A próxima grande oportunidade pode não estar onde o mercado ainda procura
Apesar da evolução do talento e da influência económica, apenas cerca de 14% das startups em Portugal são fundadas ou lideradas por mulheres.
Os melhores investidores nunca construíram os seus maiores retornos a seguir o consenso. Construíram-nos quando conseguiram reconhecer mudanças estruturais antes de estas serem evidentes para o mercado. Foi assim com a internet. Com o software. Com o comércio eletrónico. Com a inteligência artificial. Cada uma destas transformações obrigou os investidores a abandonar modelos que tinham funcionado durante décadas para conseguirem reconhecer novas formas de criação de valor.
Hoje, acreditamos que está em curso outra transformação estrutural. Mas desta vez não começa na tecnologia. Começa na economia. Durante anos concentrámo-nos em aumentar a qualificação, fomentar a inovação e incentivar o empreendedorismo. E fizemo-lo com sucesso. Portugal forma hoje mais talento altamente qualificado do que em qualquer outro momento da sua história. As mulheres representam mais de metade dos diplomados universitários e dos doutorados e assumem um papel crescente na ciência, na tecnologia, na indústria e na inovação.
Ao mesmo tempo, outra mudança ganhou escala. As mulheres representam uma parcela crescente da criação de riqueza, da gestão de património e da influência sobre as decisões de consumo. Ou seja, aumentou simultaneamente quem cria conhecimento e quem determina uma parte crescente da procura. Seria expectável que estas duas tendências se refletissem na criação e no crescimento de empresas. Mas essa conversão continua muito abaixo do potencial disponível.
Os dados mostram esse desfasamento. Apesar da evolução do talento e da influência económica, apenas cerca de 14% das startups em Portugal são fundadas ou lideradas por mulheres e apenas uma pequena fração do capital disponível chega a empresas com liderança feminina. Para nós, esta não é apenas uma estatística. É um sinal de mercado. Quando duas das variáveis mais importantes da economia evoluem rapidamente — talento e capacidade de compreender o consumidor — mas a terceira, a criação de empresas capazes de escalar, permanece significativamente abaixo desse potencial, a pergunta deixa de ser social. Passa a ser económica. Onde está a perder-se esta criação de valor?
Talvez a pergunta mais importante não seja porque existem menos empresas lideradas por mulheres. Talvez seja perceber por que motivo uma economia que já criou tanto capital humano continua a convertê-lo de forma tão ineficiente em capital económico. É precisamente aqui que acreditamos existir uma oportunidade de investimento. Porque investir em empresas em crescimento nunca depende apenas dos resultados alcançados. Depende da capacidade de reconhecer equipas capazes de liderar mercados que ainda estão a nascer. Depende de perceber consumidores que estão a mudar. Depende de identificar necessidades que muitos ainda não conseguem ver. E depende, sobretudo, de distinguir mudança estrutural de tendência passageira. É aqui que os melhores investidores criam retorno. Não porque investem de forma diferente. Mas porque conseguem reconhecer valor antes de esse valor ser evidente para os restantes.
Ao longo da história, sempre que a realidade económica mudou mais depressa do que os modelos utilizados para a interpretar, surgiram oportunidades extraordinárias. Acreditamos que estamos novamente perante um desses momentos. Não porque exista falta de talento. Nem porque existam menos empresas de qualidade. Mas porque a velocidade a que a economia evolui continua a ser superior à velocidade com que aprendemos a reconhecer novas formas de potencial.
Para nós, esta é uma tese de investimento. Não investimos para corrigir uma estatística. Investimos porque acreditamos que as maiores oportunidades surgem precisamente quando existe um desfasamento entre a realidade e a forma como o mercado a interpreta. No final, essa sempre foi a essência do investimento. Não prever o futuro. Reconhecer mais cedo aquilo que o futuro já começou a mostrar.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
A próxima grande oportunidade pode não estar onde o mercado ainda procura
{{ noCommentsLabel }}