Arriscar Nova Iorque por Paris?
Se a Europa quer preservar a prosperidade e a liberdade do seu modelo, o continente tem de assumir o custo da sua própria independência.

- A rubrica Geração de Ideias dá voz aos distinguidos com o Prémio Professor Jacinto Nunes, atribuído pelo Banco de Portugal, e que distingue os melhores alunos da licenciatura em Economia. Tiago Neves foi distinguido enquanto aluno da Católica Porto Business School, relativamente à edição de 2024/25.
“Os interesses vitais da América podem, um dia, não coincidir absolutamente com os interesses vitais da Europa. Não há nisso nada de insultuoso nem de agressivo, e já foi dito muitas vezes por outros.” – Charles de Gaulle.
O que à época poderia soar como o ressentimento de um líder marginalizado nas negociações da Segunda Guerra Mundial ecoa hoje profundamente pela Europa. Aquilo que era descartado como o desabafo de um homem amargurado pela sua relação perturbada com a liderança americana, nomeadamente Roosevelt e Eisenhower, ilustra, hoje, uma realidade estrutural sobre a relação transatlântica: os interesses americanos e europeus não são idênticos e nunca o foram.
Já em 1956 a diferença era visível. Perante a perda do controlo do Canal do Suez devido à nacionalização egípcia do canal, França e Grã-Bretanha, juntamente com Israel, invadiram o canal de forma a retomar o controlo da região, contando com apoio americano. No entanto, Eisenhower, não querendo alienar o mundo árabe e empurrá-lo para a esfera de influência soviética, optou por isolar os seus aliados europeus. Os europeus foram forçados a uma retirada humilhante, selando o fim do seu estatuto como potências coloniais globais.
Durante décadas, divergências dos interesses foram ocultados por uma arquitetura institucional comum, por uma ameaça partilhada (o comunismo) e por uma visão relativamente convergente da ordem internacional. A Europa acomodou-se a essa ilusão, convencida de que os benefícios económicos da relação compensavam a perda de autonomia estratégica.
Após a Guerra Fria, a Europa agiu como se a ordem internacional fosse estática e como se o comportamento de um Estado não se ajustasse ao poder que projeta e à margem negocial que dispõe. Mais grave que presumi-la estática, foi presumi-la benévola. Essa fé nasceu, provavelmente, da própria experiência do continente: tendo sofrido no seu território uma guerra de aniquilação, a Europa convenceu-se de que mais ninguém quereria repeti-la e de que a memória da Segunda Guerra Mundial permaneceria gravada, intacta, nas gerações seguintes. Projetou o seu trauma sobre o resto do mundo, presumindo que todos os povos tinham retirado a mesma lição.
Basta, porém, um simples olhar para desfazer esta ilusão: se os países agissem todos de boa-fé, nenhuma nação precisaria de serviços de inteligência. Mesmo dentro da NATO, as informações não são todas partilhadas entre os estados signatários. Ainda mais, entre os aliados há estados que se espiam uns aos outros. No final, a máxima que existe é que o Estado defende primeiro os seus interesses, que mudam constantemente com as vontades políticas do povo. Confundir parcerias com amizades incondicionais foi uma aposta que a realidade se encarregou de punir.
Hoje, a convergência de interesses transatlânticos erodiu-se a um ponto de não retorno e o custo da dependência, outrora negligenciável, tornou-se evidente e impossível de ignorar.
A erosão da soberania europeia resultou em lacunas críticas na sua capacidade militar. Se antes esta dependência era irrelevante devido à convergência de interesses com Washington, hoje os custos são catastróficos. Esta falta de autonomia manifesta-se não só num fardo financeiro crescente, mas sobretudo na incapacidade funcional da Europa de impor os seus próprios interesses na esfera global.
Desde 2025, é a Europa que suporta a quase totalidade do financiamento à Ucrânia e, mesmo antes disso, segundo o Kiel Institute, a ajuda europeia já superava a americana. O apoio ainda se estende a outras áreas de operações críticas: a França fornece cerca de dois terços das informações de inteligência de que Kyiv necessita. Este apoio foi dado por necessidade, visto que os EUA suspenderam arbitrariamente, em 2025, o acordo de partilha de informações com a Ucrânia, de forma a pressionar a mesma a aceitar uma “paz” que a administração Trump queria.
E, no entanto, apesar de suportar a maior fatia dos custos de um conflito com raízes profundamente europeias, moldadas por divisões históricas e culturais seculares, a União Europeia foi relegada a um papel secundário, quase nulo, na definição dos termos de paz. Tanto Moscovo como Washington desvalorizam a capacidade da UE de moldar o desfecho, ao mesmo tempo que lhe atribuem a fatura. É a Europa que deverá ter de dar fast-track à adesão da Ucrânia na UE mesmo que não cumpra os critérios e é a Europa que, em princípio, terá de enviar soldados para garantir a paz no terreno.
