida adoção da IA nasceu uma forma de trabalhar fragmentada, feita de cortes e recortes até se chegar ao resultado pretendido e sem possibilidade de colaboração pelas equipas. O valor agora está em automatizar o trabalho operacional de ponta a ponta: processos de imigração, transações imobiliárias ou recuperação de crédito podem correr de forma quase autónoma, desde a análise documental até às minutas finais. São dezenas de horas devolvidas, todos os dias, ao que de maior valor um profissional jurídico pode fazer – pensamento crítico e o contacto com o cliente.

A IA não torna os advogados dispensáveis. Muito pelo contrário, torna-os mais exigidos. O mercado vai pedir eficiência extrema, e ter acesso a uma ferramenta não chega – é preciso saber usá-la. Os advogados não são engenheiros, nem querem ser. Querem ser utilizadores de bons workflows, não construtores. A vantagem competitiva deixará de estar em quem tem acesso à IA — porque todos terão — e passará para quem souber utilizá-la melhor. Por isso vemos crescer uma nova classe de advogados híbridos, apelidados de Legal Engineers, que juntam o saber jurídico ao know-how de automatização com IA.

Num mercado onde as ferramentas tendem a aproximar-se em funcionalidades, o verdadeiro fator diferenciador passa a ser a qualidade da implementação, da formação e do suporte prestado aos utilizadores. Um advogado não pode esperar semanas por uma resposta quando um processo está em curso. A rapidez na resolução de problemas técnicos é hoje parte integrante da experiência de utilização de qualquer plataforma jurídica baseada em IA. Na Mowly, temos procurado responder a esse desafio através de um modelo de suporte em tempo real, precisamente porque acreditamos que a tecnologia só cria valor quando acompanha o ritmo da profissão.

O futuro da advocacia não será decidido pela inteligência artificial. Será decidido pela inteligência humana que souber utilizá-la com rigor, espírito crítico e responsabilidade. A IA não substitui o julgamento jurídico, a ética nem a confiança. Mas está a redefinir a forma como os melhores advogados trabalham. E essa transformação já começou.

  • Francisco Costa
  • Cofundador da Mowly

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