A tarifa não diz tudo: porque é que o preço do serviço de gestão de resíduos varia tanto?

  • Vera Eiró
  • 30 Março 2026

Aumentos mais acentuados podem resultar, em grande medida, de correções relativas a períodos anteriores.

A evolução das tarifas de gestão de resíduos volta regularmente ao debate público. E compreende‑se: quando há aumentos, quem paga quer perceber porquê — e faz bem. Este pedido de esclarecimento é sinal de um Estado de Direito a funcionar e de uma relação saudável com a regulação. Estamos cá para isso.

Depois de muitos anos de diálogo com municípios que, naturalmente, procuram compreender a formação das tarifas, consigo alinhar algumas ideias‑chave que, complementadas com análises técnicas detalhadas da equipa especializada da ERSAR, ajudam a clarificar os aspetos mais críticos da questão.

Vamos por partes e começo por um aviso ao leitor: os temas que vou detalhar são muito técnicos; mas são importantes. Fiquem comigo.

Em primeiro lugar, a regulação económica dos serviços de resíduos — tal como a dos serviços de água, eletricidade ou gás — assenta num modelo que articula custos, proveitos permitidos e ajustamentos obrigatórios distribuídos ao longo de vários anos. Sem esta chave de leitura, as variações tarifárias correm o risco de ser mal interpretadas.

Comecemos então pelo essencial, que continua a surpreender muitos: a tarifa aprovada para um ano não corresponde aos custos dos serviços desse ano. O quadro regulatório determina que custos incorridos num dado período são refletidos nas tarifas de anos seguintes. Acresce a existência de ajustamentos que corrigem diferenças entre o que se previu e o que aconteceu, bem como a possibilidade de constituir saldos regulatórios para evitar oscilações abruptas. Quando se olha apenas para o valor da tarifa de cada ano, perde‑se esta dimensão temporal.

Isto significa que aumentos mais acentuados podem resultar, em grande medida, de correções relativas a períodos anteriores. Ao longo dos anos, podem também ocorrer alterações metodológicas na forma como são tratados alguns custos. Pode acontecer, por exemplo, que determinados custos passem a ser reconhecidos integralmente no ano em que ocorrem, o que, no momento da mudança, origina um deslocamento técnico de encargos.

Mas, claro, o modelo regulatório não explica tudo.

Importa olhar para a evolução dos custos reais de exploração, que têm aumentado: o aumento do salário mínimo nacional, que pressiona estruturas intensivas em mão‑de‑obra como é o caso dos sistemas de gestão de resíduos urbanos (as nossas fábricas de resíduos); a inflação dos bens e serviços essenciais ao funcionamento destes sistemas; ou a redução da produção de energia nos aterros, que diminui receitas usadas para aliviar tarifas.

Há ainda fatores operacionais específicos.

A expansão da recolha seletiva porta‑a‑porta — necessária para cumprir metas ambientais e que, convenhamos, representa um sistema personalizado de transporte dos nossos resíduos — exigiu investimentos significativos e aumentou os custos. O esgotamento de aterros mais produtivos e a operação em instalações menos eficientes reduziram as receitas de valorização energética. Soma‑se a isto um défice estrutural entre os custos da recolha seletiva e os valores de contrapartida pagos pelos sistemas de responsabilidade alargada do produtor.

É muita informação técnica, reconheço. Mas é justamente essa complexidade que importa esclarecer.

No conjunto, a evolução tarifária não resulta de um único fator, mas da convergência entre regras regulatórias, custos crescentes e transformações estruturais do serviço. Ao discutirmos tarifas, é fundamental respeitar esta realidade técnica e fazê‑lo num ambiente de rigor, transparência e confiança.

A estabilidade tarifária é um objetivo legítimo — e é exatamente por isso que o regulador dispõe de instrumentos que ajudam a assegurá‑la. Mas a estabilidade não pode ser confundida com ausência de ajustamentos. Num setor em transformação, com exigências ambientais crescentes e pressão sobre os custos operacionais, é natural que as tarifas reflitam ao longo dos anos o que estes serviços efetivamente custam.

E cá estaremos para explicar, sempre que necessário.

Garantir que estes serviços essenciais são sustentáveis, que os custos são recuperados de forma eficiente e que as pessoas entendem por que pagam o que pagam faz parte da responsabilidade do regulador — e continuaremos a cumpri‑la.

  • Vera Eiró
  • Presidente da ERSAR -- Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos, presidente da WAREG (European Water Regulators) e professora da Universidade Nova de Lisboa (Faculdade de Direito)

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

A tarifa não diz tudo: porque é que o preço do serviço de gestão de resíduos varia tanto?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião