A IA precisa de jornalismo, mas não o financia
A mudança na economia da informação depende das empresas jornalísticas e dos próprios jornalistas, mas depende em igual proporção das escolhas de leitores e dos investidores comerciais.
A Inteligência Artificial é uma oportunidade demasiado importante para ser discutida como se houvesse apenas dois campos, os entusiastas sem reservas e os defensores de um mundo que já não volta. O ponto decisivo não é esse, é saber se a nova economia da informação será construída sobre inovação, contratos e responsabilidade, ou sobre a captura gratuita do trabalho que outros pagaram para produzir.
No ECO não temos dúvidas sobre onde ficamos neste debate. A IA já entrou no ECO, está a entrar nas redações, vai mudar profissões, vai alterar modelos de negócio e vai permitir mais jornalismo, melhor investigação, o tratamento de mais dados e a inovação editorial. Já estamos e queremos usar ainda mais a tecnologia, e queremos usá-la bem, porque as redações que souberem fazê-lo terão uma vantagem efetiva sobre as que ficarem à espera. E do ponto de vista editorial, definimos há muito que é uma prioridade, com a criação da marca .IA, um projeto editorial (liderado por Flávio Nunes) que envolve mais de uma dezena de parceiros, e um knowledge partner como o INESC e o professor Arlindo Oliveira.
Dito isto, usar bem a IA não é o mesmo que aceitar a ficção económica que a sustenta. É essa a distinção que A. G. Sulzberger, publisher do New York Times, desenvolve no ensaio que publicou há dias e que merece ser lido com atenção por qualquer pessoa que se preocupe com a qualidade da informação, e com a economia que a suporta.
O ensaio não é uma peça contra a tecnologia, mas um aviso contra uma certa economia da informação e da tecnologia, a que existe hoje. No ECO, somos entusiastas da Inteligência Artificial e do que isso significa em termos de jornalismo aumentado (é assim que lhe chamo). Atualizamos o nosso Estatuto Editorial para refletir essa realidade e pagamos pela utilização das plataformas que a desenvolveram, porque acreditamos que quem usa valor alheio para criar valor próprio tem de o fazer com contrato.
É exatamente por isso que sabemos do que estamos a falar quando dizemos que o modelo dominante da indústria não funciona assim. As empresas que desenvolvem a Inteligência Artificial pagam o capital a que acedem, e é muito, pagam talento, pagam semicondutores, pagam centros de dados e pagam energia. Quando chegam à informação, a linguagem muda e o jornalismo, as notícias, as reportagens, a edição, a verificação, o arquivo e a análise passam a ser tratados como “dados”, uma palavra que parece neutra, mas serve para transformar trabalho humano qualificado e caro numa commodity invisível e gratuita. Sulzberger estima que menos de 0,5% do investimento privado em IA nos Estados Unidos remunera quem produziu os conteúdos que alimentam os modelos, num setor com uma capitalização combinada que ultrapassou os onze biliões de dólares. Na Europa os números serão ainda mais avassaladores.
Não é a primeira vez que o jornalismo enfrenta uma transferência de valor deste tipo. Na primeira, a internet já tinha transferido uma parte do valor dos publishers para as plataformas. A publicidade migrou, os algoritmos passaram a controlar a distribuição e os jornais ficaram dependentes de intermediários que não tinham produzido uma linha. Ainda assim, havia uma troca, mesmo que assimétrica, porque as plataformas ficavam com a receita, mas enviavam tráfego e sobretudo leitores. A IA generativa desfaz essa troca.
Hoje, o utilizador obtém uma resposta direta e muitas vezes não chega à fonte original, o que significa que a plataforma passa a capturar também a relação com o leitor (que na verdade deixa de o ser, para ser consumidor), não apenas a publicidade. E a apropriação vai mais longe do que os ditos “dados”. As grandes empresas de tecnologia andam a contratar jornalistas para ensinarem os modelos a responder com critérios editoriais, a reproduzir a linguagem da verificação, a simular a hierarquia noticiosa. Não querem apenas as notícias, querem a aparência de credibilidade que o jornalismo construiu ao longo de décadas, sem assumir os custos, os riscos ou as responsabilidades que essa credibilidade exige. É uma forma de apropriação mais subtil e por isso mais difícil de combater. Mas se querem concorrer com o jornalismo, façam jornalismo próprio, sem se apropriarem do jornalismo alheio, e aí seremos os primeiros a defender a concorrência, mesmo de gigantes como a Open AI ou a Anthropic.
Para um jornal como o ECO, que opera num mercado pequeno e numa língua com uma escala limitada, a assimetria é ainda mais severa do que para um grande grupo global. Não temos a escala para financiar litígios nem para impor condições em negociações onde o outro lado mede o poder em biliões. Se o jornalismo económico em português for tratado como matéria-prima gratuita, o dano é concreto e traduz-se em menos jornalistas, menos investigação e menos escrutínio de governos e empresas e de decisões que afetam diretamente os nossos leitores. No ECO, investimos há dez anos em jornalismo e em jornalistas, porque, como ouvi num qualquer encontro internacional há uns anos, “if we want to sell journalism, we have to do journalism”.
E é aqui que queremos ser exigentes com quem nos lê e com quem investe no mercado de comunicação social em Portugal. Os leitores do ECO tomam decisões com base em informação verificada, contextualizada e assinada por jornalistas que respondem pelo que escrevem. A cadeia de responsabilidades no jornalismo não é um dado adquirido e pode desaparecer de forma gradual e quase imperceptível, sem que ninguém declare o seu fim. Os jornalistas cometem erros, somos também responsáveis pelo estado a que chegámos, mas no fim do dia, os leitores podem pedir explicações, podem exigir, sabem quem está por detrás das decisões editoriais. A quem pedirão explicações se dependerem exclusivamente das plataformas que, por este caminho, nos substituirão?
Os anunciantes e investidores comerciais que preferem as plataformas globais aos meios locais fazem uma escolha com consequências que vão muito além do retorno imediato de uma campanha. Estarão a contribuir para concentrar ainda mais poder de distribuição e de agenda nas mãos de quem não produz informação, não responde perante leitores e não tem qualquer incentivo para manter relevante o jornalismo que, por ser um fator de confiança, torna os seus produtos mais credíveis. Quem financia exclusivamente as plataformas está, afinal, a financiar a sua própria dependência a prazo. Com um resultado previsível para os próprios, só não vê quem não quer.
É por isso que esta não é apenas uma questão de modelo de negócio. Quem acredita numa economia de mercado aberta e competitiva deveria ser especialmente exigente com ela. A propriedade intelectual não é um resquício burocrático de um mundo analógico, mas uma das ferramentas que permite transformar a criatividade, o conhecimento e o risco em investimento sustentável. A inovação não pode ser o sinónimo de licença para capturar trabalho alheio sem consentimento, sem atribuição e sem remuneração, a escala não substitui contratos e a velocidade que a IA traz não dispensa a responsabilidade, menos ainda a ética.
Neste contexto, nesta relação de forças, a mudança na economia da informação depende das empresas jornalísticas e dos próprios jornalistas, mas depende em igual proporção das escolhas de leitores e dos investidores comerciais, para que o modelo que sustenta este mercado respeite as mesmas regras que exigimos a qualquer outro.
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