Agentes de IA, as alavancas cognitivas
O que me parece mais interessante não é o que já fazemos com estes sistemas, mas tudo o que ainda não pensámos em pedir-lhes.
Recentemente, comecei a delegar mais. Não a colegas ou a estudantes de doutoramento, mas a agentes de inteligência artificial. Os agentes de IA são sistemas autónomos capazes de planear, executar e iterar sobre tarefas complexas sem necessidade de intervenção humana de forma contínua. Numa tarde, um destes agentes concluiu uma análise da literatura, sintetizou um relatório e produziu uma apresentação com os principais pontos. Sem a ajuda deste agente, este trabalho ter-me-ia consumido esforço e tempo de três ou quatro dias. O resultado foi satisfatório, e o que retirei da experiência foi a constatação de que tarefas como esta representam apenas uma fração do que estes sistemas já conseguem fazer, e de que estava perante algo mais fértil e impactante do que uma simples ferramenta de produtividade.
O que os agentes de IA tornam possível não é apenas fazer mais depressa o que já fazíamos, mas antes realizar tarefas que exigiam estruturas que a maioria das pessoas e organizações não tinha ao seu dispor. Em muitos casos, não faltava a ideia ou a capacidade, faltava apenas a escala.
Deu-se um salto qualitativo em relação às ferramentas generativas que dominaram o debate público dos últimos dois anos. Estes agentes não se limitam a responder a perguntas ou a gerar texto e já executam sequências de tarefas, tomam decisões intermédias, iteram sobre os próprios resultados e reportam o que fizeram.
Ferramentas como o Codex da OpenAI, o Claude Code da Anthropic ou o OpenCode (agente de código aberto com mais de 6,5 milhões de utilizadores mensais) tornaram esta capacidade acessível a qualquer pessoa com tempo, curiosidade e persistência. Já não é necessário ter formação como engenheiro de software, nem dispor de uma equipa numerosa. Agora, basta saber o que se pretende construir e estar disposto a aprender a liderar e gerir os agentes que o podem construir.
Esta tecnologia pode ter um impacto transformador em qualquer tipo de negócio. Interessa-me, porém, considerar sobretudo os pequenos negócios e os recém-criados, por constituírem o grosso do tecido empresarial português. Segundo o INE, as microempresas correspondem a 96% do total de empresas em Portugal, e as micro e pequenas empresas, em conjunto, representam 99,4%. É neste universo que os agentes de IA podem ter um impacto mais profundo. Um pequeno negócio ou um projecto em fase de arranque, com três pessoas e acesso a estes agentes, pode hoje operar com uma capacidade que antes exigiria trinta colaboradores. Consegue automatizar o que é repetitivo e não acrescenta valor, optimizar o que é necessário mas consumia tempo considerável, e concentrar a energia humana no que de facto importa: a visão, a relação com os clientes e a criação de algo que ainda não existe.
A distância entre ter uma ideia e ter um produto nunca foi tão curta, tal como a distância entre ter um produto e ter um negócio.
Não obstante, dizer que as barreiras diminuíram não equivale a afirmar que desapareceram. Os entraves que efectivamente desapareceram não foram o da inteligência ou da dedicação, foi antes o da formação especializada em software.
Quem experimenta o chamado vibe coding (descrever a um agente, em linguagem natural, o que se pretende construir, sem escrever código linha a linha) rapidamente percebe que deixou de ser indispensável dominar uma linguagem de programação. Mas percebe também, e com igual rapidez, que continua a ser indispensável pensar com rigor, estruturar problemas e antecipar consequências. Qualquer formação que desenvolva a organização do pensamento, em engenharia, ciências, gestão ou outra área, continua a ser uma vantagem diferenciadora. O que mudou não foi o nível de exigência intelectual, mas sim o tipo de conhecimento técnico necessário para transformar uma ideia em algo mais tangível.
Esta observação baseia-se em dados concretos. Nos últimos meses, o Y Combinator, a mais influente aceleradora de startups do mundo, começou a receber candidaturas de fundadores individuais que, com o apoio de agentes, alcançam protótipos funcionais em semanas e obtêm validação de mercado em meses.
Em Portugal, onde o ecossistema de startups tem vindo a amadurecer mas continua a enfrentar constrangimentos significativos de capital e de talento, esta mudança tem implicações reais. No espaço de apenas dois anos, a insuficiência de capital humano que impedia o lançamento de um produto potencialmente competitivo deixou de ser um entrave.
A metáfora que me parece mais precisa não é a do assistente que apoia, mas a da alavanca que impulsiona. Os agentes de IA são uma alavanca cognitiva e operacional que permitem a um pequeno grupo de pessoas fazer o que antes exigia empresas ou organizações inteiras. Permitem automatizar o desinteressante, optimizar o necessário, acelerar a descoberta e catalisar a produção de valor. Estas capacidades são já demonstráveis, com ferramentas acessíveis, na maioria dos casos, de forma gratuita ou a custo marginal.
O momento é agora. A tecnologia ainda não é perfeita e há riscos. No entanto, o conhecimento sobre como gerir agentes de forma eficaz ainda não está generalizado, e isto pode representar uma vantagem crítica, mas só se for aproveitado agora.
As revoluções tecnológicas têm sempre um período em que os primeiros a dominar a nova forma de trabalhar ganham vantagens que os que chegam mais tarde dificilmente recuperam. Estamos nesse período, o momento é agora.
Comecei por curiosidade e continuei pela vantagem que trazem e pelos horizontes que abrem. Acima de tudo, o que me parece mais interessante não é o que já fazemos com estes sistemas, mas tudo o que ainda não pensámos em pedir-lhes, em parte porque assumimos que têm as mesmas limitações que nós.
Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.
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