As startups são um risco. A democracia também.

Escapou-me o momento em que a tutela da CGD passou do Governo para o Presidente da República. É que Marcelo está a tratar do assunto enquanto Costa e Centeno fogem da polémica que criaram.

Segunda-feira

O Estado pagou 1,3 milhões para ter a Web Summit em Lisboa? Uma pechincha. Fosse a generalidade do investimento público tão bem empregue assim e não estaríamos na encrenca em que estamos.

É fundamental posicionar o país para além do sol, praia, boa comida e futebolistas talentosos e não é todos os dias que se tem a oportunidade de trazer 50 mil pessoas dos sectores mais dinâmicos dos quatro cantos do mundo, dizendo-lhes que estamos abertos para fazer negócio e queremos estar no campeonato da inovação, dos projectos de base tecnológica, da criatividade, do design e da plena era digital.

Afinal, não é essa a receita que passamos a vida a prescrever quando falamos da necessidade de “subir na escala de valor”? Que não podemos competir pelos baixos salários? Que temos que abrir a economia, conquistando mercados lá fora e atraindo investimento estrangeiro? A digitalização da economia que atravessa todos os sectores, da banca à agricultura, do turismo à indústria, não é sequer uma opção. É uma inevitabilidade que decorre do avanço tecnológico, como aconteceu, por exemplo, com a primeira Revolução Industrial e a máquina a vapor.

Perante isso, podemos fazer uma de duas coisas: ter uma atitude passiva, deixando tudo andar ao ritmo lento e descoordenado a que estamos habituados, sem políticas públicas que potenciem infraestruturas, orientem e organizem os agentes; ou reunir esforços, colocar o tema na agenda, remover obstáculos e deixar que as empresas, as universidades, os investigadores e os protagonistas individuais façam o seu papel.

Propositadamente, não usei ainda neste texto as palavras “empreendedor”, “empreendedorismo” e “startups”, que causam urticária a algumas pessoas. Mas essas palavras não significam mais do que caracterizar uma parte do que acima está descrito.

Não deixa de ser uma deliciosa ironia que o corpo de combate contra o empreendedorismo, que ocupa uma parte do seu tempo a ridicularizar e desvalorizar as “startups” e o nada que supostamente elas geram – de produtos a empregos -, o faça no Facebook ou no Twitter, em textos publicados em blogs e em edições de media online, depois de verem as notícias nas apps usando iPhones e iPads.

Pelo meio, ainda têm tempo para encomendar um livro na Amazon. Depois de feitas as despedidas da pessoa que se encontrou no Tinder, claro.

De facto, como se vê, nada de bom resulta das cabeças destes putos de t-shirts e ténis que se tivessem juízo deviam antes preferir um emprego na função pública com direito a todos os subsídios em vez de andarem a inventar os “gadgets” e as plataformas que depois todos usamos.

Esta ideia de haver “empreendedores”, mais ou menos novos, que ambicionam ter ideias para resolver um problema que identificam, satisfazer uma necessidade num qualquer mercado ou mesmo criar uma necessidade que o consumidores não tinham antes e que ousam passar do papel à prática, conseguindo financiamento e reunindo equipas, é um conceito que faz confusão nalgumas cabeças.

Como é possível que haja pessoas assim, que são felizes a desenvolver e testar produtos, aplicações, equipamentos, conceitos de negócio, muitas vezes durante 12 ou 16 horas por dia e sete dias por semana, em espaços de trabalho despojados de luxos e partilhados com outras equipas semelhantes, prescindindo de um salário de jeito porque a empresa ainda não o pode pagar para, muitas vezes, chegarem depois à conclusão que afinal não funciona e partirem para outra? É verdade. Há gente muito estranha. Mas existe e é cada vez mais numerosa. Felizmente.

A Web Summit é uma feira sobre isso. Claro que, só por si, não vai resolver os nossos problemas estruturais. Mas se há um caminho que nos possa libertar lentamente da anemia ele passará também por aqui.

Em boa hora os governos portugueses souberam trazê-la para o país e fazê-la acontecer. E em melhor hora este governo lhe deu continuidade, com a enorme vantagem de ter a pessoa certa no lugar certo: João Vasconcelos, o secretário de Estado da Indústria, que conhece e entende o ecossistema como ninguém. Esta é uma parceria entre público e privado das boas. Não é alimentada por cheques ou por garantias de rendas sem risco. Cada um faz o que tem a fazer, assume as suas responsabilidades e estão todos bem com isso. E é assim que deve ser.

