A segurança aeroportuária tem uma nova altitude

  • Helder Alves
  • 4 Agosto 2026

O debate sobre a segurança aeroportuária tem-se centrado quase exclusivamente no que acontece em terra. Contudo, hoje, a faixa de baixa altitude imediatamente acima das pistas exige a mesma atenção.

Nos últimos anos, o debate sobre a segurança aeroportuária tem-se centrado quase exclusivamente no que acontece em terra: controlos, perímetros e vigilância dos acessos. Trata-se de uma abordagem correta mas, atualmente, insuficiente. Nos dias de hoje, a faixa de baixa altitude imediatamente acima das pistas exige a mesma atenção.

Até há poucos anos, esta área não integrava, na prática, qualquer perímetro de segurança específico. No entanto, a proliferação dos sistemas aéreos pilotados remotamente transformou-a numa nova frente operacional, cada vez mais exposta a tráfego aéreo não autorizado que a tecnologia tradicional não foi concebida para gerir.

Os números dos últimos meses tornam esta questão difícil de adiar. De acordo com uma análise da TheCube, da Euronews, publicada em 2025, as interrupções operacionais relacionadas com a presença de drones não autorizados nos aeroportos europeus quadruplicaram entre o início de 2024 e novembro de 2025, envolvendo mais de 24 aeroportos em doze países, com um aumento acentuado das notificações nos meses mais recentes.

É neste contexto que se enquadra o Plano de Ação sobre a segurança dos drones e as medidas antidrones, apresentado pela Comissão Europeia em fevereiro de 2026, que identifica os aeroportos como infraestruturas prioritárias e prevê a extensão das medidas civis contra drones aos respetivos perímetros. O plano contempla ainda investimentos específicos, estimados em 250 milhões de euros para fronteiras e aeroportos internacionais, aquisições conjuntas, requisitos técnicos harmonizados e plataformas de partilha de dados entre Estados-Membros.

O objetivo é duplo, garantir a segurança do espaço aéreo e, em simultâneo, reforçar a confiança no desenvolvimento de serviços legítimos baseados em drones, através de uma abordagem que integra as dimensões civil e militar.

Em comparação com as ameaças aeroportuárias mais tradicionais, o risco associado aos drones apresenta uma natureza distinta. Não se limita às interferências que obrigam a desvios de voos ou ao encerramento de pistas. Inclui também a sua potencial utilização maliciosa para reconhecimento, sabotagem ou transporte ilícito, bem como a exposição de passageiros e trabalhadores, a vulnerabilidade das infraestruturas críticas e o impacto nas cadeias logísticas associadas ao aeroporto.

Mesmo quando não resulta num acidente, cada episódio tem efeitos mensuráveis na continuidade operacional, na reputação e nos custos de gestão. É precisamente esta frequência crescente que torna insuficiente uma adaptação meramente formal às normas, por mais necessária que esta seja como ponto de partida.

O verdadeiro ponto de viragem é, antes de mais, cognitivo. Proteger um aeroporto das ameaças provenientes do céu significa, antes de qualquer intervenção, observar, distinguir, de forma contínua e fiável, o tráfego legítimo daquele que representa uma ameaça real.

Para os aeroportos em Portugal devemos equacionar como conceber uma capacidade estruturada de defesa contra drones de forma que seja proporcionada, interoperável e integrada no ecossistema de segurança existente. O espaço aéreo a baixa altitude tornou-se, de facto, uma nova fronteira da segurança aeroportuária.

Construir esta capacidade exige uma abordagem em vários níveis. Em primeiro lugar, a deteção precoce e atempada, mesmo de alvos que operam sem emitir qualquer tipo de radiação, recorrendo a radares e sensores de radiofrequência capazes de garantir uma cobertura contínua. Em segundo lugar, a identificação e o seguimento dos alvos através de sensores eletro-óticos, nos espetros visível e infravermelho, permitindo qualificar corretamente a ameaça antes de qualquer decisão operacional. Em terceiro lugar, a neutralização, assegurada por uma pluralidade de efetores, selecionados em função do contexto e coordenados com o funcionamento do próprio aeroporto. Por fim, uma capacidade unificada de comando e controlo, na qual a inteligência artificial e a fusão de dados sensoriais transformam sinais fragmentados em decisões rápidas e coerentes.

Para que esta arquitetura se mantenha eficaz ao longo do tempo, deve ser concebida como um sistema dinâmico, passível de atualização contínua. Os perfis de ameaça, as frequências utilizadas e os protocolos de voo dos drones evoluem a um ritmo que torna rapidamente obsoleta qualquer solução estática.

A tecnologia, por si só, não basta. Tanto a viabilidade da implementação de um sistema deste tipo num contexto de interoperabilidade, tão complexo como o de um aeroporto, como a sua eficácia operacional, dependem da capacidade de integração com as plataformas de gestão do tráfego aéreo e de segurança já em utilização. Dependem também da colaboração entre entidades que, até hoje, têm frequentemente operado em compartimentos separados: gestores aeroportuários, organismos de regulação do tráfego aéreo, forças de segurança e autoridades de defesa.

Não se trata de um terreno experimental. Capacidades deste tipo já se encontram operacionais e em pleno funcionamento em contextos aeroportuários e de defesa de vários países. Estas experiências oferecem uma referência concreta sobre a qual é possível construir requisitos adaptados à realidade portuguesa, em vez de partir do zero.

É nesta maturidade industrial, bem como na interoperabilidade entre os domínios civil e militar, repetidamente sublinhada também a nível europeu, que se mede o verdadeiro valor do investimento e a sua capacidade de adaptação a uma ameaça em constante evolução.

Para os aeroportos em Portugal devemos equacionar como conceber uma capacidade estruturada de defesa contra drones de forma que seja proporcionada, interoperável e integrada no ecossistema de segurança existente. O espaço aéreo a baixa altitude tornou-se, de facto, uma nova fronteira da segurança aeroportuária. Controlá-lo é condição essencial para continuar a garantir a confiança dos passageiros, dos operadores e das comunidades que dependem diariamente destes aeroportos.

  • Helder Alves
  • Diretor de Defesa e Segurança da Indra Group em Portugal

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