Editorial

Ascensão e queda da Chic by Choice. As lições de um fracasso

Os fracassos de startups são uma regra, não são a exceção. E isso não pode pôr em causa o empreendedorismo e a capacidade de assumir risco dos promotores e de investidores.

A Chic by Choice, uma das startups em ascensão nos últimos anos e que acabou, recentemente, na lista da Forbes, é afinal, há meses, uma empresa fantasma e sem atividade. Este desfecho não manchou apenas a reputação das fundadoras e dos seus acionistas, nomeadamente a Portugal Ventures, mas criou um anátema sobre um ecossistema que, regra geral aparece nas notícias pelas boas razões. O que nos diz esta história?

Em primeiro lugar, as falências de startups são uma realidade que deve ser encarada com normalidade. Sem essa normalidade, o que ficará em causa é a capacidade dos empreendedores e sobretudo dos investidores de assumirem riscos. É essa a natureza das startups, e é preciso desmistificar a carga negativa dos projetos que falham. É uma aprendizagem, que serve seguramente para que os novos negócios não cometam os mesmos erros. Em Portugal, ainda assim, falhar é um carimbo negativo, e tem de deixar de ser.

Em segundo lugar, tem de haver transparência no insucesso. Pior do que a falência da Chic by Choice foi a forma como foi conhecida, uma história revelada pelo Observador. A empresa, fundada em 2014 e cujo modelo de negócio assentava no aluguer de vestidos de luxo, tinha os serviços indisponíveis, o número de telefone indicado está desligado “há semanas” e a empresa aparentava já não ter colaboradores. E há meses que se percebia a saída sucessiva de trabalhadores. Nesta investigação jornalística, ficou a saber-se também que a empresa anunciava há meses campanhas de promoção de venda de vestidos que chegaram a atingir os 80% de desconto, sendo uma área de negócio que nada tem a ver com o core da empresa.

Por outro lado, as duas fundadoras também começaram antes do final do ano passado a trabalhar noutras empresas: Filipa Neto trabalha na Farfetch desde o início de dezembro, enquanto Lara Vidreiro ocupa o lugar de consultora digital sénior de e-commerce na A2D Consulting, desde novembro de 2017 segundo o seu perfil no LinkedIn.

Ora, a falta de comunicação do encerramento da empresa e do falhanço do projeto contribuiu de forma decisiva para uma desconfiança em relação à Chic by Choice, mas sobretudo para a desconfiança em relação a um ecossistema empreendedor que, em Portugal, ainda está longe da maioridade. E este último ponto é que é verdadeiramente trágico. O segredo e a opacidade desta falência contrasta, claro, com a sucessão de entrevistas e de sessões de fotografia mais ou menos glamorosas das duas fundadoras nos últimos anos, quando o negócio foi lançado. Não é caso único, é uma lição, também, para os meios de comunicação social.

Há também aqui um papel importante dos investidores e, particularmente, dos que representam dinheiros públicos, como é o caso da Portugal Ventures. A última ronda de investimento noticiada pela Chic by Choice aconteceu em novembro de 2015, altura em que Filipa Neto e Laura Vidreiro fecharam um financiamento de 1,5 milhões de euros, de privados e da própria Portugal Venturas, que agora também se remete ao silêncio. Os investidores da Chic by Choice abandonaram as promotoras, deixaram cair o negócio de forma desordenada. Tinham de fazer o contrário.

Tudo isto não é razão para criar um ambiente negativo e de desconfiança em relação aos empreendedores e aos que arriscam, incluindo as duas promotoras da Chic by Choice. Pelo contrário, mostra sobretudo que o empreendedorismo tem de continuar a ser acompanhado, e cabe também aos próprios investidores uma exigência de cumplicidade e de compromisso, especialmente quando os negócios falham os objetivos.

PS: A Chic by Choice entrou no ranking da Forbes em 2018, na lista dos Under 30. A revista sai também muito mal deste processo, porque fica na dúvida a consistência e credibilidade destas listas. Como são construídas? Com que critérios? A Forbes tem muito a explicar.

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