A revolução ‘skills-first’ na educação em saúde
Formar profissionais capazes de aprender continuamente poderá ser a missão mais importante das universidades do século XXI.
Vivemos um tempo em que a velocidade da mudança desafia a própria natureza do conhecimento. A digitalização, a inteligência artificial, a transição verde e o envelhecimento populacional estão a transformar o mundo do trabalho e a exigir que as instituições de ensino superior tenham uma nova resposta: preparar profissionais capazes de aprender continuamente, agir com autonomia, pensar criticamente e aplicar o saber com propósito.
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), no relatório Empowering the Workforce in the Context of a Skills-First Approach, propõe um novo paradigma: o modelo skills-first, uma abordagem que valoriza as competências reais e demonstradas de cada pessoa, independentemente de onde ou como foram adquiridas. O objetivo é colocar as competências no centro da formação, do recrutamento e do desenvolvimento profissional, superando a dependência excessiva de diplomas e títulos formais.
Durante décadas, as credenciais académicas foram o principal critério de seleção no acesso ao emprego e à progressão na carreira. Contudo, num mundo em constante mutação tecnológica e científica, os diplomas, embora essenciais, já não bastam. O relatório da OCDE mostra que, entre 2018 e 2023, o número médio de competências que as pessoas sinalizaram nos seus perfis digitais aumentou 20%, e que a probabilidade de contratação cresce significativamente quando essas competências são verificáveis e alinhadas com as necessidades do mercado. Esta transformação é igualmente reconhecida pelo Fórum Económico Mundial, pela Comissão Europeia e pela UNESCO, que identificam as competências digitais, analíticas, colaborativas e adaptativas como determinantes para o futuro do trabalho.
Ser skills-first é, portanto, passar de um sistema centrado no certificado para um sistema centrado na evidência do “saber-fazer”. É medir o valor de um profissional pela sua capacidade de resolver problemas, comunicar eficazmente, adaptar-se a novas tecnologias e contribuir para equipas multidisciplinares. Esta mudança não desvaloriza a educação formal. Obriga-a a reinventar-se, tornando-a mais aplicável, mais flexível e mais próxima da realidade social e profissional.
No ensino da saúde, esta transformação é particularmente evidente. A formação clínica moderna requer, para além do domínio técnico, de competências interpessoais, éticas e digitais que sustentem uma prática centrada na pessoa. Diagnosticar, decidir e cuidar implicam hoje articular conhecimento científico, empatia e pensamento crítico. Este último permite distinguir informação de evidência, ponderar riscos e agir com discernimento em contextos de incerteza. Aprender significa compreender contextos complexos, colaborar em equipa e adaptar-se a ambientes tecnológicos em constante mudança. Hoje, um estudante pode demonstrar competências através de simulação clínica, portefólios digitais, utilização de ferramentas de IA ou participação em projetos interdisciplinares de investigação e intervenção comunitária.
Poucas áreas ilustram melhor esta necessidade de integração de capacidades como os grandes desafios de saúde do nosso tempo. É também aqui que a abordagem skills-first encontra a sua expressão mais completa no conceito One Health, que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Formar profissionais sob este paradigma implica desenvolver competências transversais, técnicas, tecnológicas e de inovação, capazes de integrar conhecimento científico, ferramentas digitais e capacidade de adaptação. São estas as competências do século XXI: capacidades que unem ciência, tecnologia e humanidade para responder a problemas complexos e interligados, antecipar riscos e promover bem-estar num mundo global. Preparar profissionais com este perfil é investir num futuro mais resiliente, inclusivo e sustentável.
A revolução skills-first é, no fundo, uma revolução cultural. Obriga universidades, entidades empregadoras e governos a repensar a forma como reconhecem e validam o talento. Exige microcredenciais, sistemas de certificação de competências, integração digital e aprendizagem ao longo da vida. As universidades terão de evoluir para modelos mais flexíveis, personalizados e centrados na demonstração de competências, complementando os currículos tradicionais com experiências práticas e certificação contínua. No fundo, exige uma nova mentalidade: a de que o conhecimento só é útil se for aplicado ao serviço das pessoas, dos animais e do planeta. No mundo que se desenha, as profissões serão definidas também pela sua capacidade de criar impacto.
Num mundo em constante transformação, um diploma continuará a abrir portas. Mas será a capacidade de aprender, desaprender e reaprender que determinará quem consegue atravessá-las. Formar profissionais capazes de aprender continuamente poderá ser a missão mais importante das universidades do século XXI.
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