Ancara ou a cimeira NATO de todas as definições
As críticas de Donald Trump ao investimento europeu em defesa voltam a marcar a agenda da NATO. A cimeira de Ancara poderá revelar até onde vai o compromisso dos EUA com a Aliança.
Se os europeus ainda tinham esperança de uma cimeira NATO ‘suave’ em Ancara como a de Haia, em que Trump elogiou o compromisso dos aliados em aumentar para 5% do PIB o investimento em defesa até 2035, a publicação do presidente norte-americano na Truth Social em vésperas da cimeira dá sinais que o tom da discussão será tudo menos o de celebração. Num gráfico, Trump exibe a proporção do investimento americano na Aliança Atlântica — EUA, 999.000 milhões de dólares [873 mil milhões de euros]; o Reino Unido, 90.500 milhões [79 mil milhões de euros]; França, 66.500 milhões [58 mil milhões de euros]; Itália, 48.800 milhões [42,6 mil milhões de euros]; Polónia, 44.300 milhões [38,7 mil milhões de euros]. “Os números dos outros, incluindo a Alemanha, são muito mais baixos” — e conclui: “É ridículo!” E Merz já reagiu: A Alemanha “não tem motivos para se envergonhar” e vai atingir o objetivo dos 3,5% do PIB em defesa já em 2029.
As rajadas entre líderes antecipa o tom para a cimeira de 7-8 de julho. Os Aliados têm vindo a aumentar, efetivamente, o seu contributo para a organização — “os aliados europeus e o Canadá já representam mais de 40% da despesa principal da defesa da Aliança em relação a 27% em 2014”, adiantou o ministro da Defesa português esta semana em audição parlamentar — e Portugal chega à cimeira na posição de ‘bom aluno’. “Estamos a dias de partir para a Cimeira de Ancara e na bagagem levamos já a certeza de que Portugal finalmente atingiu e até superou um investimento na defesa nacional de 2% do Produto Interno Bruto, na verdade atingimos um valor, agora confirmado pela NATO, de 2,01%”, disse Nuno Melo aos deputados da comissão de Defesa.
Mas o “ridículo” usado por Trump sinaliza que o esforço europeu vem tarde demais. Para mais que, desde Haia, muita água correu entre os dois lados do Atlântico, com o tema Gronelândia e o ataque ao Irão — e a falta de apoio dos europeus ao conflito, um imbróglio/quase embaraço para a Administração americana agora em ‘banho-maria’ — a causar danos na relação. Mas Trump não esquece — como referiu em abundantes publicações na Truth Social — e os resultados têm sido visíveis com os anúncios de retirada de tropas e equipamentos e, em menos de um ano, o secretário de Defesa americano promete novidades sobre o envolvimento dos EUA na Aliança. Desconfiamos que não serão boas notícias para a Europa. Ou então será o empurrão que a Europa necessita para acelerar o passo para garantir a sua autonomia de defesa.
Se o ‘bom aluno’ Portugal esteve na linha da frente na apresentação da proposta [do SAFE], corre o risco de ficar na fila de trás na hora de receber o investimento de que necessita para comprar equipamentos como as fragatas.
De Ancara espera-se uma definição mais clara do impacto que esta retirada de meios americanos da região poderá exigir aos aliados para garantir que o poder de dissuasão da NATO se mantenha intacto. Temas a ficar atento: Ucrânia (Zelensky vai marcar presença) e o banco de defesa proposto pelo Canadá. O primeiro-ministro, Mark Carney, quer em Ancara anunciar um grupo de 10 países fundadores do Banco de Defesa, Segurança e Resiliência (DSRB, na sigla em inglês), iniciativa que pretende mobilizar até 100 mil milhões de libras (cerca de 117 mil milhões de euros) para financiar a segurança dos aliados. Até ao momento é apenas conhecido o apoio do Luxemburgo ao projeto.
Financiar os esforços de segurança da Europa é uma preocupação, tendo Bruxelas libertado fundos e espera-se que no próximo quadro plurianual (MFF) esse impulso tenha continuidade e reforço, mas o tema é quem financia. O assunto deverá ter foco de debate em outubro no próximo Conselho Europeu, refere o Politico.
Até lá, por cá, aguardam-se desenvolvimentos do maior investimento de defesa da história recente do país: o pacote de empréstimo de 5,8 mil milhões de euros do SAFE. Nuno Melo diz que “no que depender” do Governo os primeiros contratos serão assinados em finais de julho, com os equipamentos a chegarem em 2029. Mas as várias datas e explicações avançadas não dão sinais de confiança de que será mesmo este mês que o cheque europeu vai chegar.
Justiça seja feita que, até ao momento, dos 19 países membros candidatos ao SAFE, apenas três fecharam contrato com Bruxelas, e somente a Polónia e o Chipre receberam a primeira tranche de 15%. Mas, se o ‘bom aluno’ Portugal esteve na linha da frente na apresentação da proposta, corre o risco de ficar na fila de trás na hora de receber o investimento de que necessita para comprar equipamentos como as fragatas.
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