A liturgia dos 2% e a heresia silenciada em Sintra no Fórum do BCE

Lagarde e banqueiros de todo o mundo vão discutir a economia em Sintra como se a política monetária fosse uma ciência exata, mas esquecem-se alegremente que o seu grande dogma nasceu de um palpite.

Esta segunda-feira, a elite mundial do dinheiro fecha-se na serra de Sintra. Durante três dias, Christine Lagarde, o recém-chegado patrão da Reserva Federal norte-americana (Fed), Kevin Warsh, e os restantes cardeais da política monetária vão debater a inteligência artificial, o comércio global e o futuro da Europa com a solenidade de quem guarda os grandes segredos do universo.

Mas o verdadeiro elefante nos sumptuosos salões do Fórum do BCE não consta no programa oficial. É que nenhum destes banqueiros centrais terá a audácia de perguntar em voz alta por que raio continuam a sacrificar os nossos créditos à habitação e o crescimento da economia em nome de uma meta de inflação de 2%. Um número intocável que, ao contrário do que se tenta vender, não resultou de nenhum modelo matemático brilhante, não foi desenhado por prémios Nobel, mas nasceu de um mero palpite atirado ao ar na televisão da Nova Zelândia, numa sexta-feira de 1988.

A urgência de desmontar este dogma não é apenas académica, é dolorosamente real na carteira das famílias. Há umas semanas, o BCE voltou a subir as taxas de juro diretoras em 25 pontos base, colocando a taxa de depósitos nos 2,25%, perante uma inflação na Zona Euro que insiste em escalar para os 3% este ano. Muito acima, portanto, da tal meta sagrada.

Do outro lado do Atlântico, dias depois da decisão do BCE, a Fed de Kevin Warsh decidiu manter os juros no intervalo 3,5%-3,75%, amarrada ao mesmo objetivo. Na prática, a máquina global continua a apertar o cinto ao consumo e ao investimento para perseguir um farol que tem uma origem rocambolesca.

Para perceber o absurdo, é preciso recuar até 1 de abril de 1988 (Dia das Mentiras). A Nova Zelândia tentava domar uma inflação que roçava os 15% no ano anterior. O ministro das Finanças, Roger Douglas, foi à televisão e, pressionado a definir o que seria um valor aceitável, respondeu que gostaria de ver os preços a subir “entre zero e 1%”. Não havia retaguarda científica. Foi, segundo admitiria mais tarde o próprio governador do banco central neozelandês, Don Brash, “quase uma observação casual” para tentar influenciar as expectativas da população.

Ao longo dos anos, a natureza ‘conspirou’ para validar um palpite televisivo do ministro neozelandês. A ilusão foi tão perfeita que as elites económicas assumiram que os 2% eram uma lei indiscutível da política monetária.

Contudo, uma vez proferida na televisão por um ministro, a frase tornou-se lei. A equipa de Don Brash pegou naquele intervalo e somou-lhe uma pequena margem (cerca de 1%), assumindo que os índices de preços tendem a sobrestimar a inflação real por não capturarem totalmente a melhoria tecnológica dos produtos. O teto de 1% virou 2%. Em dezembro de 1989, o parlamento neozelandês aprovou o objetivo. O mecanismo funcionou de forma tão espetacular — a inflação caiu para a meta logo em 1991 — que o Canadá e o Reino Unido copiaram a ideia.

O que se seguiu ajudou a cimentar a ilusão. Durante os anos da década de 1990 e grande parte dos anos 2000, o mundo viveu o período da “Grande Moderação”. Graças à globalização, à mão de obra barata da Ásia e aos saltos tecnológicos, a inflação ficou colada aos 2% quase por inércia.

A natureza conspirou para validar o palpite televisivo. A ilusão foi tão perfeita que as elites económicas assumiram que os 2% eram uma lei indiscutível da política monetária. Claro que, com o tempo, o dogma precisou de ser vestido com fatos académicos. Criaram-se justificações técnicas à posteriori.

