A nova realidade da defesa europeia: porque o seguro de crédito se tornou indispensável

  • Acácio Ferreira
  • 18 Fevereiro 2026

Acácio Ferreira, Trade Credit Director da corretora WTW, entra nas especificidades da indústria de defesa e explica por que o risco político e o risco de crédito devem estar cobertos por seguros.

O estudo Managing the New Economic Risks in the Defense Sector (WTW, janeiro 2026) revela que a indústria de defesa enfrenta riscos económicos crescentes e imprevisíveis. Neste contexto, o seguro de crédito e o seguro de risco político assumem um papel estratégico para garantir liquidez, continuidade e resiliência.

Um setor em expansão, mas exposto a riscos inéditos

A indústria de defesa europeia vive um momento paradoxal. A procura aumentou de forma significativa, impulsionada pela guerra na Ucrânia, pela instabilidade no Médio Oriente e pela crescente rivalidade entre grandes potências. No entanto, como demonstra o estudo Managing the New Economic Risks in the Defense Sector, este crescimento ocorre num ambiente marcado por riscos económicos profundos, que condicionam a capacidade das empresas de produzir, entregar e financiar operações.

A instabilidade geopolítica tornou‑se permanente. E essa incerteza não afeta apenas a estratégia militar, afeta diretamente a previsibilidade financeira das empresas que sustentam o setor.

Riscos que moldam o futuro da indústria

O estudo mostra que a indústria de defesa opera hoje num ecossistema onde vários riscos se acumulam e se reforçam. A fragmentação europeia continua a ser um dos principais desafios: a tensão entre a necessidade de ganhar escala e a vontade de preservar soberania nacional impede a consolidação de programas conjuntos e mantém custos elevados. Esta falta de coordenação limita a competitividade e atrasa a capacidade de resposta.

A isto juntam‑se as guerras tarifárias, que introduzem volatilidade adicional, encarecem componentes e criam incerteza sobre o acesso a mercados estratégicos. A dependência europeia de matérias‑primas críticas e de componentes eletrónicos provenientes da China agrava ainda mais esta vulnerabilidade. Qualquer perturbação geopolítica no Indo‑Pacífico teria impacto imediato na produção europeia, dada a concentração de fornecedores essenciais naquela região.

Outro risco identificado pelo estudo é o chamado phantom spending: aumentos orçamentais anunciados que não chegam a materializar‑se. Esta distância entre intenção política e execução orçamental cria incerteza para as empresas, que hesitam em expandir capacidade produtiva sem garantias de contratos firmes.

Por fim, a ambição de reindustrializar a Europa enfrenta obstáculos profundos. Décadas de deslocalização e liberalização deixaram bases industriais fragilizadas, e reconstruí‑las exige políticas consistentes, financiamento estável e uma visão estratégica que ultrapasse ciclos políticos. Sem resolver estes riscos estruturais, a Europa continuará vulnerável num momento em que a autonomia industrial é mais necessária do que nunca.

A imprevisibilidade como novo fator de risco

Apesar do aumento de encomendas, muitas empresas continuam expostas a atrasos, a renegociações e a riscos de incumprimento. A pressão sobre orçamentos públicos, a instabilidade política e a crescente complexidade regulatória tornam cada contrato mais vulnerável. Ao mesmo tempo, cadeias de abastecimento fragilizadas – dependentes de minerais estratégicos, eletrónica asiática e fornecedores altamente concentrados – criam riscos upstream que podem paralisar a produção.

Num setor onde projetos valem centenas de milhões e se estendem por décadas, a imprevisibilidade tornou‑se um risco sistémico.

Porque o seguro de crédito e de risco político são agora estratégicos

É precisamente neste contexto que o seguro de crédito e o seguro de risco político assumem um papel central para a resiliência das empresas da indústria de defesa. A volatilidade orçamental dos Estados compradores, a possibilidade de atrasos ou renegociações e a exposição a decisões políticas súbitas tornam estes instrumentos mais do que mecanismos de proteção – tornam‑nos elementos estruturantes da estabilidade financeira.

O seguro de crédito permite às empresas operar com maior confiança, protegendo‑as contra incumprimentos num setor onde os contratos são complexos, prolongados e frequentemente dependentes de contextos políticos instáveis. Já o seguro de risco político oferece uma camada adicional de segurança, cobrindo situações como cancelamentos de licenças, embargos, bloqueios cambiais ou alterações regulatórias inesperadas – riscos que o estudo identifica como crescentes e cada vez mais imprevisíveis.

Além disso, estas soluções têm hoje um papel determinante no acesso ao financiamento. Num ambiente em que bancos exigem garantias robustas para apoiar produção de longo prazo, a existência de uma apólice sólida pode desbloquear crédito, facilitar pré‑financiamento de inventário e dar estabilidade às cadeias de abastecimento. A proteção financeira deixa, assim, de ser apenas uma salvaguarda e passa a ser um facilitador direto da capacidade industrial.

Num setor onde a previsibilidade é reduzida e a exposição ao risco é elevada, o seguro de crédito e de risco político tornam‑se instrumentos essenciais para garantir que as empresas conseguem produzir, exportar e investir – mesmo perante um cenário global cada vez mais volátil.

Uma década decisiva

A Europa enfrenta uma década decisiva. A capacidade de reforçar a sua autonomia estratégica dependerá não apenas de investimentos militares, mas da solidez financeira das empresas que sustentam o setor. Num ambiente onde a instabilidade é permanente, o seguro de crédito e de risco político são fundamentais para proteger receitas, viabilizar exportações, garantir financiamentos, mitigar riscos geopolíticos e permitir investimento industrial de longo prazo.

  • Acácio Ferreira
  • Director, Credit and Surety Insurance, Willis Towers Watson Portugal

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