Tudo isto é fruto de uma administração americana isolacionista que, ávida de colher os louros diplomáticos, acelera um acordo que ignora as causas estruturais da instabilidade, limitando-se a congelar o conflito, transferindo o problema para as gerações futuras, enquanto recompensa o agressor sem nenhuma contrapartida real.
A própria génese da guerra é um subproduto da falta de autonomia europeia. O Kremlin apostou que os europeus não reagiriam de forma decisiva, tal como sucedera com a anexação da Crimeia em 2014, e grande parte dessa perceção baseava-se na dependência energética europeia, que Moscovo usava como instrumento de paralisia política sobre os seus vizinhos e ainda usa atualmente. Recentemente, ameaçou a Arménia de parar com as transferências contratuais de gás devido ao interesse que a Arménia mostrou em aceder à União Europeia.
Ao depender de fornecedores externos para a sua defesa básica, a Europa concede a potências estrangeiras um direito de veto sobre a sua própria segurança
Atualmente, a mesma lógica repete-se no plano militar. Recentemente, foi reportado que a administração Trump ameaçou suspender a exportação de armamento destinado à Ucrânia caso os países europeus não colaborassem na “reabertura” do Estreito de Ormuz. Importante sublinhar: trata-se de armas já adquiridas e pagas pelos Estados Europeus. Trata-se, portanto, da ameaça de retenção de bens já pagos, servindo como meio de chantagem para submeter a Europa a objetivos unilaterais de política externa de Washington. Ao depender de fornecedores externos para a sua defesa básica, a Europa concede a potências estrangeiras um direito de veto sobre a sua própria segurança.
Estes episódios ilustram uma mudança de paradigma mais profunda: a mutação da cooperação e interdependência em coerção. Até 2022, o globalismo era entendido como uma ferramenta de mitigação de conflitos, e em nenhum lugar funcionou tão bem como na Europa, que converteu um continente marcado por séculos de guerras fratricidas num sistema de profunda interdependência económica. A lógica era simples: tornar o custo de guerra proibitivo.
Contudo, esta premissa falha perante regimes autoritários, e falha por uma razão que expõe a maior fragilidade ocidental. Os governos democráticos respondem perante os eleitores: têm de manter o custo de vida baixo e elevar a qualidade de vida, sob pena de perderem as eleições. As autocracias, blindadas pela repressão e pela propaganda, protegem-se incrivelmente bem dessa pressão, e exploram-na deliberadamente. Oferecem aos líderes democráticos um dilema claro: ou faz negócio connosco e fica dependente de nós, ou o bem-estar dos seus eleitores pode estagnar e arrisca-se a perder o poder. Assim, o Ocidente é obrigado a hipotecar a segurança de longo prazo em troca de ganhos
económicos de curto prazo, até ao dia em que a insegurança é cobrada, também ela trazendo os seus custos económicos. Em 2022, essa fatura chegou.
A ordem internacional já se vinha degradando durante décadas, mas a invasão da Ucrânia institucionalizou uma nova realidade: a integração económica como arma, as tarifas como instrumento de pressão, as infraestruturas financeiras como mecanismo de coerção. A interdependência, dantes sendo um seguro contra a guerra, tornou-se uma via para a subordinação. Entre a imposição sistemática de tarifas pela administração Trump, a ameaça de anexação da Gronelândia e a chantagem sobre as negociações ucranianas, ficou claro que, nesta ordem, a economia é a continuação da guerra por outros meios.
Face ao desmoronamento de uma ordem assente no Estado de Direito, a Europa tem de redefinir a sua posição estratégica. No atual cenário multipolar, a diplomacia do “papel e caneta” cedeu o lugar à crueza do “ferro e sangue”. Para se afirmar como protagonista, a Europa tem de mitigar vulnerabilidades em setores críticos. Esta autonomia acrescida não pressupõe uma autossuficiência absoluta, mas a redução das dependências cuja rutura, num cenário de conflito ou de pressão política, exigiria anos de recuperação e danos económicos profundos. A meu ver, há três frentes que concentram a maioria do risco: energia, defesa e infraestrutura digital e financeira. Em cada área, a dependência tem custos económicos duplos: custos diretos exorbitantes e perda de influência indireta que reduz a margem negocial da Europa perante os seus pares e rivais.