  • A primeira foi a almofada contra a deflação (a queda generalizada dos preços), que paralisa o investimento e destrói emprego.
  • A segunda foi o espaço de manobra das taxas de juro: se a economia arrefece, o banco central tem de baixar a taxa de juro para baratear o crédito. O problema é que a taxa não pode descer muito abaixo de zero, é o chamado “limite inferior zero”. Ter uma inflação habitual de 2% permite que as taxas de juro em tempos normais rondem os 4%, dando uma margem de travagem de 4 pontos percentuais antes de o banco central bater na parede do zero.
  • A terceira foi o “casamento” com a célebre Regra de Taylor, uma equação de 1993 que descreve como calibrar as taxas de juro e que, convenientemente, assumia um equilíbrio exato nos 2%.

Ainda assim, a Reserva Federal dos EUA demorou décadas a assumir a paternidade do número em público. Alan Greenspan escondia-o como um segredo de Estado, e só em janeiro de 2012, sob Ben Bernanke, o objetivo foi assumido abertamente. Na Europa, o BCE operou durante anos com uma meta confusa (“abaixo, mas próximo de 2%”), e apenas em julho de 2021 instituiu uma meta simétrica e cravada nos exatos 2%, por considerar “que a melhor forma de manter a estabilidade dos preços é fixar como objetivo uma inflação de 2 % a médio prazo.”

A crise financeira de 2008 e o terror pandémico abriram fissuras profundas nesta onda de certezas absolutas. Olivier Blanchard, ex-economista-chefe do FMI, atirou a primeira pedra em 2010 ao sugerir que a meta de inflação deveria ser de 4% para dar verdadeiro espaço de manobra aos bancos centrais.

O economista Laurence Ball provou em 2014 que os danos sociais de bater no fundo das taxas de juro são muito superiores ao incómodo de ter uma inflação ligeiramente mais alta. Lawrence Summers juntou-se ao coro em 2017 num paper em co-autoria com Blanchard, alertando que o mundo sofre de “estagnação secular” uma tendência estrutural que esmaga o crescimento e que torna os parcos 2% numa amarra perigosa para as economias desenvolvidas.

Em economia, a legitimidade nem sempre nasce do rigor das equações, mas da força do hábito. O problema é que o mundo já mudou, e a nossa carteira continua refém de um hábito nascido na década de 1980, numa televisão do outro lado do mundo.

Do lado oposto, os guardiões do templo acenam sempre com a mesma carta: a credibilidade. Mudar a regra a meio do jogo destruiria a confiança dos mercados. E, de certa forma, o recente choque inflacionista deu-lhes um balão de oxigénio.

Quando os preços explodiram entre 2021 e 2023, as expectativas a longo prazo não descarrilaram precisamente porque todos acreditavam que Lagarde e os seus pares fariam o que fosse preciso para voltar à meta.

Em junho do ano passado, a presidente do BCE subiu ao palco em Sintra para assinalar que a inflação tinha acabado de tocar nos tão desejados 2%, declarando que a “meta foi atingida”, ainda que avisasse que a missão não estava completa. Um ano depois, o BCE sobe juros perante a subida da inflação aos 3%, impulsionada por disrupções nas cadeias de abastecimento e guerras tarifárias. Um castigo autoimposto.

Há, no entanto, uma ironia suprema que não fará parte dos elegantes discursos do conclave de Sintra. É que o país que inventou a meta original, a Nova Zelândia, já a descartou. Ao fim de três décadas, o banco central neozelandês percebeu a rigidez absurda do número único e passou a trabalhar com um intervalo flexível de 1% a 3%. O criador admitiu a imperfeição da criatura, mas o resto do mundo, embevecido pela falsa ilusão de rigor científico, continua a apertar a corda ao pescoço das suas próprias economias.

Ao não debater a fundo o limite dos 2%, o Fórum de Sintra perde a oportunidade de reconciliar a política monetária com o mundo real. O novo líder da Fed, Kevin Warsh, já avisou que os 2% são para manter. Lagarde já empurrou a próxima avaliação estratégica do BCE para 2030, embora a própria admita que a inflação tenderá a ser muito mais “volátil” devido à fragmentação geopolítica.

Em economia, a legitimidade nem sempre nasce do rigor das equações, mas da força do hábito. O problema é que o mundo já mudou, e a nossa carteira continua refém de um hábito nascido na década de 1980, numa televisão do outro lado do mundo. Teria sido um excelente debate para Sintra. Se houvesse coragem para o fazer.

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