As Fábricas de IA da Europa: supercomputadores de milhares de milhões à procura de quem os saiba usar
A Europa investe em 19 fábricas de IA e Portugal candidata-se a uma gigafábrica em Sines, mas um projeto discreto revela o calcanhar de Aquiles de todo o plano.
Nos últimos meses, o debate público português sobre inteligência artificial ficou capturado por um número: os milhares de milhões de euros em jogo na candidatura de Sines a uma Gigafábrica de IA. É uma conversa legítima e importante. Mas há outra história, menos glamorosa e mais reveladora, que quase ninguém conta.
A Europa está no meio de uma das apostas industriais mais ambiciosas da sua história recente. Desde o final de 2024, foram selecionadas 19 Fábricas de IA e 13 Antenas – estas últimas apresentam-se como centros regionais e nacionais no âmbito da iniciativa Europeia de Computação de Alto Desempenho (EuroHPC) que proporcionam às startups, PME e instituições públicas locais acesso direto a recursos avançados de supercomputação otimizados para IA – em toda a União Europeia, num investimento combinado de €2,7 mil milhões. A lógica é clara: criar ecossistemas integrados de supercomputação otimizada para IA, dados e talento, que permitam à Europa desenvolver os seus próprios modelos e aplicações de IA sem depender exclusivamente de plataformas americanas ou chinesas. Portugal participa como parceiro na AI Factory de Barcelona, centrada no novo supercomputador MareNostrum 5 AI, num investimento de 129 milhões de euros, e candidata-se agora a acolher uma Gigafábrica em Sines, através do investimento de um consórcio essencialmente privado que já fala num investimento total de oito mil milhões de euros e 100 mil chips.
São números que impressionam. E é precisamente por isso que importa fazer a pergunta que normalmente não é feita: e depois?
Ter um supercomputador não é o mesmo que saber usá-lo
Em fevereiro de 2024, arrancou um projeto europeu chamado EPICURE, sigla de um programa de suporte especializado a utilizadores de supercomputadores financiado pelo EuroHPC JU, com um orçamento de dez milhões de euros e 16 parceiros em 14 países. O INESC TEC é o parceiro português, com participação direta de investigadores da Universidade do Minho, e o projeto abrange todos os supercomputadores EuroHPC, incluindo o Deucalion, instalado em Guimarães.
A maioria das pessoas nunca ouviu falar do EPICURE. E o facto de existir é, simultaneamente, uma solução e uma confissão.
O problema que o EPICURE resolve é este: quando um investigador, uma startup ou uma PME obtém acesso a um supercomputador europeu, frequentemente chega à conclusão de que o seu código, desenvolvido para um computador normal ou para a cloud, simplesmente não funciona da mesma forma nessa arquitetura específica. Não porque o código esteja errado, mas porque a transição para a computação de alto desempenho exige conhecimento técnico especializado de que a maioria das equipas não dispõe. O EPICURE fornece esse apoio: engenheiros especializados que trabalham lado a lado com os utilizadores durante meses, adaptando código, analisando o desempenho e otimizando o uso dos recursos.
Em outubro de 2025, o projeto lançou um portal unificado de suporte, que funciona como ponto de entrada único para qualquer utilizador da rede EuroHPC. É um passo concreto na direção certa. Mas dez milhões de euros de suporte humano especializado para um ecossistema de 2,7 mil milhões de euros em infraestrutura diz muito sobre as prioridades que têm dominado o debate europeu.
O fosso entre construir e usar
Os dados são desconfortáveis. De acordo com o Parlamento Europeu, 12% das startups europeias consideram a burocracia de acesso aos supercomputadores excessivamente elevada, e 8% nem sequer conhecem as opções disponíveis. Quase metade da população da UE não possui competências digitais básicas. Apenas 13,5% das empresas europeias utilizam inteligência artificial nos seus processos. Em Portugal, essa percentagem fica abaixo da média europeia.
Ao mesmo tempo, a investigação é clara sobre onde o investimento tem maior impacto, i.e., cada euro gasto em formação e desenvolvimento de competências tem um multiplicador de produtividade 5,9 vezes superior ao de infraestrutura de dados ou de software. Isto não significa que a infraestrutura não seja necessária, pois é muito necessária… Mas isso significa que construir uma fábrica sem investir em quem a operará é uma estratégia incompleta.
Tenho acompanhado de perto este ecossistema, incluindo a participação portuguesa no EPICURE. O que observo no terreno confirma os números. Existe um genuíno interesse em usar estas infraestruturas, mas também há um défice real de competências técnicas específicas, sejam elas do mundo HPC, de otimização de código para GPU ou de paralelização de workloads de machine learning, que não se resolve por decreto nem por comunicado de imprensa. Resolve-se com tempo, com formação estruturada e com projetos como o EPICURE, MINERVA ou EVITA que estabelecem a ligação entre a infraestrutura e o utilizador real.
O que Portugal realmente precisa
A candidatura à Gigafábrica de Sines pode fazer sentido estrategicamente. Sines tem infraestrutura (StartCampus), energias renováveis, água para refrigeração, infraestrutura portuária e uma localização que serve tanto à Europa como ao Atlântico. Estas não são vantagens de relações públicas, são vantagens reais.
Mas uma Gigafábrica sem ecossistema é apenas um data center muito caro. Para que o investimento se traduza em impacto (p.ex., em startups portuguesas de IA, em investigação de ponta, em serviços públicos mais eficientes), Portugal precisa de investir em paralelo numa agenda de competências séria: programas de formação técnica em HPC e IA para investigadores, engenheiros e PMEs; utilização ativa dos mecanismos europeus já existentes, como o EPICURE, o EVITA, o programa FFplus para PMEs sem experiência em computação de alto desempenho, entre outros; e uma estratégia honesta sobre o papel que o país quer ter, queremos ser um hub de infraestrutura para grandes empresas tecnológicas? Uma plataforma de investigação para a lusofonia? Um polo de IA aplicada em setores de nicho em que temos vantagem comparativa?
A Europa está a aprender, a custo elevado, que a corrida pela soberania digital não se ganha apenas com hardware. O EPICURE existe exatamente porque alguém percebeu isso. A questão agora é se Portugal vai aprender a mesma lição a tempo ou vai esperar pela inauguração de uma Gigafábrica para se perguntar quem a vai usar.
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