No plano energético, o vício no gás russo pré-2022 revelou-se um erro crasso. Para começar, estima-se que a União Europeia tenha injetado cerca de 680 mil milhões de euros em mecanismos de apoio para mitigar a subida de preços, resultado do aumento do preço do gás pós-invasão. Capital que, em vez de se investir no futuro, serviu apenas para tapar o buraco de uma crise energética e, consequentemente, industrial. Além disso, desde o início do conflito, o valor pago à Rússia em importações energéticas superou o total da ajuda enviada à Ucrânia. Por outras palavras, a Europa está a financiar a máquina de guerra que, simultaneamente, tenta conter através de sanções e apoio militar devido a uma má política energética por parte da União Europeia.
A erosão não foi apenas orçamental, mas estrutural. Mesmo com a estabilização dos mercados no último ano, a indústria pesada europeia continua a pagar um prémio energético permanente: segundo a IEA, a eletricidade para a indústria europeia chega a custar o dobro da americana. Grande parte deste dano tem assinatura alemã: o encerrarem as suas centrais nucleares (mesmo durante a crise energética) e a teimosia de Merkel que, depois de ver a Rússia invadir a Geórgia em 2008 e a Crimeia em 2014, insistiu em continuar com o Nord Stream.
Mesmo agora, a União Europeia sofre da sua exposição energética externa. A guerra com o Irão e o bloqueio do Estreito de Ormuz voltaram a fazer subir os preços do petróleo e do gás, ameaçando a produção e economia europeia ao reduzir a competitividade industrial e ao reintroduzir pressões inflacionistas. O mais grave é que a Europa está a sofrer as consequências de algo que, mais uma vez, não conseguiu controlar nem influenciar o desfecho. Os ataques liderados pelos americanos foram feitos sem a consulta dos europeus e, mesmo assim, a Europa ainda foi pressionada para ajudar a libertar o Estreito de Ormuz.
No setor de defesa, as insuficiências europeias são ainda mais severas. O arsenal europeu permanece umbilicalmente ligado aos EUA. A divergência dos interesses transatlânticos são notórios na recusa americana de partilhar tecnologia de ponta com os europeus. Mesmo em sistemas vitais para a defesa europeia como os misseis PAC-3, essenciais à defesa aérea, Washington retém o controlo total da produção, deixando os europeus completamente dependentes da produção americana para se defender.
Os EUA olham com desconfiança para o programa ReArm Europe, programa europeu para combater a carência de recursos na defesa, tentando travar as cláusulas de exclusividade europeia no financiamento militar. A ironia é evidente. A crítica vem de uma administração que aplica cláusulas idênticas no seu próprio mercado
Em paralelo, os EUA olham com desconfiança para o programa ReArm Europe, programa europeu para combater a carência de recursos na defesa, tentando travar as cláusulas de exclusividade europeia no financiamento militar. A ironia é evidente. A crítica vem de uma administração que aplica cláusulas idênticas no seu próprio mercado. Qualquer tentativa de quebrar o monopólio americano é recebida com confronto.
A dependência na defesa é reconhecida abertamente pelos governos. Por outro lado, a dependência digital e financeira é silenciosa e omnipresente. Da cloud à inteligência artificial, o ecossistema europeu é dominado por gigantes norte-americanos. Cada tentativa de regulação ou de multa às multinacionais é recebida com retórica hostil. A recente lei de IA europeia motivou ameaças explícitas de restrição de serviços ao mercado americano para empresas europeias. Num cenário de hostilidade, o que restaria da economia europeia se o acesso aos motores de busca, ao correio eletrónico ou ao processamento de pagamentos fosse cortado por decisão política externa? Em momentos de crise, as empresas deixam de ser meros maximizadores de lucro para se tornarem braços executivos dos seus Estados.
Outra prova disso foi a recente suspensão do acesso externo ao modelo mais avançado da Anthropic – Fable 5, na sequência de uma ordem do governo norte-americano que restringiu o seu uso por cidadãos estrangeiros. Empresas, universidades e instituições europeias, formalmente aliadas dos EUA, podem ser privadas de um dia para outro de tecnologias críticas. Uma Europa dependente de modelos, chips, clouds e plataformas americanas ficará sempre vulnerável a decisões políticas tomadas fora do seu controlo.
No plano financeiro, a Visa e a Mastercard processam cerca de dois terços das transações no continente e o que sucede quando essa infraestrutura obedece a sanções alheias já se viu. Por terem emitido um mandado de captura contra Netanyahu, magistrados do Tribunal Penal Internacional foram sancionados pelos EUA, ficando subitamente sem acesso às próprias contas bancárias, impedidos de usar apps americanas como Amazon ou Airbnb, mesmo sendo cidadãos europeus a servir numa instituição internacional. Quando a rede de pagamentos é estrangeira, a própria soberania judicial europeia fica à mercê de uma decisão tomada em Washington.
