As bandas filarmónicas e a beleza da tradição

O valor artístico e educativo que estas associações e estas heranças culturais trazem quase involuntariamente às populações é incalculável.

Há uns meses, mesmo que longe da atenção mediática, a própria existência ou viabilidade financeira das bandas filarmónicas, bem como outras associações musicais, eram postas em causa por exigências draconianas de uma instituição arcaica e perdida no tempo. Não querendo gastar caracteres a chover no molhado, deixo esta notícia do Polígrafo para os leitores que se queiram inteirar do tema. Sucintamente, a ‘AD EDIT – Associação de Editores de Partituras e Compositores’ pretendia cobrar 1€ (!) por página impressa de partituras legalmente adquiridas, fotocopiadas para preservação e uso quotidiano. Taxar para colocar selos.

Para uma banda de 60 músicos, com obras de 5 ou 6 páginas e repertórios de, por exemplo, 20 peças, a multiplicação é fácil de calcular. Mataria as associações e, naturalmente, o incentivo à experimentação de novas obras ou autores — até incentivaria a adoção de práticas ilegais e a deixar de comprar partituras aos compositores ou detentores dos direitos. Enfim, ridículo.

Em devido tempo, o Carlos Guimarães Pinto foi a voz da razão, da sensatez, e não deixou que o tema caísse no esquecimento. A ele, eu e certamente milhares de outros músicos amadores e profissionais estamos agradecidos. Estamos agradecidos por repetidamente se lembrar do papel das bandas filarmónicas no ensino e na promoção da paixão pela música, bem como na dinamização das terras das associações e daquelas que as recebem em romaria. Felizmente, o assunto parece resolvido. Assim, deixo aqui o meu agradecimento a todos os partidos que apresentaram propostas ou apoiaram soluções ao longo dos últimos meses.

Sou músico há mais de 10 anos na Banda de Música de Cête, associação com 190 anos de história. Aqui cresci e venho aprendendo. Naturalmente, não somos músicos pelo dinheiro, somos amadores, e aquilo que ganhamos nos serviços da banda não cobre as horas que dedicamos à associação. Somos músicos por gosto pela música, pela camaradagem do grupo e, em grande parte, pelo amor à camisola. Estes valores que aqui se preservam há décadas, mesmo séculos, conhecem nas bandas filarmónicas, nos grupos de rancho folclórico, nos grupos de teatro e em tantas outras formas de comunidades artísticas locais um dos seus últimos redutos.

Com estas manifestações, conservamos um pouco por todo o território este amor à terra a que chamamos casa, ao associativismo desinteressado, à paixão pura e ingénua da arte que se espelha nesta nossa tentativa de respeitosamente a representar. Semana após semana, da Páscoa ao 15 de Agosto, mas não só, centenas, ou até milhares, de associações e músicos espalham-se pelo país para alegrar comunidades, urbanas ou rurais, mantendo vivas as tradições.

Em muitos locais deste país, estas associações são as únicas capazes de providenciar aos seus jovens o ensino de alguma arte. Em outras tantas geografias, as romarias que estas bandas animam com a sua música e presença são dos únicos momentos do ano em que os aldeões têm a oportunidade de ver gentes de fora. Para muitos jovens, é nas bandas filarmónicas que têm a primeira hipótese de desenvolver a capacidade de liderança, de aprender a ouvir o grupo e respeitar opiniões diversas, bem como de viver momentos de puro companheirismo. A música tem a peculiaridade de fazer dezenas de pessoas soarem como uma só e essa necessidade de união e de espírito de equipa é uma das mais belas aprendizagens que daqui levamos.

Mas a tradição não se fica por aqui: para uma banda como aquela em que toco, ter mais de 20 serviços por época implica que centenas de pessoas tenham de trabalhar um ano inteiro para preparar essas romarias, para naquele dia deixarem as suas gentes orgulhosas daquilo que conseguiram organizar. Durante um ano, para estas comissões de festas, aquela procissão, naquele domingo, é o único objetivo. Movem mundos e fundos para que, por mais um ano, o legado se mantenha vivo. E ano após ano torna-se cada vez mais difícil, porque as aldeias ficam vazias e mais envelhecidas, porque algumas comunidades chegam mesmo a desaparecer. Contudo, também é certo que, aquelas localidades onde a população ainda existe, mas paulatinamente vai abandonando as suas festas ou as suas associações – aquilo que a dinamizava – vão inevitavelmente definhando. É esta a triste sina de muitas terras do nosso país.

O valor artístico e educativo que estas associações e estas heranças culturais trazem quase involuntariamente às populações é incalculável. Mas, para a sua preservação, as autarquias e o poder local vão ter de desempenhar, cada vez mais, um papel essencial de suporte e auxílio. Se, para o poder central, estes agentes são menosprezáveis, para as comunidades são fatores dinamizadores fulcrais e, nestas eleições autárquicas, espero que não sejam esquecidos.

Para uma valsa funcionar, é preciso um par. A conservação deste legado opera como uma valsa: é preciso que associações e populações andem, de braço dado e de forma equilibrada, apoiando-se mutuamente. Quando pensamos nas bandas filarmónicas — associações centenárias que já ultrapassaram adversidades e provações, que ensinam e dinamizam comunidades, mesmo as mais recônditas — só podemos concluir que elas fazem hoje ainda mais sentido: são uma força de ligação do tecido social. Aquilo que se pede é que não sejam esquecidas, pelo contrário, que sejam lembradas e apoiadas, para que possam continuar a prestar o serviço único que sempre foram capazes de prestar.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

As bandas filarmónicas e a beleza da tradição

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião