Argentina: Curar o cancro da intervenção excessiva exige dor

A Argentina de ontem foi um fracasso. A de hoje é um laboratório de coragem política. E a de amanhã pode ser a prova de que a liberdade económica e a responsabilidade fiscal são terapias eficazes.

A vitória de Javier Milei nas eleições intercalares argentinas representa muito mais do que uma vitória política: É um ponto de viragem económica e institucional num país que viveu, durante décadas, aprisionado por um modelo estatista e autodestrutivo.

A Argentina parece, finalmente, disposta a persistir no caminho traçado por Milei — enfrentando a dor necessária para se curar. Um verdadeiro short-term pain for long-term gain, assente na compreensão de que, em economia, os milagres populistas acabam sempre em tragédias orçamentais. Por cá, essa maturidade continua ausente: só nos lembramos do pain quando nos cai uma troika no colo — uma infelicidade que revela bem a nossa aversão estrutural (quase infantil) à disciplina e à dor indispensável para reformar. Só com reguadas é que nos portamos bem.

Durante boa parte do século XX, a Argentina foi o exemplo mais eloquente de como um país rico em recursos e talento pode destruir-se sob o peso de políticas de esquerda populistas e estatizantes. No início do século XX, Buenos Aires rivalizava com Paris e Londres; a Argentina estava entre as dez economias mais prósperas do mundo. Depois vieram o peronismo, o protecionismo, as nacionalizações, o clientelismo e a crença de que o Estado poderia substituir o mercado. O resultado foi previsível: inflação crónica, desvalorização cambial, fuga de capitais e colapsos fiscais recorrentes.

Convém lembrar que o modelo argentino das últimas décadas foi, essencialmente, um modelo de esquerda intervencionista, baseado na expansão da despesa pública, na manipulação monetária e na retórica da redistribuição permanente. Não se trata de ideologia — trata-se de resultados. A economia argentina foi governada por políticas de inspiração peronista, um keynesianismo mal digerido e uma cultura de dependência estatal que se revelaram desastrosas. Nada de bom nasce de uma sociedade estatizante porque o Estado não cria riqueza — apenas a redistribui, e normalmente de forma ineficiente. Quando o Estado se torna simultaneamente produtor, financiador e regulador, perde neutralidade e cria distorções. A teoria clássica de Adam Smith já o explicava: o crescimento é um produto espontâneo da liberdade e da concorrência, não da planificação central. O intervencionismo excessivo substitui a lógica de mercado por uma lógica de dependência — e a dependência mata o dinamismo.

E aqui é importante esclarecer: defender políticas liberais e responsabilidade orçamental não é defender extremismos políticos. Acredito firmemente na democracia liberal, na liberdade individual e na separação de poderes. O meu apoio é a políticas económicas que funcionam, não a ideologias. O modelo argentino das últimas décadas foi um fracasso total e absoluto, e quando um modelo falha por tanto tempo, qualquer alternativa que restaure disciplina, mérito e responsabilidade é legítima e bem-vinda — doa a quem doer. Milei percebeu isto. As suas medidas — privatizações, cortes de despesa, liberalização cambial e redução drástica do défice — são dolorosas, sim, mas claramente necessárias. Ele próprio as apelidou de “o maior ajuste orçamental da história”. E é exatamente isso: uma terapêutica de choque depois de décadas de descontrolo esquerdista. A cura de um cancro económico em fase quase terminal não se faz com paliativos.

A lógica de Milei é precisamente a inversa — restaurar o equilíbrio e reconstruir a confiança, mesmo que custe caro no imediato. E disciplina orçamental significa agir sobre ambos os lados do orçamento — receita e despesa. Não basta aumentar impostos nem cortar cegamente despesas: é preciso repensar o papel do Estado. O orçamento deve ser um reflexo de prioridades racionais, não de interesses instalados.

