As crianças no retalho: entre a influência natural e a responsabilidade das marcas

  • Solange Farinha
  • 6 Abril 2026

Trabalhar marcas no universo infantil é aceitar jogar o jogo longo. É compreender que nem tudo o que conta pode ser medido no trimestre seguinte.

Sempre me intrigou o tom de surpresa com que se fala hoje da influência das crianças nas compras familiares. Como se fosse uma descoberta recente. Não é. Quem já fez compras com crianças sabe que elas sempre participaram, de forma mais ou menos ruidosa, nas decisões. A verdadeira mudança não está na influência em si, mas no facto de o retalho ter finalmente deixado de a ignorar.

Enquanto profissional de marketing, esta constatação obriga-me a um exercício permanente de equilíbrio. Porque entrar no universo infantil não é apenas uma oportunidade estratégica, é também um território sensível, onde cada escolha comunica valores, limites e intenções. Quando uma marca decide estar presente num espaço pensado para crianças, não pode fingir neutralidade. Está a ensinar qualquer coisa, mesmo quando acha que está apenas a entreter.

É por isso que desconfio de discursos excessivamente românticos sobre “experiência” e “economia emocional”. A experiência, por si só, não é virtuosa. Pode ser vazia, oportunista ou até manipuladora. A questão relevante não é se as marcas devem ou não falar com crianças, mas como o fazem e com que grau de consciência.

No meu trabalho, vejo cada vez mais pais atentos, informados e críticos. Não procuram marcas perfeitas, mas marcas coerentes. Marcas que não tratam os filhos como consumidores precoces, nem usam a pedagogia como disfarce comercial. A confiança constrói-se quando a intenção é clara e o papel da marca é assumido sem truques.

Quando uma experiência consegue explicar, de forma simples e honesta, como funciona uma escolha, um produto ou uma consequência, está a acrescentar valor real. Não está a vender mais cedo, está a vender melhor, mais tarde. E isso exige abdicar do imediatismo que tantas vezes domina o marketing.

Trabalhar marcas no universo infantil é aceitar jogar o jogo longo. É compreender que nem tudo o que conta pode ser medido no trimestre seguinte. Que a memória vem antes da preferência e que a lealdade não se força — conquista-se com tempo, consistência e respeito.

As crianças sempre estiveram no carrinho de compras. A diferença é que agora as marcas também lá estão. A pergunta que devemos fazer não é se isso é eficaz, mas se é responsável. E essa resposta começa, inevitavelmente, dentro de cada decisão que tomamos.

Por isso, o investimento em levar o retalho para o universo infantil não pode ser encarado como uma moda, nem como uma decisão tática, mas sim como uma evolução estratégica. Representa a troca consciente da venda imediata pela construção de uma relação forte e duradoura. O sucesso futuro será medido não apenas em transações, mas na força dos laços criados com os seus consumidores. As marcas que hoje escolhem construir memórias, são as que amanhã terão um lugar garantido no coração — e no carrinho de compras — das famílias.

  • Solange Farinha
  • Diretora de marketing & cliente da Auchan Retail Portugal

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