A Lusa e a perífrase de um roubo
Os vândalos que furtam, bloqueiam as estradas, mancham fachadas ou atiram tinta contra quadros não são fedelhos, são adultos conscientes dos seus atos e responsáveis por eles.
Rui Rocha dizia há uns dias, em tom jocoso, que temos de aprender a interpretar a linguagem da comunicação social. Tenho pena que assim seja, mas tem razão. De cada vez que leio uma notícia sobre ‘ativistas’ num jornal, já sei de que se trata. Falamos de um qualquer ato de vandalismo cometido por extremistas, invariavelmente de esquerda. Ser apelidado de ‘ativista’ não está ao alcance de qualquer arruaceiro.
Se algum dia o Climáximo fez ativismo ambiental, esse dia já vai muito distante. Há muito que está entregue à simples depredação ou ao mais elementar fanatismo comunista. Podemos discutir, num futuro texto, o anticapitalismo e as soluções sempre tão democráticas e eficientes que têm a apresentar. Por hoje, fico-me pela vulgaridade dos abusos que têm perpetrado.
O último, o assalto ao Continente do Campo Pequeno, foi coroado por um título indescritível, replicado acriticamente por boa parte da comunicação social. Neste comovente ato de claro ativismo político (este sim), a Lusa titulou “Ativistas do Climáximo redistribuem alimentos que tiraram de supermercado”. Redistribuem? Tiraram? Roubaram. É um ato grave, alegadamente criminoso e espero que seja punido conforme manda a lei.
Há, em Portugal, um problema sério de cegueira seletiva. Surpreende-me de cada vez que vejo setores da opinião publicada a falar sobre a violência da extrema-direita, que não deve ser desvalorizada, esquecendo-se, sem maldade, com certeza, dos atos de selvajaria à margem da lei que alguns radicais de esquerda praticam neste país. O seu amor à democracia fica exposto quando vaiam a direita no 25 de Abril. Agora, são reles saqueadores.
Noutro sentido, Cotrim de Figueiredo classificou estes autoproclamados ativistas de “pirralhos mimados”. Desta vez, tenho de discordar. O paternalismo tende a não funcionar, e aqui até é contraproducente. Os vândalos que furtam, bloqueiam as estradas, mancham fachadas ou atiram tinta contra quadros não são fedelhos, são adultos conscientes dos seus atos e responsáveis por eles. Mesmo que não sejam grandes amantes da liberdade, a sua beleza está precisamente na possibilidade de os responsabilizarmos pelas suas atitudes. Neste caso, parece tudo muito claro.
Discordam dos lucros das grandes cadeias de supermercados? Querem ser ativistas? Deixem de ir lá comprar. É tão simples quanto isto. O retalho alimentar é um negócio de margens líquidas reduzidas. É um negócio de escala. Se forem muitos, como acham que são, pode ser que tenham impacto. Não vale tudo para aparecer na televisão.
Infelizmente, este tipo de atos do Climáximo já é habitual, já o banalizamos. A atenção que este, em particular, recebeu advém diretamente do ativismo militante dos jornalistas que o descreveram. Tenham, pelo menos, esse mérito.
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