A sustentabilidade deixou papel periférico e passou a estratégia central

  • Maria João Simões de Almeida
  • 8 Junho 2026

Nenhuma organização transforma a sociedade sozinha. Mas quando diferentes entidades, empresas e líderes se reconhecem como parte da mesma missão, a mudança torna-se possível.

Ao longo dos últimos 25 anos, a sustentabilidade em Portugal deixou de ser um tema periférico para passar a integrar o centro da estratégia empresarial, das políticas públicas e da própria expectativa da sociedade. O caminho não foi linear, nem imediato. Foi sendo construído passo a passo, através da persistência de organizações, empresas e líderes que acreditaram, muito antes do tema ganhar centralidade mediática, que o desenvolvimento económico só faria sentido se estivesse ligado ao desenvolvimento humano, social e ambiental.

Curiosamente, quase em simultâneo, nasceram em Portugal duas organizações que acabariam por desempenhar papéis profundamente complementares nesta transformação: há 26 anos o GRACE – Empresas Responsáveis, e há 25 anos o BCSD Portugal. Com identidades diferentes, mas com uma visão convergente, ambas trabalharam no sentido de acelerar a maturidade da sustentabilidade no tecido empresarial português, e de promover uma crescente aproximação das empresas às grandes agendas internacionais de desenvolvimento sustentável.

Se inicialmente o foco estava mais centrado na sensibilização e mobilização, hoje existe uma visão muito mais integrada, estratégica e transversal do impacto económico, social e ambiental das organizações. Também se compreendeu que a sustentabilidade não pode ficar confinada a um departamento: exige envolvimento da liderança, mobilização das equipas e integração nas diferentes áreas da gestão, da cadeia de valor e da cultura organizacional.

Hoje, os desafios são naturalmente mais complexos do que há 25 anos. Vivemos um contexto de enorme instabilidade geopolítica, climática e social. A pressão regulatória aumentou, mas aumentou também a exigência da sociedade sobre o verdadeiro impacto das empresas. Já não basta comunicar compromisso; é necessário demonstrar coerência, transparência e capacidade de transformação. A sustentabilidade passou também a estar profundamente ligada à gestão da incerteza e à capacidade das organizações resistirem, adaptarem-se e recuperarem de riscos ambientais, sociais e de governação, garantindo a continuidade das suas operações e a criação de valor no longo prazo.

Olhando para 2050, acredito que o maior desafio será garantir que a transição sustentável não deixa ninguém para trás. Precisaremos de empresas capazes de gerar valor económico, mas igualmente de fortalecer comunidades, combater desigualdades e reconstruir confiança social.

Os próximos 25 anos exigirão menos silos e mais colaboração. Menos discursos e mais ação coletiva. E talvez essa seja a maior aprendizagem deste percurso: nenhuma organização transforma a sociedade sozinha. Mas quando diferentes entidades, empresas e líderes se reconhecem como parte da mesma missão, a mudança torna-se possível.

Nota: esta é uma coluna sobre os últimos e os próximos 25 anos da sustentabilidade, no âmbito do 25.º aniversário do BCSD Portugal e que pretende trazer conteúdos ligados a esta temática por personalidades de reconhecida influência empresarial ou académica.

  • Maria João Simões de Almeida
  • Diretora Executiva do GRACE

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