Neste contexto, a União Europeia também começa a reagir no domínio dos pagamentos. O projeto do Euro Digital visa criar um sistema de pagamentos direto, retirando a necessidade de intermediários como a Visa e a MasterCard. Em paralelo, cinco grandes operadores de pagamentos europeus, entre eles o MB Way, assinaram um memorando que tem como objetivo criar uma alternativa europeia aos sistemas americanos. Curiosamente, as duas iniciativas não são idênticas. Competem parcialmente, visto que o euro digital tem como um dos objetivos reduzir significativamente a necessidade do sistema de pagamento que seria criado pelo memorando. No entanto, ambas as ações partem do mesmo diagnóstico: a Europa não pode continuar dependente de infraestruturas de pagamento controladas fora do continente.
A interdependência que durante décadas baixou custos, elevou a qualidade de vida e tornou a guerra impensável é, agora, uma ferramenta de coerção. As dependências para o funcionamento normal da vida são usadas contra nós em acordos comerciais, disputas tecnológicas ou conflitos geopolíticos. A Rússia fá-lo através da energia. A China fá-lo através das matérias-primas, da indústria e das cadeias de abastecimento. Os EUA fazem-no através da defesa, da tecnologia, dos sistemas de pagamentos e do acesso ao seu mercado. Dos três, porém, é o caso americano o mais perturbador, por vir de quem julgávamos do nosso lado.
A pergunta fundamental é: pode a Europa confiar em que os Estados Unidos virão ao seu auxílio? A dúvida já não é nova. Já De Gaulle questionava se Washington estaria realmente disposto a “trocar Nova Iorque por Paris”, em caso de retaliação de ataques nucleares. A experiência ucraniana é um exemplo que nos deve deixar cautelosos. A Ucrânia, em troca de abdicar do terceiro maior arsenal nuclear do mundo, obteve, no Memorando de Budapeste em 1994, o compromisso de que a sua soberania e as suas fronteiras seriam
respeitadas. Este compromisso foi atropelado em 2014 e 2022, primeiro pela própria Rússia, uma das signatárias, e depois pela incapacidade dos restantes signatários de suportarem o custo de o fazer cumprir plenamente.
Washington não tem interesse numa Europa próspera, estável e poderosa, preferindo-a numa condição de vassalagem, útil enquanto serve e descartável quando deixar de servir. O apoio americano a partidos de extrema-direita na Europa e, mais recentemente, o apoio aberto de JD Vance a Viktor Orbán são apenas mais um sinal de que os Estados Unidos preferem uma Europa dócil e subdividida.
Com a administração atual dos EUA, esta questão não é uma dúvida. Washington não tem interesse numa Europa próspera, estável e poderosa, preferindo-a numa condição de vassalagem, útil enquanto serve e descartável quando deixar de servir. O apoio americano a partidos de extrema-direita na Europa e, mais recentemente, o apoio aberto de JD Vance a Viktor Orbán são apenas mais um sinal de que os Estados Unidos preferem uma Europa dócil e subdividida.
A resposta, contudo, não é isolacionismo. Como notou Frédéric Bastiat, quando os bens não cruzam fronteiras, os soldados cruzam. O objetivo europeu não pode ser cortar relações, mas um de-risking estratégico: reduzir as dependências críticas e, com isso, alargar a margem negocial europeia. Uma Europa menos dependente é uma Europa que, perante maus-tratos vindos de Washington ou de outras nações, pode reajustar a sua posição sem impor sacrifícios insuportáveis aos seus cidadãos.
Coloca-se, então, uma escolha decisiva para a sobrevivência europeia. Diante de um suposto aliado que a trata como vassalo, a Europa pode ceder e ver o tributo pedido multiplicar-se sem fim, ou traçar uma linha e dizer “não mais”, fixando os limites. Estes limites só existem verdadeiramente quando a sua violação tem consequências, quer seja aliado quer não. Tal como na fundação de Roma, Rómulo traça no chão o limite da nova cidade. Remo, seu irmão, atravessa-o em desafio e perde a vida como consequência. A Europa precisa de traçar a sua própria linha. Não para transformar aliados em inimigos, nem para substituir diplomacia por guerra, mas para deixar claro que há limites que nem
Washington pode atravessar sem custo.
A história não perdoa a passividade. Durante a Guerra Fria, a Europa falhou em afirmar-se como um terceiro polo de poder. Repetir esse erro neste novo mundo multipolar seria fatal. Se a Europa quer preservar a prosperidade e a liberdade do seu modelo, o continente tem de assumir o custo da sua própria independência.
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