Ora, na macroeconomia, o que importa é o longo prazo. Como recordava Friedman, “só há uma forma de avaliar políticas económicas: pelos seus efeitos a longo prazo”. A política, porém, vive (infelizmente) prisioneira do curto prazo — da chamada tirania do horizonte eleitoral. A miopia eleitoral e o populismo fiscal andam de mãos dadas: prometem conforto imediato à custa de estabilidade futura.

A lógica de Milei é precisamente a inversa — restaurar o equilíbrio e reconstruir a confiança, mesmo que custe caro no imediato. E disciplina orçamental significa agir sobre ambos os lados do orçamento — receita e despesa. Não basta aumentar impostos nem cortar cegamente despesas: é preciso repensar o papel do Estado. O orçamento deve ser um reflexo de prioridades racionais, não de interesses instalados. Como ensinou Buchanan, fundador da teoria da “public choice”, os governos tendem a gastar mais do que arrecadam porque são capturados por grupos de interesse que beneficiam de políticas deficitárias. A disciplina orçamental é, portanto, não apenas uma necessidade económica, mas uma virtude institucional. A Argentina falhou precisamente por ignorar esta verdade. Décadas de “rent-seeking” — conceito introduzido por Buchanan e Tullock — transformaram o Estado num distribuidor de privilégios. Cada grupo protegeu a sua “renda política”: empresas públicas deficitárias, sindicatos hiperprotegidos, pensões desajustadas. Todos ganharam um pouco a curto prazo, e o país perdeu tudo(!) a longo prazo.

Naturalmente, há dor no curto prazo. O desemprego e a contração económica são inevitáveis numa economia que passou décadas a viver de crédito fácil e défices crónicos. Mas como explicava Hayek, o ajustamento é doloroso precisamente porque é necessário: “A recuperação não se alcança através de inflação ou despesa, mas deixando que o mercado elimine os erros do passado.” Os países que compreenderam isso prosperaram. A Suécia, nos anos 1990, enfrentou uma crise orçamental e respondeu com reformas estruturais, cortando 20 pontos percentuais de despesa pública em relação ao PIB. A Estónia, após 1991, reduziu o Estado, liberalizou o mercado do produto e tornou-se uma das economias mais digitais e eficientes do mundo. A Irlanda, depois de 2008, ajustou as contas públicas, reequilibrou a despesa e voltou a crescer rapidamente. Nenhum destes países cresceu através da despesa; cresceram através da disciplina orçamental e da confiança.

Mas a maior lição de Milei é também macroeconómica e filosófica. O indivíduo “i” é irrelevante no agregado (Σ) da economia. A política económica não pode ser feita ao ritmo das dores individuais, porque o sistema funciona pelo todo, não pelas partes. O bem-estar agregado depende das médias, não das exceções. Cada cidadão é importante apenas moralmente, mas macroeconomicamente é uma formiga económica — um ponto minúsculo num somatório (Σ) que só faz sentido no coletivo. A economia não se pode guiar pelo protesto do indivíduo i ou j, mas pelo funcionamento do todo. É esse raciocínio — agregado, não emocional — que separa a ciência económica da política populista. O papel do Estado, como árbitro e não(!) jogador, é garantir as regras e o equilíbrio macro, não gerir microdramas individuais (para isso temos as telenovelas). O Estado deve criar as condições para o crescimento, não tentar produzi-lo diretamente. Essa é a fronteira entre um Estado árbitro e um Estado dirigista — e é essa fronteira que Milei tenta restabelecer.

Este último ponto liga-se também à luta entre o curto e o longo prazo – um dilema central da macroeconomia. O curto prazo pertence à política e à emoção; o longo prazo pertence à racionalidade e à produtividade. Milei aposta na segunda — e, ao fazê-lo, desafia décadas de autoengano.

A Argentina de ontem foi o exemplo do fracasso do intervencionismo. A de hoje é um laboratório social de coragem política. E a de amanhã pode ser, finalmente, a prova viva de que a liberdade económica e a responsabilidade orçamental são as únicas terapias — dolorosas, sim, mas eficazes — que curam na macroeconomia real. Milei está a aplicar o tratamento certo, sem se deixar distrair pelo ruído das formigas.

 

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