Terça-feira

A democracia também é um risco e Trump ganhou. O candidato inimaginável, grotesto, populista, machista, racista, mentiroso, truculento, instável, desagradável e o mais que queiramos teve tudo e todos contra ele. Todos, menos os eleitores suficientes para o fazer presidente dos Estados Unidos.

Ainda em choque, fazemos a pergunta: como foi possível? As análises estão e vão continuar a ser feitas. O populismo, de direita ou de esquerda, avança em várias geografias. Com economias estagnadas, sociedades desiguais, tensões culturais, ameaças à segurança e futuros incertos, serão cada vez mais os que estão disponíveis para acreditar em feiticeiros e curandeiros que prometem soluções fáceis e rápidas para problemas complexos e antigos.

Trump, como qualquer populista que se preze, diz que tem a solução milagrosa para a economia americana: fechar fronteiras, rasgar compromissos comerciais e ambientais internacionais, expulsar imigrantes, atirar dinheiro para a economia através de investimentos em infraestruturas e baixar os impostos a empresas e contribuintes com maiores rendimentos.

Vamos ter certamente uma agenda americana muito mais unilateral, um revés nas trocas internacionais e o potencial regresso de guerras comerciais e cambiais. Principais prejudicados? As economias mais pequenas que precisam do mercado externo para crescer e os países em desenvolvimento que só podem subir na escala do desenvolvimento se os mais ricos lhes derem acesso aos mercados mundiais.

Do lado interno, a receita orçamental de Trump tem todos os ingredientes para ter um desfecho como a de Reagan – uma brutal crise nos mercados que antecipou uma recessão global – ou a de Bush filho – défice e dívidas públicas estratosféricas.

Vamos ver se o exercício do poder lhe traz um pouco de bom senso económico. É habitual acontecer aos populismos, como vimos na Grécia com o Syriza e estamos a ver também em Portugal nos partidos da extrema esquerda que apoiam o governo.

Quarta-feira

Escapou-me o momento em que a tutela da Caixa Geral de Depósitos foi formalmente transferida do Governo para o Presidente da República. Mas, olhando para o protagonismo de Marcelo Rebelo de Sousa e para a fuga do governo do caso, só pode ter acontecido isso mesmo: a Caixa e os seus administradores respondem a Marcelo e não a António Costa ou Mário Centeno.

Foi o Presidente da República quem colocou o seu peso político e institucional na pressão a António Domingues. E foi de novo a Belém que o presidente do banco do Estado foi chamado neste dia para, diz-se, receber um ultimato e deixar um compromisso a Marcelo sobre a entrega de declarações de rendimentos ao Tribunal Constitucional.

Disto tudo, do governo nem uma palavra, nem um gesto, nada do normal exercício de tutela política da Caixa. Claro que o governo tem, neste caso, o pé entalado na porta: prometeu o que não podia nem devia e colocou a gestão da Caixa à deriva. O facilitismo, por regra, só gera novas dificuldades.

Sexta-feira

Faz um ano que foram assinados os acordos partidários que sustentam o governo no Parlamento. Fui dos que se enganaram sobre a solidez e a duração da solução. Há um ano, não consegui perceber como António Costa ia fazer a quadratura do círculo entre os compromissos europeus, que jurava querer cumprir, e as tradicionais exigências que decorriam dos programas políticos dos partidos da extrema esquerda, que estes juravam que iam manter.

A solução foi encontrada. Bloco de Esquerda e PCP dizem umas coisas graves e ameaçadoras às segundas, quartas e sextas e assinam serenamente o orçamento e as medidas que o suportam às terças, quintas e sábados. E ainda têm que o defender no Parlamento, o que é fantástico e seria inimaginável há um ano e um mês.

Temos então um governo apoiado pela extrema esquerda que está orgulhosamente a cumprir as metas acordadas com Bruxelas e a ser um campeão dos défices orçamentais.

Isso é uma excelente notícia para o país, que não pode arriscar o regresso à delinquência orçamental sem limites. Há tensões na despesa que se vão fazer sentir plenamente nos próximos anos? Há. Mas que o PS tenha aprendido alguma coisa com o facto de ter levado o país à bancarrota também é positivo.

Por opção própria, o autor não escreve segundo as regras do novo acordo ortográfico

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

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António Costa

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